– por Murilo C. Ceccone

“Revolução é guerra. De todas as guerras conhecidas na história, ela é a única legal, legítima, justa e verdadeira grande guerra. Na Rússia, essa guerra foi declarada e começou”.  Com essa citação de Lênin tem início o filme encomendado pelo mesmo para comemorar os 20 anos do levante dos marinheiros e o apoio destes ao proletariado na luta contra o czar. O vanguardismo utilizava o cinema como instrumento político (vide A Mãe, A Greve, Outubro), e Potemkin é seu melhor e mais famoso exemplo.

Uma espécie de resposta soviética a O Nascimento de Uma Nação, o filme mostra a revolta dos marinheiros do navio de guerra que dá nome ao filme, cansados das precárias condições e humilhações a que são submetidos. Recusam-se a continuar comendo carne podre, cujas larvas são mostradas em um famoso close. Alguns rebeldes são cobertos com uma lona e o capitão ordena que os guardas fuzilem o grupo. Um marinheiro grita: “Irmãos, em quem estão atirando?”. Os guardas hesitam, e começa a luta. Os marinheiros tomam o controle do navio, o líder do levante é morto, e seu corpo jaz sob uma tenda no píer da cidade de Odessa. O povo toma conhecimento, grita por justiça, decide agir contra o governo tirano, envia comida aos marinheiros do Potemkin. A revolução começa a tomar forma. Temos então a famosa cena da escadaria de Odessa, homenageada por De Palma em Os Intocáveis (por sua vez parodiada na série Corra Que A Polícia Vem Aí). Inocentes são massacrados pelas tropas do czar numa sequência de ação fantástica. O carrinho de bebê escada abaixo, os óculos perfurados pela bala e a criança pisoteada pelas botas do poder opressor são algumas das várias imagens marcantes.

A Igreja é mostrada como uma legitimadora da opressão. Os oficiais são pomposos e cínicos. Não existe espaço para conflitos individuais, ou desenvolvimento de um único personagem. O que importa é o coletivo, as massas, a mudança do mundo por homens conscientes. O herói é o povo.

O filme foi proibido em diversos países durante anos, pois era considerado perigoso e subversivo. Chegou a figurar no topo de uma lista de melhores filmes de todos os tempos feita nos anos 50 na Europa. Eisenstein revolucionou o modo de se fazer filmes com suas inovadoras técnicas de corte e montagem. E é a montagem que mais impressiona no filme. É através dela que Eisenstein cria tensão, como na cena final com os navios se preparando para o conflito, desenvolve a ação desenfreada da cena da escadaria, demonstra a revolta do povo com a imagem de um punho cerrado levantado em meio a gritos de “abaixo com os tiranos”.

5/5

Ficha Técnica: O Encouraçado Potemkin (Bronenosets Potyomkin) – 1925, União Soviética. Dir.:Sergei Eisenstein. Elenco: Aleksandr Antonov, Vladimir Barsky, Grigori Aleksandrov, Ivan Bobrov, Mikhail Gomorov, Aleksandr Levshin, N. Poltavtseva, Konstantin Feldman, Prokopenko, A. Glauberman, Beatrice Vitoldi.

– por Murilo C. Ceccone

Pegue a situação da Alemanha recém saída da 1ª Guerra Mundial, some ao movimento artístico expressionista, adicione a algumas experiências bizarras vivenciadas por dois roteiristas, uma pequena colaboração de Fritz Lang, a direção inovadora de Robert Wiene, e você terá como resultado um obra seminal e extremamente influente até os dias atuais.

A história é contada por Francis (Friedrich Feher) durante uma conversa com um estranho. Através de flashbacks é mostrada a chegada do misterioso Dr. Caligari (Werner Krauss) em uma feira de aberrações no vilarejo de Hostenwall. O hipnotizador apresenta o sonâmbulo Cesare (Conrad Veidt, o Major Strasser de Casablanca), supostamente adormecido há 23 anos, o qual comete assassinatos durante a noite a mando do seu mestre. O final revela uma surpresa, um twist bem elaborado, talvez o primeiro na história do cinema. Discordo da opinião de que o final ameniza ou desmonta a crítica construída durante o filme à manipulação do povo por um governo autoritário. A crítica permanece lá, e o final casa perfeitamente com a idéia de um mundo visto pelos olhos de um louco, a exteriorização dessa loucura e a deformação da realidade.

