– por Cauli Fernandes

A preocupação conosco é mínima: somos os espectadores intrometidos, então o esforço de acompanhar e entender a história é só nosso, pois não existe Dardenne nesse mundo que entregue as coisas facilmente.

No início, a incompreensão vem fácil. Não há nenhuma apresentação clássica de personagens, mas somente uma súbita aparição da imagem, como se tivessem nos posto, de olhos fechados, em frente ao local da ação do personagem e, em dado momento, nos mandado abrir os olhos e prestar absoluta atenção na mãe que surge e no calvário que se segue.

Desse modo, perseguimos Sonia, a mãe, subindo as escadas, mas, mesmo não a conhecendo bem, nos chocamos com o tratamento recebido por ela. Na tentativa de abrir a porta do apartamento que se supõe ser dela, alguém que está do outro lado da porta a fecha, sem que vejamos quem. Depois, um homem a abre e diz que alugaram o apartamento de Bruno; Sonia fica do lado de fora, revoltada. Todas as perguntas que surgem com esse começo são logo respondidas, mas o roteiro não se expõe. Em outro momento, por exemplo, Sonia se encontra com Bruno na margem de um rio e diz que esperou a visita dele; nota-se que o diálogo não se desnuda de qualquer maneira e é preciso um pouco mais de eletricidade no cérebro para entender o que ela diz. Assim, a ilusão de ótica entre realidade e ficção provocada pelo filme é tão grande que temos a impressão de estar vendo um documentário. Tal sensação é agravada pela ininterrupta câmera na mão e ausência de ângulos muito planejados ou arrojados (sempre a lente esta na altura dos olhos dos personagens), como também falta de trilha sonora.

Mas um filme tão poderoso seria incapaz sem personagens fortes e atores do mesmo nível.  Jérémie Renier interpreta um Bruno algumas vezes visto como o vilão da história, mas ele é um ser ingênuo que faz de tudo pelo bem de Sonia, sua namorada. Se ele vende o filho, é pra sobreviver ao lado dela; não é possível julgá-lo por colocar como prioridade o amor que sente por ela e a vida a dois tranquila que almeja. Sim, ele mente para os policiais sobre o que aconteceu e coloca a culpa em Sonia, mas a sua sobrevivência também é necessária. Já Déborah François faz uma mãe apaixonada pelo filho e, assim, possui a antítese do sentimento de Bruno pela cria. Mesmo assim, depois que se percebem na espiral criminosa que em que se meteram, tentam resolver a sua forma, assumindo, em silêncio, a intempérie que é o bebê. Entretanto, depois de tanta mentira e paixão e a confirmação da pobreza em que vivem, eles se unem e choram pois não poderem se amar da forma ideal nesse mundo capitalista. Como, também, por verem que ainda são crianças e que não aprenderam esse jogo maldito que ninguém sabe o nome nem as regras. Mas aí já é tarde demais.

5/5

Ficha técnica: A Criança (L’Enfant) – Bélgica, França, 2005. Dir.: Jean-Pierre e Luc Dardenne. Elenco: Jérémie Renier, Déborah François, Jérémie Segard.

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– por Cauli Fernandes

Chega a ser infantil o motivo de tanta paranóia: fitas-cassete contendo mais de duas horas de filmagem sobre a frente da casa onde moram Anna, Georges e seu filho. Não há absolutamente nada de interessante nas imagens; é somente um relato pedante sobre o tráfego e pedestres casuais. Entretanto, a única coisa que nos chama atenção é uma mulher e um homem saindo da dita casa, fatos que duram pouquíssimo tempo e só nos atraem porque estão em primeiro plano no vídeo.

Então, pra quê tanto medo? A casa não foi invadida, ninguém se feriu, o melhor seria esquecer o assunto. Como se houvesse chance disso: surge outra fita, desta vez de uma gravação feita à noite, em que Georges aparece voltando do trabalho. Ele se questiona (assim como nós) como não avistou a câmera, que estava bem ao lado do lugar por onde havia passado na rua. Em uma rápida análise, era possível vê-la; não estava dentro de um carro mas em cima da calçada e nada havia escondendo-a. Mas existe um detalhe perturbador acompanhando a fita: um desenho de uma criança com um risco vermelho saindo da boca, que supomos ser sangue.

