– por Cauli Fernandes

Numa hora está lá, outra hora não está: é a névoa. Mas, nas mãos de John Carpenter, vira A Bruma Assassina e um terror psicológico angustiante.

Mais do que nos embasbacar com a direção primorosa de um pedaço de ar, é delicioso ver como Carpenter une divinamente os personagens. Em princípio, ninguém se conhece: Elizabeth (Jamie L. Curtis, quando era bonita) é uma viajante que vem de um lugar e vai para outro – isso não importa muito – e pega carona com Nick Castle, um homem que trabalha no mar – o trabalho também não importa muito. Há a senhora Kathy Williams (Leigh, mãe na vida real de Curtis), a pessoa que está organizando as festividades dos 100 anos de Antonio Bay, pacata cidade litorânea onde está toda essa gente; esta vai atrás do Padre Malone para abençoar o aniversário, só que ele acaba de descobrir algo horrível sobre o passado de Antonio Bay, algo que tem a ver com leprosos, ouro e esse aniversário. E também tem Stevie Wayne (Barbeau, uma atriz gata pra caramba que nunca vi em outro filme), alguém totalmente à parte do resto. Ela é radialista e tem um filho (um vínculo diferenciado e forte com um próximo). Do alto de um farol, Stevie solta sua voz pela noite, noticiando a população do que ocorre e fazendo o playlist da cidade. Ela é a primeira a ver a bruma e a desconfiar de que algo ocorre nela; a personagem é feita como um preparatório de paranóia: por ela passará primeiro os sentimentos de medo e apreensão, para depois eles se duplicarem pelo outros indivíduos.

E Carpenter trata de jogar tudo isso numa panela e provocar o horror. São arrepiantes os quadros da névoa surgindo no horizonte; ela tem um aspecto leitoso e brilha, escorrega por frestas e sai se envolvendo por onde passa. Além do mais, é por causa dela que os personagens se encontram, no final, numa cena que parece produto de um roteiro canastra (mas não é, claro).

Interessante também ver que ninguém mais na cidade se mobiliza; o pânico parece mais artigo dessas míseras seis pessoas do que de uma população. Se olharmos por um lado, todos aparentam estar tendo um surto esquizofrênico em conjunto. Oras, zumbis batendo à porta em busca de riquezas perdidas são mais comuns em delírios, não é mesmo? Não se pode excluir a hipótese de sonho.

Mas não se pode discordar do “poder da notícia”. Como discutir com a tradicional e sexy voz de Stevie no rádio, quando a vemos gritando para que alguém ajude seu filho? Se alguém teme ao nosso lado, temos a probabilidade de temer mais ainda, mesmo que a situação não seja de tanto medo (até nisso disputamos com os outros, em “quantidade de pânico”).

E porque os leprosos voltam? Não é para ensinar os vivos a não comer carne vermelha e usar camisinha, não é para dizer que devemos ser simpáticos com qualquer um, mas por que estão em busca de algo que é seu, de alguma posse vil e terrena? Se até os mortos só pensam em si mesmos, então realmente não estamos salvos.

5/5

A Bruma Assassina (The Fog) – 1980, EUA. Dir.: John Carpenter. Elenco: Adrienne Barbeau, Jamie Lee Curtis, Janet Leigh, Hal Holbrook, Tom Atkins

– por Cauli Fernandes

O filme é tentativas variadas de solidificar e funcionar o suspense por meio de seriadas expressões graves do elenco. Um atrás do outro, os rostos dos atores se mostram ora em choque, ora horrorizados, ora reflexivos, ora absolutamente nada.

Mas vamos à história, antes de avacalhar com ela: em uma tarde ensolarada e alegre de uma cidadezinha dos EUA, uma “sombra” (ou algo assim) desce sobre o município, fazendo desmaiar toda a população (a imagem de todos caídos no chão, sem razão alguma, é um bom susto). Dali a nove meses se verá o resultado desse bizarro dia: crianças paranormais estranhamente parecidas uma com a outra, que nada têm a ver com suas mães, mas que parecem ter vindo do mesmo desconhecido pai.

Pelo menos, a equipe de filmagem sua a camisa para tornar o filme digno, mas nada parece ajudar: a fotografia e a direção de arte estão simplesmente feias, o cabelereiro estava de porre (as crianças parecem lâmpadas fluorescentes) e os efeitos especiais horrendos. E, bem, tem Kirstie Alley e suas caras de má, Christopher Reeve se esforçando, mas não conseguindo muita coisa; Mark Hamill provocando vergonha alheia ao não fazer jus ao seu passado de glória.

E no meio disso tudo está Carpenter, fazendo das tripas coração. O que ele tenta contar? O que ele tenta tirar no meio de tanta coisa ruim? Vejamos: em um lugar feliz, bonito e cheio de gente branca enjoada , chegam crianças com dotes sobrenaturais e com uma indiferença absurda à raça humana. Eles matam e não dão a mínima; querem simplesmente dominar nossa raça e o mundo.