Utilizando cenários distorcidos (feitos de madeira e sombras pintadas), ângulos estranhos, formas desproporcionais, maquiagem e atuações exageradas, Caligari é o filme inaugural do cinema expressionista alemão dos anos 20, e serviu de base para Nosferatu e outros filmes dessa corrente. Pioneiro no uso da estética, o filme preocupa-se sobretudo com o visual (cada cena poderia ser transformada em um belo quadro, tal qual O Grito de Edvard Munch), em vez de focar somente na ação, mas nunca descuida da narrativa, extremamente complexa (existe até um flashback dentro do flashback).

Um dos primeiros filmes do gênero terror, pode-se dizer que Caligari também influenciou Drácula e Frankenstein nos anos 30, o estilo visual de diretores como Tim Burton, e se você ficou impressionado com David Lynch e seu Cidade dos Sonhos, ou o subestimado A Passagem, ótimo exercício de estilo do diretor Marc Forster, saiba que a premissa já havia sido utilizada 80 anos antes.

Filme obrigatório para os amantes do cinema e para quem se interessa pela sua história, O Gabinete do Dr. Caligari é uma obra-prima inovadora e que, mesmo com quase um século de existência, não envelheceu em nada, e continua a impressionar por sua qualidade.

5/5

Ficha Técnica: O Gabinete do Dr. Caligari (Das Kabinett des Doktor Caligari) – 1920, Alemanha. Dir.: Robert Wiene. Elenco: Werner Krauss, Conrad Veidt, Friedrich Feher, Lil Dagover, Hans Heinrich von Twardowski, Rudolf Lettinger.

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– por Murilo C. Ceccone

A adaptação que Polanski fez do livro de Ira Levin (autor de Meninos do Brasil) resultou em um dos melhores filmes de terror psicológico e, certamente, no mais perturbador a que já tive o prazer de assistir (se bem que a palavra “prazer” não é a mais adequada para descrever o sentimento de incômodo que sentimos durante o filme).

Rosemary (Mia Farrow) e Guy (John Cassavetes) formam um jovem casal que acaba de se mudar para um apartamento em Manhattan. Quando o marido, um ator desempregado, começa a envolver-se com os vizinhos – um simpático e aparentemente inofensivo casal de velhinhos formado por Ruth Gordon e Sidney Blackmer – Rosemary percebe-o cada vez mais ausente e fechado, agindo de forma estranha. Após engravidar sob estranhas circunstâncias, começa a desconfiar de um complô que pode pôr em risco a vida de seu bebê.

O filme consegue ser aterrorizante sem mostrar absolutamente nada (exceto por um par de olhos), sem apelar para imagens ou sustos baratos. Tudo é sugerido, nada é mostrado, de forma que o clima de tensão insuportável criado durante o filme, a sensação de claustrofobia, de sufoco, de paranóia, construídos pouco a pouco é que nos deixam tensos e incomodados. Esse é o verdadeiro terror com o qual Polanski nos atinge.

Talvez a única cena que se baseia no uso de imagens em vez de clima/situação/atmosfera é a sequência do sonho/delírio, na noite da concepção, repleta de simbolismos, como Hutch (Maurice Evans) alertando para um perigo iminente.

Mia Farrow faz um ótimo trabalho, representando Rosemary como uma jovem inocente, frágil e indefesa, servindo como uma presa perfeita para os que estão a sua volta, e nos fazendo temer por seu destino. E Polanski conduz a trama de tal forma que nos faz perceber, antes de Rosemary, o que está acontecendo. Tentamos alertá-la, em vão (“Não coma esse mousse, garota!”), e só nos resta acompanhar e sofrer junto.

Um ótimo exemplo de como Polanski nos faz entrar na paranóia da protagonista é a cena em que Rosemary está em uma cabine telefônica, após perceber que até seu médico pode estar envolvido na possível conspiração. Um homem pára de costas na frente da cabine, e pensamos se tratar do Dr. Abraham Sapirstein (Ralph Bellamy), mas na verdade era apenas um cara esperando para usar o telefone. Uma cena digna de um Hitchcock.