Georges fica em silêncio ao encarar o desenho, parece nervoso. Ele não parece supor nada, mas ter certeza. Será que ele encara outra coisa ao ver o desenho? Aqueles simples traços trazem algo mais do que somente a perturbação atual das fitas. À noite, o sonho nos traz alguma verdade, ainda obscurecida pela ignorância: um menino está em uma janela com a boca suja de sangue.

Cada vez mais, o voyeur adentra na vida desses ricos franceses. Deixa fitas no batente da porta e não mais na frente da casa, com desenhos que evocam mais pesadelos. As gravações da fita ficam mais intimistas e atingem Georges no peito. Anna fica alheia, sofrendo por ver a família decaindo, por ver que seu marido escondendo segredos doídos e não compartilha. O homem com quem ela viveu anos não estava completo ao seu lado.

E quem poderá ajudar? De onde vêm esses olhos de ódio, vingança, que vieram espalhar a discórdia? Essa sociedade contemporânea, antes tão tecnológica e sabida, não está apta a ajudar. E porque eles decidiram enfrentar esse determinado invasor, que não difere em nada das milhares de câmera anônimas que nos captam 24 horas por dia? Estas fitas trazem feridas, ressuscitam traumas, e passado é pra ficar no passado. Quem ousar mexer nele tem que pagar.

Mas, não importa o que se faça, a paranóia só aumenta. O único suspeito diz que não é autor das fitas e de novo nos vemos num beco sem saída. Já se foi tão longe para buscar uma resposta; será que para encontrar o culpado é necessário ir mais a fundo? O que há nesse fundo é capaz de aterrorizar quem tentar imaginar.

Aliás, quem é o verdadeiro culpado? Georges tem, claramente, uma dívida a pagar, mas o que o observador quer é ver finais trágicos; a partir de um certo ponto,  julgador e julgado se mesclam quando o assunto é culpa, pois cada um fugiu do controle. Quanto ao medo, só o objeto de pesquisa sente; o pesquisador está em algum canto, imenso em seu poder, planejando seu próximo passo de dominação mental.

Há mais alguém com culpa nesses fotogramas? Haneke evoca fantasmas que vão além de um simples trio de burgueses e pairam sobre toda a França. Para construir esse império presente cheio de tendências e costumes propagandeados pelo mundo, existem culturas subjugadas e mortas. Que não foram filmadas e ninguém está interessado em discutir.

Mas estamos do lado de Georges e Anna. A nossa posição do lado deles é irrevogável, principalmente por vemos seus rostos; sermos parceiros do oculto e sem propósito claro não é oportunidade que chegamos a pensar. Inclusive somos irmãos daqueles cheios de lentes em shoppings e bancos que fiscalizam nossa segurança. Mas pode ter certeza que eles não compartilham da nossa noção de segurança.

5/5

Ficha técnica: Caché (Caché) – 2005, França, Áustria, Itália, EUA, Alemanha. Dir.: Michael Haneke. Elenco: Juliette Binoche, Daniel Auteuil, Maurice Bénichou, Annie Girardot, Walid Afkir, Daniel Duval.

– por Cauli Fernandes

O título denota algo almodóvariano, algo cheio de paixão incontrolável, mas os sentimentos que vemos na tela são tão sutis e bem controlados por seus donos que acaba indo pelo lado contrário do Pedro: a dita paixão e desejo ficam interiorizados (não vemos os rostos daqueles que os realizam), a trilha sonora não é grandiloqüente (mas sim embelezadora) e as grandes tragédias com mortes simplesmente não acontecem.

E a sutileza vai até mais longe. Logo no início do filme não somos confrontados com uma imagem, mas sim com a descrição literal do primeiro encontro do casal principal, o que não diminui sua carga emocional e poética; só porque não é imagem não quer dizer que não seja belo. A partir da entrega em carne viva do olhar essencial entre Chow Mo-wan e Su Li-zhen, vemos o desenvolver do relacionamento, que começa em um corredor para chegar em algo imenso mas, infelizmente, tão facilmente barrado por um dos pilares mais jurássicos da sociedade: o casamento.

