– por Michael Barbosa

O mundo dos desenhos animados e dos quadrinhos japoneses sempre me pareceram um universo bastante específico e completamente aparte desse tipo de produção feito nas Américas e na Europa; não que eu seja um grande conhecedor de uma dessas duas manifestações, bem longe disso e pelo contrário, mas do pouco que vi e li fiquei com essa sensação – um tanto quanto óbvia, inclusive. Falando nos quadrinhos, onde o preto e branco como lugar comum têm, naturalmente, profundos reflexos estéticos no tipo de ilusão de movimento e, principalmente, nos recursos estilísticos, é possível notar que as personagens quando se movem em cenas de ação (especialmente lutas) deixam um tipo de traço bem específico por onde passam, que a mim sugere movimentos extremamente abertos e estilizados, e frequentemente me suscitam a ideia do slow motion; outro fator é a criação de visuais pós-modernos e cyberpunks, através de figurinos ultra trabalhados, de um kitsch gritante, anacrônico e totalmente incoerente na relação com o ambiente e com a sua utilidade (um colégio de ensino médio; brigar), levando a uma sociedade japonesa em plena rota de conflito entre o tradicional e a ocidentalização pujante da cultura pop. No meio disso tudo sempre me pareceu um pouco complexa a ideia de adaptar esse universo dos quadrinhos pro cinema de live-action, tendendo a ter resultados difíceis de racionalizar – como Speed Racer, dos irmãos Wachowski, filme posicionado de maneira um tanto relevante em alguns debates sobre a estética na era atual das artes, mas que me parece bem ruim mesmo, afinal.

Enfim, essa introdução toda é para dizer que Takashi Miike se coloca na linha de tiro dessas questões ao adaptar para o cinema Crows Zero, mangá de sucesso sobre, literalmente, a briga para mandar na escola mais violenta do Japão. E contra todas as probabilidades (ou não) a coisa vai bem e dá certo.

Tantas incertezas são, em parte, porque Crows Zero, a primeira vista, é “só” um filme sobre adolescentes japoneses batendo uns nos outros por nenhum motivo aparente além de satisfazer o próprio ego – isso por duas horas e alguma coisa–; porém, numa segunda olhada, além da superfície… vai continuar sendo isso mesmo, mas será possível, nesse panorama, encontrar o discurso da história. As personagens de Crows Zero estão visivelmente perdidas em algum ponto do rito de passagem entre a adolescência e a vida adulta, numa completa deserção, onde pilares como família, religião e política parecem importar bem pouco ou quase nada, e na contrapartida os poucos adultos que aparecem ao longo da história ou não dão a mínima esperando que isso seja apenas uma fase ou então estão até hoje perdidos nessa tal transição.

Os garotos da Suzuran All-Boys High School, a tal escola da história, são, pois, versões radicais do arquétipo instituído do sujeito pós-moderno, que no fim das contas não dá a mínima, não por algum niilismo racionalizado, mas apenas porque não se importam mesmo. A busca por poder em Suzuran tem um fim em si mesma, o poder almejado não tem uma finalidade física, é, no máximo, uma autoaprovação – Genji, personagem principal, tem como grande motivação conseguir fazer algo que seu pai, um chefão da Yakuza, não conseguiu, ou seja, se trata, quase sempre, sobre satisfazer aspirações egocêntricas.

No meio disso tudo, e voltando à questão da adaptação mangá/filme, temos um Miike que consegue fazer essa transição de maneira suave, de modo que essa estilização radical ganhe naturalidade rapidamente; ele consegue também fazer de Crows Zero um filme suficientemente interessante para que valha a pena assistir à coisa toda, mesmo que recheado de diálogos verdadeiramente ruins, música pop da pior qualidade e um humor de gags bastante pastelão que raramente funciona. A razão de tudo isso se tornar suportável é que a polarização da história em dois grupos é um recurso narrativo pra lá de eficiente. Ao passo que se abre terreno para um esperado confronto final entre as duas forças magnas da história, podemos acompanhar um desenvolvimento até que cuidadoso da persona das personagens principais, resultando numa empatia honesta, enquanto várias sequências de lutas, filmadas com um trabalho primoroso de coreografia e mise em scène, e os recursos esperados de Miike, são entregues.

