Provavelmente um dos cineastas brasileiros mais importantes ao lado de um seleto grupo de realizadores como Mário Peixoto, Humberto Mauro, Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, José Mojica Marins e Julio Bressane, Rogério Sganzerla foi o principal idealizador do cinema “marginal” ou “udigrudi” paulista ao lado de Bressane, com quem fundou a produtora Belair.  Seu objetivo era ser tão autoral quanto Orson Welles ou os cineastas franceses da nouvelle vague, mas ao contrário de outros brasileiros que faziam isso, como o pessoal do Cinema Novo, ele também pretendeu trazer uma estética mais popular e menos intelectual, repleta de ironia e sarcasmo, sem nunca abandonar a transgressão e a crítica à política, sociedade e costumes. Seus filmes mais famosos são O Bandido da Luz Vermelha, A Mulher de Todos e Sem Essa, Aranha.

Bandido da Luz Vermelha, O (1968) – Luiz Carlos Freitas [5/5]

– Mulher de Todos, A (1969) – Bernardo Brum [4/5]

Sem Essa, Aranha (1970) – Bernardo Brum [5/5]

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E para aqueles interessados em ‘viajar’ em O Bandido da Luz Vermelha, as próprias palavras de Sganzerla sobre o filme em seu manifesto:

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Manifesto Rogério Sganzerla

1 – Meu filme é um far-west sobre o III Mundo. Isto é, fusão e mixagem de vários gêneros. Fiz um filme-soma; um far-west mas também musical, documentário, policial, comédia (ou chanchada?) e ficção científica. Do documentário, a sinceridade (Rossellini); do policial, a violência (Fuller); da comédia, o ritmo anárquico (Sennett, Keaton); do western, a simplificação brutal dos conflitos (Mann).

2 – O Bandido da Luz Vermelha persegue, ele, a polícia enquanto os tiras fazem reflexões metafísicas, meditando sobre a solidão e a incomunicabilidade. Quando um personagem não pode fazer nada, ele avacalha.

3 – Orson Welles me ensinou a não separar a política do crime.

4 – Jean-Luc Godadrd me ensinou a filmar tudo pela metade do preço.

5 – Em Glauber Rocha conheci o cinema de guerrilha feito à base de planos gerais.

6 – Fuller foi quem me mostrou como desmontar o cinema tradicional através da montagem.

7 – Cineasta do excesso e do crime, José Mojica Marins me apontou a poesia furiosa dos atores do Brás, das cortinas e ruínas cafajestes e dos seus diálogos aparentemente banais. Mojica e o cinema japonês me ensinaram a saber ser livre e – ao mesmo tempo – acadêmico.

8 – O solitário Murnau me ensinou a amar o plano fixo acima de todos os travellings.

9 – É preciso descobrir o segredo do cinema de Luís poeta e agitador Buñuel, anjo exterminador.

10 – Nunca se esquecendo de Hitchcock, Eisenstein e Nicholas Ray.

11 – Porque o que eu queira mesmo era fazer um filme mágico e cafajeste cujos personagens fossem sublimes e boçais, onde a estupidez – acima de tudo – revelasse as leis secretas da alma e do corpo subdesenvolvido. Quis fazer um painel sobre a sociedade delirante, ameaçada por um criminoso solitário. Quis dar esse salto porque entendi que tinha que filmar o possível e o impossível num país subdesenvolvido. Meus personagens são, todos eles, inutilmente boçais – aliás como 80% do cinema brasileiro; desde a estupidez trágica do Corisco à bobagem de Boca de Ouro, passando por Zé do Caixão e pelos párias de Barravento.

12 – Estou filmando a vida do Bandido da Luz Vermelha como poderia estar contando os milagres de São João Batista, a juventude de Marx ou as aventuras de Chateaubriand. É um bom pretexto para refletir sobre o Brasil da década de 60. Nesse painel, a política e o crime identificam personagens do alto e do baixo mundo.

13 – Tive de fazer cinema fora da lei aqui em São Paulo porque quis dar um esforço total em direção ao filme brasileiro liberador, revolucionário também nas panorâmicas, na câmara fixa e nos cortes secos. O ponto de partida de nossos filmes deve ser a instabilidade do cinema – como também da nossa sociedade, da nossa estética, dos nossos amores e do nosso sono. Por isso, a câmara é indecisa; o som fugidio; os personagens medrosos. Nesse País tudo é possível e por isso o filme pode explodir a qualquer momento.

2 Respostas to “Rogério Sganzerla”

  1. Rafael Bastos Says:

    Genial mesmo. Puta merda!

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