Mas tal troca e sede entre os protagonistas não existiria se não fosse pelos seus respectivos cônjuges, que ignoram visceralmente esse pilar e começam um caso; os antes longínquos vizinhos agora estão ligados, um par pela realização do amor, outro par pela não-realização deste, e acompanhamos o martírio desses últimos seres, a angústia de não conseguir ser desleal também e o medo de confrontar com a verdade não só “eles”, mas a própria vida que levam juntos.

Chow e Su, todo o tempo, criam uma realidade particular. Nela, idealizam rompimentos, choros, um futuro de riqueza abastecida pelas histórias de samurais que escrevem. Somente entre eles, fazem o que queriam que acontecesse no casamento deles, criam uma utopia de bonança amorosa absolutamente íntima. Tal dimensão paralela ocorre em lugares inóspitos, que exalam uma tranqüilidade onírica; aquele quarto de hotel e o beco parecem ter sido guardados a anos dentro de uma caixa somente para uso deles dois. Essa sensação também se nota por onde quer que eles passem ou toquem, como um batente de porta (o close na mão de Su quando toca nele é sublime), o lugar onde se vende macarrão e o pote usado para guardá-lo, os livros emprestados e muitas coisas mais. As marcas deixadas por eles são passageiras e somente nós temos oportunidade de desfrutar, enquanto quem realmente deveria tirar proveito delas não está próximo o bastante; aliás, a câmera é incrível ao captar esse não-contato. Ela caça não a presença de uma pessoa, mas a falta de alguém.

E lá vão eles pelo tempo. Os anos passam, já ensaiaram términos dezenas de vezes, a traição continua na outra metade do relacionamento. Por uma série de atos, de coisas que acontecem e a gente não percebe, eles se separam, nem temos noção direito do por que. Mesmo assim, algo continua, um fio de alguma coisa os amarra pelo espaço (nunca se romperá). Mas ainda há chance para redenção, um pedido de desculpas por não ter feito o bastante. Infelizmente, o perdão é concedido por um tijolo de pedra, um final sem glória para algo que podia ter sido realmente glorioso. Realmente, e não em um buraco na parede.

5/5

Ficha técnica: Amor à Flor da Pele (Fa Yeung Nin Wa) – Hong Kong, França, 2000. Dir.: Wong Kar-Wai. Elenco: Maggie Cheung, Tony Leung, Ping Lam Siu, Kelly Lai Chen, Roy Cheung, Paulyn Sun.

por Alexander DeLarge

Quando eu ainda tava na cama do hospital, me disseram que queriam fazer um filme sobre mim.

Não sei, eu falei. Já fizeram livro, não gosto muito do livro, não fui com a cara do autor, Anthony Burgess, ele só escreveu porque tava com um tumor na cabeça e tinha que ganhar dinheiro pra putinha dele sobreviver. Eu não li o livro, não gosto de ler, não gostei do título “Laranja Mecânica”, que porra é essa? Não gosto de laranja, não gosto de manga, gosto de leite, aí é jóia.

Aí eu falei não sei de novo. Eles me apresentaram um tal de Stanley Kubrick. Eu tinha visto um filme dele, não me lembro o nome, tinha um robô vermelho no espaço, eu me cagava de medo quando o robô falava, mas não conta isso pra ninguém, muito menos pros droogies. Mas eles já morreram, eu acho, ainda bem, mas o Stanley eu tenho certeza que sim, ele era gente fina. Eu fui com a cara dele, então deixei ele dirigir o filme.

Eu ficava no estúdio durante as filmagens, o pessoal ficava me bajulando, me trazendo leite, perguntando se tudo tinha sido daquele jeito mesmo. Era tudo exatamente igual, eu dizia, o Stanley era foda, ele queria fazer tudo exatamente igual, era um perfeccionista. Às vezes era mais bonito do que na realidade, oras, não é assim que é pra ser o cinema? A leiteria era linda, Londres tava linda demais, meu quarto tava do caralho, a produção tinha conseguido todos os LPs do Beethoven pra decorar o quarto, até aquele cortina fodástica! Roubei tudo quando as filmagens acabaram.