Até chegarmos à cena final, – se ainda não viu o filme, pare de ler por aqui – talvez o mais perturbador (de novo esse termo) final de filme já concebido. Ao olhar para o bebê, a expressão de terror no rosto de Rosemary nos dá uma idéia do que não vemos, e Polanski toma uma sábia decisão ao não mostrar o conteúdo do berço, uma vez que apelar para uma imagem repugnante arruinaria toda a proposta do filme. “O que vocês fizeram com ele, seus maníacos? O que fizeram com seus olhos?”. Esse é um desfecho sombrio para um filme que permite várias leituras e interpretações, e que nos deixa com um gosto ruim na boca, mas com a sensação de que acabamos de ter uma aula de cinema.

Obs.: este filme é o segundo da “Trilogia do Apartamento” de Polanski, ao lado de Repulsa ao Sexo (1965) e O Inquilino (1976).

5/5

O Bebê de Rosemary (Rosemary’s Baby) – 1968, EUA. Dir.: Roman Polanski. Elenco: Mia Farrow, John Cassavetes, Ruth Gordon, Sidney Blackmer, Maurice Evans, Ralph Bellamy, Victoria Vetri, Patsy Kelly, Charles Grodin.

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– por Murilo C. Ceccone

Os Infiltrados não é apenas o remake de um ótimo filme chinês chamado Conflitos Internos. Isso porque Scorsese, e o roteirista William Monahan, não transportam simplesmente a trama para Boston, mas imprimem um estilo próprio à narrativa, fazendo modificações pertinentes e incluindo personagens que conferem maior densidade e dinamismo ao filme.

A história todos conhecem: Billy Costigan (Leonardo DiCaprio), um policial recém-formado, e cuja família possui um passado de ligação com o crime, recebe a ingrata missão de se infiltrar na organização criminosa chefiada por Frank Costello (Jack Nicholson), o qual, por sua vez, tem seu protegido Colin Sullivan (Matt Damon) dentro da força policial com o intuito de servir como informante.

Logo no início do filme podemos verificar a mão de Scorsese, com seus travellings habituais, a narração (neste caso, de Nicholson – recurso interessante é a opção de mostrá-lo apenas nas sombras durante a sequência inicial), e uma certa semelhança com o estilo narrativo de Os Bons Companheiros e Cassino. Mas isso apenas durante os primeiros 20 minutos. Depois disso o filme ganha “vida própria”, num crescente de suspense no jogo de gato e rato dos protagonistas. Para citar dois exemplos: a perseguição após a cena no cinema pornô, e o longo silêncio de ambos no celular são de roer as unhas.

O elenco está perfeito, com destaque para as atuações de DiCaprio e Damon, que conseguem demonstrar os estragos emocionais causados pela situação em que se encontra o personagem (no caso do primeiro) e a arrogância e a ambição desmedida (no caso de Damon). Nicholson é um show a parte, divertidamente psicótico e exagerado, mas nunca caindo na caricatura, transforma Costello em uma ameaça iminente e constante. Martin Sheen, Mark Wahlberg, Alec Baldwin, Vera Farmiga e Ray Winstone fecham o ótimo elenco secundário.

Vale elogiar o ótimo gosto musical de Scorsese (comparável ao de Tarantino) quanto à escolha das músicas que compõem a trilha sonora do filme: de Gimme Shelter a Confortably Numb, e a pesada I’m Shipping Up To Boston. A propósito, Confortably Numb encaixa-se perfeitamente com o estado emocional vivido pelo personagem de DiCaprio.

Não caindo na tentação de modificar bruscamente o final do filme original apenas para satisfazer o público americano, Scorsese consegue ser ainda mais cínico e irônico (muitos discordam) com seu final. E o último plano do filme, com o rato e a Assembléia Legislativa é genial.

5/5

Os Infiltrados (The Departed) – 2006, EUA. Dir.: Martin Scorsese – Elenco: Leonardo DiCaprio, Matt Damon, Jack Nicholson, Vera Farmiga, Martin Sheen, Mark Wahlberg, Alec Baldwin, Ray Winstone.

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– por Murilo C. Ceccone

Como o próprio título sugere, o filme de John Ford é saudosista ao extremo. A história é narrada por um homem de idade que relembra a sua infância em uma cidadezinha mineradora do País de Gales na virada do século XIX para o XX. Caçula da família Morgan, Huw (Roddy McDowall) observava o pai e os irmãos subirem a colina rumo às minas de carvão que, naquela época, apenas começavam a cobrir os morros e a vila com a fuligem negra, e ainda não haviam tirado a beleza poética do local.