Mas e os humanos nessa história? Tentam domar os inimigos. Os pequenos são postos em sala de aula, para que eles aprendam “humanidade”; quem somos nós para ensinar algo a alguém, principalmente sobre ser humano e bom? Uma multidão é convocada para matá-los, com facas e fogo; o padre tenta atirar na cabeça de um deles, friamente, provavelmente para salvar o “rebanho do Senhor”. Eles querem nos matar e nós queremos matá-los.

Desse jeito, quem está certo? Há tentativas de uma convivência pacífica, mas os pseudo-alienígenas não querem papo; oras, não ouvir o próximo e ser egoísta são duas características mais nossas. Durante o andamento das eras, dezenas de povos já lutaram e morreram contra outras por pedaços de terra. Nada de muito diferente que as crianças estão fazendo.

Esse é A Cidade dos Amaldiçoados, de John Carpenter. Pode parecer bom, mas eu disse: tem a cara de má da Kirstie Alley.

2/5
A Cidade dos Amaldiçoados (Village of the Damned) – 1995, EUA. Dir.: John Carpenter. Elenco: Kirstie Alley, Christopher Reeve, Mark Hamill, Linda Kozlowski.

cançoesamor5

– por Cauli Fernandes

Ah, que frescor guarda os musicais

Tão leves e alegres; são atemporais

Com igual maravilha, encantam gerações

Com suas danças e canções.

O que dizer de um musical parisiense, então?

Junto da força da melodia, há a deslumbrante locação.

Mas o foco não é a Torre ou os seres ilustres

E sim as pequenas ruas e os pedestres.

Assim, é desses passantes habituais

Que Honoré tira seus três personagens joviais

Um rapaz e duas mulheres são um só pelas mãos do amor

Eles caem no mundo e na cama, sem medo nem pudor.

Assim, o trio e a família cantam juntos

Nos becos, nos parques, nos quartos

Sem coreografia produzida

Só executam os passos da vida.

Alguns julgam o filme de ingênuo, tolo

Mas é alegria em meio à nossa tragédia, mesmo parecendo frívolo.

Aquilo pode ser muito doce e distante

Mas é sonho, é Paris do lado da gente.

Você deve se perguntar por que resenhei poeticamente

Porque “Canções de Amor” é uma, porque a vida deveria ser uma

E eu cansei de fazer rima.

5/5

Canções de Amor (Les Chansons d’Amour) – 2007, França. Dir.: Christophe Honoré. Elenco: Louis Garrel, Ludivine Sagnier, Clotilde Hesme, Chiara Mastroianni, Grégoire Leprince-Ringuet.

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– por Cauli Fernandes

Este filme é um impacto. Durante os seus 140 minutos, vemos um adolescente bielorrusso chamado Florya dentro da Segunda Guerra Mundial, do lado antinazista, lutando contra inimigos, conhecendo e perdendo gente, vagando por campos totalmente vazios de existência, tudo da forma mais brutal possível.

Mas tudo isso seria bonito se não fosse o horror da guerra e o olhar do diretor Elem Klimov, e esses dois elementos tratam de destruir com vigor a beleza provável. Os campos antes citados seriam visitáveis se não fossem os lampejos dos tiros e a neblina densa; as cabanas da vila de Florya poderiam ser aconchegantes se não houvesse comida estragada e defuntos ao redor; o rosto dos dois simpáticos protagonistas poderiam aparecer em Hollywood se … Bem, chega.

O início é numa praia, onde Florya e amigos estão escavando a areia em busca de armas (olha a destruição de novo) para ir à guerra. Depois, em casa, ele é recrutado e parte para a ação. Conhece Glasha, uma companheira que ameniza a dor que sente e coleta na sua caminhada.

A partir daí, temos uma descida até o fim do abismo da paranóia, do medo, na pele de um jovem que envelhece no inferno aos poucos. A câmera se esforça (e consegue) em captar cada estágio na espiral de insanidade que Florya anda, sugando o seu rosto expressivo para dentro da lente. Não só as suas expressões, mas tudo flui para fora da tela e machuca para quem assiste ao filme. Se nós, meros mortais, não temos coragem de encarar a história da nossa espécie de frente, de “ir e ver”, o cinema, esse sublime arte, vai lá e traz até a gente.

Mas, como disse, nada ameniza o terror, mesmo eu e essas minhas bonitas palavras. Os mortos já foram mortos, a esperança foi ceifada e crianças continuam nascendo. Sim, há momentos de poesia e descanso, como um cochilo na floresta, uma bela menina dançando somente para nós, mas as bombas sempre acabam chegando. E destroem.

E o que fica é o rosto do ator Aleksei Kravchenko, sujo de lama, de sangue, de culpa, de história.

5/5

Vá e Veja (Idi I Smotri) – 1985, URSS. Dir.: Elem Klimov. Elenco: Aleksei Kravchenko, Olga Mironova.