O ruim é que eu ficava me lembrando do meu passado, nostalgia é um troço chato. Me lembrava de quando eu e os droogies barbarizávamos por aí, roubávamos carros, espancava uns filhos-da-puta que a gente encontrava por aí, esse mendigos sujos e idiotas. Recordei do dia que enrabei a esposa daquele escritor, aquilo foi irado, não sei porque decidi cantar Cantando na Chuva aquela hora, acho que foi pra aliviar a tensão. Além do mais, eu tava tão mais feliz quanto o Gene.

Mas teve uma vez que a coisa ficou feia. Tava ficando tensa a relação entre eu e os droogies. Estavam organizando alguma coisa contra mim, eu tava percebendo então dei uma lição neles. Machuquei eles um pouquinho, cortei a mão do Dim com um punhal que eu tinha, nada demais. Logo depois eles vieram com a historinha de uma velha que morava não sei aonde e era pra gente ir lá. A gente foi, eu entrei, tinha um pinto enorme de gesso em cima de uma mesa, “arte contemporânea” como dizem as bichas, e acabei matando a velha com o pinto, por acidente. Os droogies me bateram com uma garrafa de leite na cara e fugiram, me deixaram machucado lá no chão, bando de traidores! Traidores!

Me prenderam. Eu, Alex, preso, jogado numa latrina de retardados e idiotas, comparado gratuitamente com estúpidos. Aquele amontoado de policiais, vontade de… Sei lá do que, porra! Tenho que dizer tudo agora, é?

Só sabia que queria sair dali o mais rápido possível. E curado. Curado do que? Sei lá, da minha doença que diziam que eu tinha que provocava toda a violência que eu provocava, algo sim.  Papo técnico demais, tavam tentando definir porque minha geração é assim. Ora, alguém vai saber porque é violento demais? Pode falar o que quiser, mas todo bichinho miúdo até o mais grande homem tem vontade de sair dando umas porradas por aí. Eu fazia o que todo mundo tem vontade, vem me dobrar, vem.

Mas eu queria sair dali, curado é pretexto. Aí eu me inscrevi no projeto de uns médicos pomposos e me puseram numa sala de cinema pra ficar vendo filmes. Eram vídeos legais, tinha uma gente bacana comendo umas meninazinha lá. Arregalaram meus olhos (cena mais foda do filme, fala aí!) e um cara ficou pingando colírio no meu olho pra não ressecar.

Entretanto, teve uma hora que começou a incomodar. Me dava um coceira, me incomodava aquela camisa de força. Piorou quando começou a tocar do magnífico Beethoven. A nona sinfonia! Tavam usando a nona sinfonia num experimento horrendo de controle do ser humano,  me dava vontade de vomitar vendo aquela escória usando essa brilhante música para meios tão imundos e terrenos. Eu berrava, berrava, berrava, ninguém me ouvia! Ninguém ouvia!

Uma hora acabou. Ufa. Me soltaram. Me jogaram na rua de novo, eu nem sabia que tinha virado notícia, nos jornais só se falava do rapaz violento que havia sido cobaia de experimentos governamentais. Mas eu tava curado. Violência nunca mais. Tentei voltar pra casa dos meus pais, mas eles não deixaram porque o quarto já tava alugado. Rolou choro, tentei reivindicar meu lugar, mas não consegui, tentei socar o filhinho-de-papai que tava no meu lugar, mas não deu. O experimento tava dando certo. Violência nunca mais.

Mas só pra mim. Não sei como, mas coincidências é algo foda, não? Você pode não acreditar, mas eu encontrei todo mundo que eu tinha conhecido antes da prisão, absolutamente todo mundo. O mendigo que eu tinha espancado, os velhos droogies que eu tinha jogado no rio, o marido da putinha que eu tinha comido. Encontrei todos e em nenhum eu consegui encostar um dedo. Eles me agrediam, cuspiam, me afogavam, podiam até ter me estuprado, mas não conseguia revidar. Eu ficava parado, imóvel. Um cara depois me disse que o Estado tava incrustado em mim, a mídia e a política governamental de controle tinham criado um órgão dentro de mim, logo se vê que esse cara é um desses pensadores que se acham o dono da opinião só porque tem um espaço em em algum jornal pra ricaços. O que esse cara sabe sobre mim, sobre essas porras de política? Ah, vai tudo tomar no cu. Não dá pra catalogar violência.