Quando Crows Zero chega na aguardada catarse com as duas grandes forças que compõe a dicotomia da trama, acabamos percebendo que estamos envolto em três arcos narrativos, a tal batalha intercala sua ação com uma mesa de cirurgia de um aneurisma e um acerto de contas da máfia (cada um dos personagens centrais dessas histórias paralelas pertencendo a um “lado” da batalha); Miike não abandona seus coadjuvantes no trajeto e leva até o fim um filme que entre muitos erros e outros tantos acertos me parece um retrato valioso, na forma, de uma arte de fusão, onde universos a priori distintos se chocam cada vez com mais facilidade (vide Detona Ralph e Scott Pilgrim contra o mundo e o cinema de Tarantino), e no argumento, duma certa geração do desapego como tendência irredutível, que cria objetivos inalcançáveis apenas para passar o tempo e onde as relações são cada vez menos dotadas de pessoalidade. Temos mais aliados do que amigos. Sem concessões.

3/5

Ficha técnica: Crows Zero (クローズ ZERO) – Japão, 2007. Dir.: Takashi Miike. Elenco: Shun Oguri, Kyôsuke Yabe, Meisa Kuroki, Takayuki Yamada.

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– por Michael Barbosa

Warrior é um filme sobre basicamente duas coisas: família e exteriorização da violência inerente ao homem, e efetivamente é tudo o que o filme tem a oferecer, diálogos poderosos co as feridas familiares das três protagonistas sendo cutucadas (de cara, na primeira cena, com o pai revendo seu filho após 14 anos e ouvindo um “eu preferia quando você era alcoólatra”) e lutas de MMA incrivelmente bem filmadas, que são várias ao longo do filme, sem miséria; entre essas duas frentes, como trama mesmo temos uma série de acontecimentos absurdos e nada críveis que exigem ao máximo da capacidade de abstração do espectador e que em última análise podem acabar por prejudicar sim a apreciação daqueles dois fatores básicos a se dedicar.

Conhecemos dois irmãos separados pelo destino, filhos do mesmo pai ex-alcoólatra e ausente. O caçula fugiu com a mãe e se tornou um fuzileiro. O segundo ficou com o velho e com a namorada, teve duas filhas, fracassou na sua carreira no UFC e virou professor de física… É tudo bem claro: tem um torneio de mixed martial arts com um prêmio de cinco milhões de dólares em jogo e desde o começo é bastante óbvio que a trama vai se desdobrar para que a tal luta dos irmãos seja o clímax do filme, nesse percurso veremos uma série realmente grande de eventos realmente improváveis acontecendo para que se torne possível o encadeamento desejado, vai ser neguinho quebrando a perna correndo, vídeos virando virais no Youtube, técnicos de academia de bairro super influentes e por ai vai.

 E assim hora ou outra teremos esses diálogos muito bons, esses daddy issues que moldam o caráter do homem, o diretor Gavin O’Connor acaba dialogando constantemente sobre a vontade de ser perdoado de um, a incapacidade de perdoar do outro. É sobre o quanto marcas podem ser profundas. Tommy, o que fugiu com a mãe não consegue perdoar nem o pai nem o irmão e acaba tendo que exteriorizar sua raiva nos ringues ainda que se convença constantemente que existe motivos muito nobres por trás de suas lutas. Brendan, o irmão mais velho, não faz muito diferente, na superfície precisa pagar a hipoteca da casa, mas tanto quanto o irmão o tesão pela luta está ali, sempre esteve. Paddy, o pai, não parece de todo consternado com a ideia dos filhos se digladiando e trocando socos e chutes, assustador, pois.