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– por Cauli Fernandes

Mais do que o diretor Julio Medem, quem rege Os Amantes do Círculo Polar é o tempo. Ele não oferece tempo para ninguém se admirar, aprisiona os personagens em acontecimentos avassaladores da vida, sem perdão. A cada fotograma lá está ele: medindo os passos, contabilizando as respirações, checando os vivos, mudando tudo a toda hora.

Entretanto, pelo menos uma coisa não muda: os nomes dos amantes. Otto, ao conversar com Ana pela primeira vez, diz que os nomes deles são palíndromos e nada é capaz de acabar com isso. E lá vai a história do mundo exterminar com o que as pobres crianças não têm controle: os pais um do outro se casam e eles, invariavelmente, se tornam meio-irmãos.

Mas o amor não obedece a regras, muito menos a estados civis. E, escondidos, eles abusam desse amor, fazem jogos entre si que aumenta a chance dos pais os flagrarem. Pois assim como a trajetória dos amantes, o filme também tem seu jogo, mudando constantemente de olhar, passando da maneira de ver de Ana para a de Otto, receber informações sigilosas de cada um e observar a paixão por uma perspectiva feminina e masculina.

Todavia, uma noite, Ana apresenta à Otto, em meio aquele turbilhão de sentimentos e segredos, o Círculo Polar, “onde o sol não desce no verão”. Um lugar onde o sol nunca se põe e este vilão tenebroso, esse maldito tempo, para e pode deixar quietos os humanos. A manhã eterna. Para sempre, se amar.

Algo acontece e as tensões familiares se acentuam. Otto e Ana se vão para longe um do outro. Não só eles, mas os pais também sofrem, todos se despedaçam na vida. Os desencontros acontecem e arrasam de esperança o nosso coração de espectador da dor.

Ah, e esse passado, ceifador de almas. Quer se repetir, quer se fazer de novo, para dar tudo certo outra vez, mas não deixa. Outras pessoas surgem, não dá para preciosas coincidências surgirem duas vezes.

Nada pode acontecer duas vezes. O tempo se entrecruza com o amor, com a vontade dos sentimentos de ser eterna, e despedaça. Feito jornal ao vento.

5/5

Ficha técnica: Os Amantes do Círculo Polar (Los amantes del Círculo Polar) – 1998, Espanha/França. Dir.: Julio Medem. Elenco: Fele Martínez, Najwa Nimri, Nancho Novo, Maru Valdivielso

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– por Cauli Fernandes

Nas ruas úmidas e enevoadas de Nova York se vê, como em qualquer outra grande metrópole, pessoas das mais variadas raças, ideologias, descendências, se cruzando umas com as outras sem notar o sujeito que está ao lado, cada uma com grandes histórias para contar que muitas vezes serão deixadas na beira da calçada.

Na mesma cidade, no ano de 1959, era exibido nos cinemas Sombras, primeiro filme de John Cassavetes (1929-1989). No filme, assistimos a história da garota Leila, seu amor por Tony e suas relações com os irmãos dela. Mais do que isso, podemos dizer que o filme se trata da relação de todos eles com a cidade e o que esta tem a oferecer às amizades e à paixão do casal central. Em uma das cenas mais belas, Ben, um dos irmãos de Leila, leva os seus amigos para passear pelo Museu de Arte Moderna, e o que vemos é a interação completa dos personagens com o espaço. Os três amigos andam pelo Museu tentando interpretar as obras mostradas, tentando extrair do que veem algo que valha para a vida deles, mas não conseguem.

Essa é outra característica de Sombras: as pessoas ali são à margem da sociedade e tentam se encaixar da forma que for, seja apreciando obras de arte, organizando festas ou dando em cima de mulheres em bares. Leila, seus irmãos e amigos são marginalizados, por terem baixa renda ou por serem negros e mestiços. Mesmo todos tendo uma condição social parecida, muitas vezes os preconceitos pela cor os movem uns contras os outros.

Mas o que mais marca é a maneira de ele parecer um “filme de rua”. A câmera (às vezes na mão) passeia por avenidas, plataformas de trens, casas, táxis, preocupado com o que cada um desses lugares tem a mostrar; quer ver rostos de passantes e gente desconhecida, pessoas como aquelas lá de cima; Nova York foi pra tela de cinema em carne e osso. O que acentua esse aspecto também é a técnica de improvisação de Cassavetes, que usava atores não-profissionais.

Este genial diretor foi casado com a atriz Gena Rowlands. Trabalharam juntos em vários filmes, como Faces e Amantes. Morreu de cirrose hepática por seus problemas com a bebida. Mesmo com uma morte nada gloriosa para um grande expoente do cinema independente, ele será sempre lembrado por ter avançado a narrativa e o modo de filmar americano.

4/5

Ficha Técnica: Sombras (Shadows) – 1959, EUA. Dir: John Cassavetes. Elenco: Lelia Goldoni, Anthony Ray, Hugh Hurd, Ben Carruthers.