– por Filipe Chamy

O homem do Pau Brasil não é um filme modernista, é um filme moderno.

Na verdade, a única maneira de falar deste filme é fazer como os Cahiers du cinéma comentaram Juventude transviada: devemos considerar que O homem do Pau Brasil também é algo que não funciona na literatura ou em qualquer outra mídia, mas que é maravilhosamente belo no cinema.

Joaquim Pedro de Andrade não era bobo e não seria em seu último filme que ele cederia à tentação de homenagear Oswald de Andrade com um trabalho acadêmico e falsamente literário, porque sabia que o espírito da modernidade não está em chocar com idéias, mas em inovar os caminhos da expressão.

O homem do Pau Brasil é inteligente porque brinca com os sentidos de sua forma e apresenta idéias que se contrapõem simultaneamente para afirmar postulados ambíguos. O que seria uma atacada pretensão à intelectualidade forçada se aproxima mais de um confronto entre os pólos dos sentidos, não apenas no plano da discussão artística, mas na metafísica da imagem e das representações da realidade que o filme constrói. Como isso é feito? Por meio de paradoxos:

# Ingenuidade versus pecado – A mesma Cristina Aché que discute sobre a possibilidade de um homem ter “ficado de pau duro” pouco depois diz ser noiva de Cristo e segura candidamente uma flor próximo ao rosto, retrato de santa;

# Androginia versus liberação feminina – Só descobrimos de fato o verdadeiro gênero de uma figura dúbia quando ela despe o terno masculino e vemos sua nudez revelar sua constituição de mulher (com uma planta artificial cobrindo seu sexo);

# Brasilidade versus macunaísmo – Não à toa, um dos Macunaímas de Joaquim Pedro, Grande Otelo, é considerado aqui, por Dina Sfat, interessante negrinho artefato de enfeite, ente descaracterizado cuja indefinição tem como clímax os diálogos em francês;

# Religião versus filosofia – O Messias que aparece no fim assemelha-se a Tiradentes, levita livre de culpas e tem suas mensagens zombadas pelos signatários do amor-livre praticado nas terras em essência brasileiras;

# Discurso versus ação – Evidentemente toda grande reforma deve ser estruturada, mas se os planos do modernismo forem institucionalizados eles necessariamente deixarão de ser modernistas?

Talvez O homem do Pau Brasil questione outros debates, talvez esses fatores que eu apontei sejam frutos da minha imaginação, mas a direção que o surrealismo irônico do filme nos aponta tende a não se exaurir em análises racionais (porque nada é mais irracional que tentar ser racional). De qualquer modo, Joaquim Pedro de Andrade nos transporta a uma espécie de coletânea de fragmentos de pensamentos, em diferentes níveis, em camadas mais ou menos evidentes, e essa generosidade do filme é tão honesta que o filme não padece de momentos irregulares como talvez afigure à primeira vista: não, o que acontece é que nada é uniforme, e é a própria essência das coisas que lhes dá essa aparência. Quer dizer, as costas de um corcunda são deformadas se a compararmos com as costas de uma pessoa sem esse atributo, mas em um mundo de corcundas a anormalidade não seria ter costas planas?

Filme antropofágico — porque devora todas as concepções e as devolve como percepções —, nervoso e arejado, verborrágico na mesma medida que dinâmico, O homem do Pau Brasil não esgota interpretações e nem se pretende definitivo. É inteligente também por isso: não existe cinema sem incertezas.

5/5

Ficha técnica: O homem do Pau Brasil – Brasil, 1982. Dir.: Joaquim Pedro de Andrade. Elenco principal: Grande Otelo, Paulo José, Dina Sfat, Ítala Nandi, Flávio Galvão, Regina Duarte, Cristina Aché, Dora Pellegrino, Juliana Carneiro da Cunha, Miriam Muniz, Etty Frazer, Othon Bastos, Nelson Dantas, Wilson Grey, Antônio Pitanga, Renato Borghi, Carlos Gregório, Fábio Sabag, Antônio Pedro, Sérgio Mamberti.