A outra frente são as lutas em si, O’Connor se mostra um diretor com um domínio bem grande disso de filmar dois atores se espancando, digno dos melhores momentos dessas lutas esportivas no cinema, seja em Rocky, Touro Indomável, Ali, Punhos de Campeão, Luzes da Cidade (hehehe) ou onde quer que seja que elas aconteceram. Fica a curiosidade de ver o vale-tudo, esse esporte sensação dos últimos anos agora substituindo o que era lugar cativo do boxe. Talvez a constatação mais valiosa esteja no fato de que em todas lutas do filme, tirando a última talvez, o vencedor parece potencialmente óbvio, mas elas funcionam, a tensão é segurada completamente aparte do quão manjado seja quem vai vencer, ou mais, tem que vencer. E assim a luta contra o russo (sim! Tem uma luta contra o russo, com direito até a vestimenta vermelha com [e se registre aqui minha alegria em usar isso num texto]) se torna um exercício de cinema absolutamente fantástico: edição frenética, jogo de luz e câmera e muita porrada bem filmada, tudo culminando com o clímax com o russo “batendo” para a derrota. De assistir de pé, de verdade. É tipo O Último Dragão Branco para ver depois de crescido, sobre MMA, com personagens bem mais complexas e sem o Van Damme.

A quem for bem sucedido na árdua tarefa de abstração vai ficar essas lutas incríveis, esses três atores pra lá de inspirados e esse drama familiar vigoroso, sobre pais bêbados se recuperando e ouvindo a Bíblia e recaindo, filhos subjugando esse esforço com um gosto amargo na boca e palavras duras, Tom dizendo que escolheu o pai para treinador porque um demônio que você conhece é melhor que um que desconhece. Essas coisas familiares tão complicadas e sem solução.

3/5

Ficha Técnica: Guerreiro (Warrior) – EUA, 2011. Dir: Gavin O’Connor. Elenco: Joel Edgerton, Tom Hardy, Jennifer Morrison, Nick Nolte, Noah Emmerich, Bryan Callen,Kevin Dunn, Denzel Whitaker, Kurt Angle

– por Michael Barbosa

É curioso pensar que no mesmo 2011 em que Jafar Panahi lançou This Is Not a Film diretamente da sua prisão domiciliar por crimes políticos, filmando clandestinamente em seu apartamento por ter sido proibido de fazê-lo pelo governo iraniano e sua censura, Asghar Farhadi nos entregue um filme como A Separação, corajoso, escrito com primazia e que amarra o espectador num híbrido absolutamente único de drama familiar e filme de crime.

A história começa da premissa de uma separação conjugal num Estado fundamentalista islâmico como o Irã; Simin quer sair do país, o marido Nader diz que não pode, o pai é doente, tem alzheimer, se é assim ela quer o divórcio, mas tem a filha dos dois e a lei patriarcal que não a deixa partir, ai tem a câmera no lugar do juiz, ela argumentando, ele onisciente da lei machista, ainda que meio constrangido com estar se valendo dela, ele é um bom homem, ela quer o melhor pra família, é complicado, se posicionar é um desafio desde o princípio. Só que essa separação do título logo se revela uma das duas facetas do filme, na outra temos Nader sendo acusado de homicídio por causa do aborto da mulher que trabalhava cuidando de seu pai e o desenrolar sufocante do caso. E é assim, com essas duas frentes sendo tocadas e se misturando o tempo todo, que Farhadi conduz A Separação.

Nisso a narrativa se desenrola de forma a nos tornar privilegiados espectadores ocultos do desmoronamento daquela família de classe média e do caso criminal que a envolve. Acabamos mergulhados nos meandros jurídicos do Irã, num desses sistemas em que a burocracia e os trâmites da lei vão causando uma sensação de claustrofobia, é Kafka, descarado, O Processo.

Enquanto isso o nosso protagonista, Nader, é construído com cuidado, somos condicionados a priori a simpatizar por ele, afinal ele é um sujeito decente, é islâmico e pai de família sem ser misógino e extremista, como manda o nosso clichezão ocidental, mas a trama nos entrega aos poucos seus erros e mentiras e com maestria acabamos por nos ver imersos numa relação relativamente conflituosa de torcer por ele e achá-lo um filho da puta vez ou outra. E de certa forma o mesmo se aplica a Simin, à vítima de aborto Razieh e ao seu marido explosivo; são personagens bons porque são críveis, têm nuances e humanidade, é possível odiá-los e respeitá-los, simultaneamente, igual é com as pessoas ao nosso redor. Não há vilão. Farhardi faz um legítimo esforço para evitar maniqueísmos e bravamente consegue.