Repleto de nostalgia, o filme transforma as lembranças de Huw em uma visão idealizada e romântica da região. Os costumes, a cultura, as difíceis condições de trabalho, a música, o forte sotaque da região, a religiosidade, tudo é retratado detalhadamente por Ford, sempre através dos olhos inocentes de uma criança. A direção de arte é magnífica, recriando com perfeição e incrível nível de detalhes o vale, as minas, o interior da casa dos Morgan, a igreja … Tudo isso aliado à belíssima fotografia, de encher os olhos.

Mais conhecido por seus westerns, Ford, assim como em Vinhas da Ira, repete o tema social, mostrando a luta por melhores condições de trabalho, a exploração da mão-de-obra barata e até discursos socialistas são ouvidos em alguns momentos (algo corajoso para a época em que foi filmado). A hipocrisia religiosa também é abordada.

Conhecido como “o filme que venceu Cidadão Kane no Oscar de Melhor Filme”, Como Era Verde O Meu Vale é injustamente comparado ao filme de Orson Welles. Ao fazer essa comparação sem sentido, fica óbvio que Cidadão Kane é superior em sua importância na história do cinema, com suas inovações técnicas e ousadias. No entanto, com uma proposta e um tema completamente diferentes, Como Era Verde O Meu Vale é um daqueles filmes cujas belas cenas ficam na memória por um bom tempo, assim como os nomes dos personagens. E se o filme contém exageros, floreios e clichês, estes não são falhas, mas fruto de um perfeito retrato de uma época, não de forma realista e seca, mas exatamente do modo como nos lembramos de nossa infância, quase como um sonho.

5/5

Ficha Técnica: Como Era Verde O Meu Vale (How Green Was My Valley) – 1941, EUA. Dir. John Ford. Elenco: Walter Pidgeon, Maureen O’Hara, Anna Lee, Donald Crisp, Roddy McDowall, John Loder, Sara Allgood, Barry Fitzgerald, Patric Knowles, Rhys Williams, Marten Lamont

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-por Murilo C. Ceccone

É impossível fazer uma lista de melhores filmes de todos os tempos. O máximo que se pode fazer é uma lista com os melhores filme que você já viu até o presente momento, pois cada vez que entramos em contato com uma obra-prima como Consciências Mortas, pensamos “como eu não vi esse filme antes?”. Foi exatamente essa a minha reação ao término dos 75 minutos de filme.

Consciências Mortas pode ser considerado uma espécie de faroeste psicológico, na mesma linha de Matar ou Morrer , em que a tensão crescente e o clima são mais importantes que cenas de tiroteio. O filme tem início com dois homens (Henry Fonda e Harry Morgan) que, ao passarem por uma cidade, ouvem a notícia de que um fazendeiro foi assassinado e teve seu gado roubado. Parte da população, na ausência do xerife, decide sair à caça dos assassinos para fazer justiça com as próprias mãos.

O filme explora várias questões morais, denunciando a espetacularização da violência, a sede de sangue (disfarçada de sede de justiça), pena de morte, linchamento, direito à defesa, etc. Wellman reúne um elenco perfeito, arranca ótimas atuações, sem excessão, de Henry Fonda a Anthony Quinn, com destaque para Dana Andrews. A bela fotografia de Arthur C. Miller (3 vezes vencedor do Oscar) aliada à direção de arte que mantém a maior parte da ação em um espaço reduzido (vide 12 Homens e Uma Sentença), ao contrário das vastas paisagens típicas do gênero Western (vide Sergio Leone e John Ford), são fundamentais na construção do clima necessário para que o filme funcione.

Uma jóia rara, pouco conhecida, e que merece ser descoberta e apreciada, Consciências Mortas passa a figurar em lugar de destaque na minha lista preferencial.

5/5

Ficha Técnica: Consciências Mortas (The Ox-Bow Incident) – 1943, EUA. Dir. William A. Wellman. Elenco: Henry Fonda, Dana Andrews, Mary Beth Hughes, Anthony Quinn, William Eythe, Harry Morgan, Jane Darwell, Matt Briggs, Harry Davenport, Frank Conroy, Marc Lawrence, Paul Hurst