Farhardi ainda tem suas artimanhas, se vale de Nader saber ou não que Razieh estava grávida quando do incidente que impulsiona a trama para em última instância garantir que tem o suficiente para prender a atenção até do menos atento dos espectadores. E não foge também do lugar óbvio a se tratar num filme passado no Irã, a religião, é o islã, a religiosidade e incapacidade de mentir sob o Corão que a certa altura permitem a catarse do filme e seu clímax, é o medo de Alá – ou talvez o próprio Deus – entrando como uma personagem da trama, força propulsora do agir das personagens, de diálogo em diálogo ouvimos “Alá” e ele ou a crença nele influenciam diretamente no desenvolver da história.

E se a crítica social é menos clara do que poderia é por questões legais, da dificuldade em se lançar um filme como esse no Irã, mas está tudo ali, pode procurar: é religião, justiça, família e política, tudo na história dessas personagens tão boas e tão bem interpretadas.

Por fim temos a filha do casal principal, entregue nisso tudo, que chora a lágrima mais sincera do filme e é a maior afetada por tudo isso, e que no fim haverá o poder de decidir com quem ficar. A gente não sabe, não podemos saber, Farhardi deixa as respostas para gente, os julgamentos, se assim quisermos que sejam feitos por nós, assumindo essa responsabilidade, a câmera estava parada na primeira cena quando conhecemos Simin e Nader e pouco se mexe na última, analítica apenas, quando nos despedimos deles, a mensagem é óbvia, a história é contada e só, a análise é nossa. A Separação é intenso à medida que é humano. E a verossimilhança que não é obrigação alguma aqui é um trunfo, porque a gente acredita naquilo tudo mesmo, soa razoável sem soar burocrático. E o Irã é isso ai, essa meca oriental do cinema contemporâneo, apesar de tudo. Um Filmaço.

5/5

Ficha Técnica: A Separação (جدایی نادر از سیمین) Irã, 2011. Direção: Asghar Farhadi. Elenco: Sabrina Fahardi, Leila Hatami, Sareh Bayat, Merila Zarei, Peyman Moadi.

– por Michael Barbosa

Isso de expectativa é um problema mesmo; sabe, o filme tem o nosso diretor pedófilo favorito dirigindo, a Winslet, o Waltz e a Foster, tem até o John C. Reilly, aquele, esses cinco ai ainda se juntaram e renderam uma das fotos mais simpáticas e cutes que o cinema já nos proporcionou. Juntamos a isso que a história é algo sobre aqueles quatro dentro de um quarto discutindo e com todas condições para darem o seu máximo. Não dá para não esperar muito, e essa mea culpa toda é porque ao que tudo indica Deus da Carnificina não chega lá, infelizmente.

A história é simples, e mais do que isso é apenas um plano de fundo para o desenvolvimento do argumento: dois garotos brigaram, um arrancou três dentes do outro, os pais dos dois se encontram pra tirar a história a limpo.

O que começara com diplomacia e cordialidade acaba virando cinismo, grosseria, sarcasmo, vômitos e bebedeira. Partindo daí Polanski se propõe a realizar uma espécie de alegoria caricatural da burguesia enquanto grupo antropológico, tentando através de quatro caricaturas (a engajada, o frustrado, o workaholic, a mulher moderna) fazer de Carnage um estudo sobre as máscaras dessa classe. O problema reside não em trabalhar com arquétipos ou no ar de “peça de teatro filmada” que possa ter (uma vez que em outros tantos filmes isso passa longe de prejudicar [um exemplo: 12 Homens e Uma Sentença]) mas no caráter surpreendentemente contido que o filme acaba ganhando. Falta a catarse, já disse Guilherme Bakunin, desse mesmo blog e um debate sobre o filme.

Não evitando comparações inevitáveis Carnage remete à temática de Buñuel em alguns de seus filmes, que se imbuiu da mesma missão: analisar, criticar, ridicularizar e escancarar burgueses ou aristocratas. Em O Anjo Exterminador as personagens não conseguem deixar a sala, ainda que nada físico os impeça, o mesmo parece acontecer aqui, o casal de Winslet e Waltz passa por isso, mas é tudo mais tímido do que no surrealismo do espanhol desse ou de O Discreto Charme… Mesmo que cada um dos quatro tenham seus respectivos momentos para exibir um chilique individual Carnage deixa um gosto amargo por não levar o argumento às últimas consequências.

Ao fim temos ainda os dois moleques que brigaram e deram origem a isso tudo bem de boa conversando no parque enquanto os pais se digladiam, é a crítica à moralidade que eles se impuseram de tentar colocar diplomacia em uma mera briga de crianças, Polanski parece dizer “deixem rolar”.

Dentro sempre da ideia de que é tudo um número caricato as atuações são como tem que ser, Winslet faz uma dondoca bêbada patética, Waltz um sarcástico incurável, a Foster vai irritar-nos o filme inteiro com aquele moralismo todo e eles passam isso. Polanski se mostra naturalmente confortável com o trabalho de mise em scène num apartamento e faz do fato do filme se passar todo ali dentro algo pouco cansativo, a duração ínfima ajuda, o filme tem seus momentos de brilho, mais graças aos atores do que do texto, mas é isso dai, os créditos sobem você fica pensando se já era para acabar mesmo e refletindo sobre o que faltou para Deus da Carnificina ser tudo que poderia.

3/5

Ficha Ténica: Deus da Carnificina (Carnage) –  França, Alemanha, Polônia, Espanha, 2011. Dir: Roman Polanski. Elenco: Kate Winslet, Jodie Foster, Christoph Waltz, John C. Reilly.

– por Michael Barbosa

Reza a lenda que o ainda incipiente Stanley Kubrick (à época com 28 anos e apenas no seu segundo longa) teve que bater o pé e brigar com unhas e dentes para que O Grande Golpe fosse lançado do modo como o editara; não-linear e brincando com diferentes pontos de vistas. O estúdio relutou, disse que ninguém suportaria aquilo, mas acabou cedendo. E o jovem Kubrick triunfou, pois fora exatamente à ousadia e à habilidade em ser instigante e ousado, porém inteligível, que vieram os maiores méritos de The Killing, um delicioso flerte de Kubrick com noir que já anunciava a brilhante carreira que estava por vir.

A história é conhecida e a fórmula já não era nova em 1956; temos um grupo distinto de sujeitos (de criminosos “profissionais a policiais, passando até por um barman) que resolvem arquitetar um plano mirabolante para ganhar uma bolada, aqui o alvo é um hipódromo. O que o filme retrata é esse antes (planejamento), durante (execução) e depois (consequência). Kubrick acerta ao dedicar pelo menos uma ou duas cenas para dar a devida complexidade da caráter a cada um dos envolvidos no golpe, tirando assim o filme da superfície, se afastando daquele maniqueísmo tão típico de mocinhos e vilões. Cada um chegou ali com os seus – e tão seus – porquês, e Kubrick se abstém de promover algum julgamenta moral, deixando essa tarefa a cargo do espectador. Como é casto aos noirs, The Killing é, ao seu modo, um romance, trabalha com a figura do duplo, do sujeito que tem em si forças opostas. Johnny Clay, o golpista chefe, recém saído da cadeia, dotado de um código ético aparente e que quer ter nesse golpe a sua jogada final para poder fugir dali com a amada, é, afinal, um herói romântico, com esses interesses dúbios e atitudes difíceis de julgar e que acaba obrigando que a análise vá além da superfície e do lugar comum.

A dificuldade mora, talvez, em ver O Grande Golpe depois de toda a análise psicológica e sociológica ímpar de Laranja Mecânica ou a metafísica de 2001, o exercício intelectual acaba sendo o de tentar abstrair as magnus opus de Kubrick que ainda estavam por vir e ver aqui as qualidades bastante únicas e nada modestas aqui presentes. Kubrick mostra saber dosar com uma precisão cirúrgica seus recursos ao mesclar a narrativa não-linear com uma narração em off que vai viajando no tempo e dando ao espectador o mínimo necessário para acompanhar as idas e vindas da história, quase como se Kubrick criasse os problemas para em seguida tentar solucioná-los; explicando para confundir e confundindo pra esclarecer, como diria Tom Zé.

O final, em todo seu fatalismo tragicômico, é ácido e niilista e acaba por falar um pouco mais sobre seu diretor, o que é, para todos os efeitos, coerente com o que viria logo nos anos seguintes em filmes como Dr. Fantástico e Lolita.

Num panorama final cabe ainda se questionar sobre o conceito de “filme menor”, tão usual em rodinhas cinéfilas para se referir a obras como essa, a questão parece ser meramente sobre parâmetro, pois se O Grande Golpe tiver seu fim em si mesmo o que temos é “apenas” (com todas as devidas aspas) um grande filme, um ponto de referência único para toda produção desse sub-gênero do filmes de assalto com pretensão de serem engenhosos que viram depois, de Onze Homens e Um Segredo à A Origem. Divertido, analítico, bem construído. Um Kubrick, pois.

5/5

Ficha Técnica: O Grande Golpe – EUA, 1956. Dir: Stanley Kubrick. Elenco: Sterling Hayden, Coleen Gray, Vince Edwards, Jay F. Clippen

– por Michael Barbosa

O humanismo, enquanto corrente filosófica, destacava-se pelo posicionamento antropocêntrico, tendo como fim o ser humano, o nosso semelhante e assim buscando a valorização da vida do homem. Apesar de ter sua semente em tempos de renascentismo o humanismo insistiria em ressoar por toda filosofia e arte que o sucederia, impondo influência determinante, por exemplo, nas correntes realistas já do século XIX e passando por esse intermédio chegaria até ao Irã, onde uma mulher de nome Forough Farrokhazad desafiaria a misoginia e o pré-estabelecido e entregaria alguns belos poemas e A Casa É Escura, um curta metragem de documentário que nos seus míseros vinte minutos aproximou o cinema do humanismo e do realismo como nunca, tudo sem perder a poesia.

Logo no começo temos uma promessa: imagens serão mostradas e quem tiver um pingo de compaixão não conseguirá ficar indiferente a elas. E bem, Farrokhzad não promete nada a mais do que está apta a cumprir, o que temos em seguida é um retrato cru de uma cidadezinha do Irã onde os leprosos eram “jogados”. São crianças e velhos; mulheres e homens em idade ativa, deformados e caindo aos pedaços, com os dedos se juntando e a pálpebra colando aos olhos. Tudo sem o mínimo resquício de sensacionalismo, a questão aqui é simplesmente expor imagens de sujeitos que são da mesma espécie (e sim, esse o termo apropriado, realista, naturalista) que o espectador, o questionamento é, por conseguinte, filosófico e até biológico, onde fora parar aquele senso de preservação do semelhante?

Uma câmera documental sem pudor, um preto e branco rústico e no fundo poemas de autoria da própria diretora e trechos do Corão que são responsáveis por dar um quê de diferente àquilo que poderia ser apenas um documentário ortodoxo. E ao subverter convenções do gênero documental com essas inserções poéticas o que Farrokhzad faz é construir nesse seu único filme um legado para o cinema iraniano, jovens artistas como um tal Kiarostami (à época com 22 anos) assistiriam a filmes como A Casa É Escura e viriam ali o caminho para reescrever a história do cinema iraniano no que ficaria conhecido a “new wave” da sétima arte por lá.

Se Khaneh siah ast não conseguiu desbravar as fronteiras persas quando do seu lançamento e a morte prematura de Farrokhzad com apenas 32 anos se revelou uma perda e tanto ao menos ficou esses pequeno expoente pulsante de humanismo e filosofia da mais tocante. Capaz de influenciar toda uma geração e possibilitar alguns dos cineastas mais interessantes da nossa época.

4/5

Ficha Técnica: A Casa É Escura (خانه سیاه است) – Irã – 1962. Dir: Forough Farrokhzad.