É pra falar sobre o filme eu falo: achei o filme foda. Aquelas cores de cabelo berrantes, as atuações canastras-shakesperianas (te surpreendi agora, hein? Eu sei falar palavra difícil também), Beethoven ficaria orgulhoso de ouvir a música dele num filme foda como esse. Tudo mudou depois dele, até a violência. Aquele maconheiro do Tarantino só faz violência estilizada porque antes houve violência bem mais estilizada do que a dele, e prova final tá no meu filme, ops, do Kubrick. Ninguém se esquece de mim, ops, do Malcolm, tomando leite, puxando o punhal na margem do rio, cantando e sapateando. Ninguém, porque o Malcolm é foda. Porque o Kubrick é foda. Esses dois carinhas deixaram uma marca inesquecível no mundo por que são profissionais, sabem o que fazem, meu, eu vi o Kubrick pegando na câmera, eu sei o que eu to falando! Muito sangue do bom, muito vermelho, como diria a bichinha do Godard, não teria sem mim e esses outros dois. E, depois do Che Guevara, a camiseta com o cartaz do filme é mais famosa da história. Os alternativos gozam quando vêem aquela estampa!

E o legado da minha ultraviolence repercute até hoje. A gente vê adeptos da ultraviolence em qualquer canto. Aquele Ewan McGregor do Traispóttin e o porra do Tyler Durden são versões cuspidas e escarradas de mim, prestenção. Teve até aquele mané que matou umas pessoas dentro do cinema quando tava vendo Clube da Luta (Fincher é outro foda, mas Pitt é um zé-ruela). Mané que deixou ser pego, podia ter fugido e ter enfiado umas balas no pessoal que tava de fora. Gente que toma leite do bom não faz merdas como essa.

5/5

Ficha Técnica: Laranja Mecânica (Clockwork Orange) – EUA, Inglaterra,  1971. Dir.: Stanley Kubrick. Elenco: Malcolm McDowell, Warren Clarke, Patrick Magee, Sheila Raynor, Michal Bates

por Cauli Fernandes

Em Hiroshima, há corpos amontoados e carbonizados. Em uma cama de hotel, há corpos amontoados e carbonizados, mas não por fogo ou radiação, e sim por paixão e loucura. Mas não vemos Hiroshima nessas imagens. Não, vemos tudo.

Conjugar verbos nesse texto é errado. Incutir noções tempo em palavras é ato falho ao discorrer sobre um filme que mescla de forma tão sublime o passado, presente e futuro; em um mesmo momento, vive-se aquilo que foi, o que vemos e o que presumimos e, por conseqüência, o peso de um personagem que sente tudo isso só pode ser colossal.

Mas não vemos Hiroshima. Quem não teve a família dizimada por uma bomba estrangeira e irrelevante não sente a dor de Hiroshima. Amigos viraram pó atômico. É única a angústia de observar virar fantasma o lugar que constituí toda a infância. Olha lá a pele em carne viva, metal e homem retorcido, tem mandíbula na latrina.

Não, vemos Hiroshima. A quilômetros de distância, debaixo de campos burgueses, o coração de uma menina francesa virou Hiroshima. Antes, o soldado alemão agonizava no chão, morrendo e se tornando lembrança. Antes, ele e ela pertenciam ao céu, ao carbono e suor que o outro exalava, a grama debaixo do corpo. Depois, o soldado alemão agonizava no chão, morrendo e se tornando lembrança; ela se abraça nele, um último toque, por favor. Depois, ela é jogada no porão para raspar pedras e gritar sem ninguém na sala de visitas ouvir, por favor, que falta de educação.

Mesmo com tanto sentimento, política e história também se permeiam pelo filme, o que o torna um organismo vivo. Por desenvolver tantos temas relevantes com desenvoltura e inteligência, a película injetou um vigor vital na história do cinema. Em 1959, 14 anos após a bomba atômica, Resnais usou essa ferida aberta para construir uma narrativa inovadora utilizando ferramentas tão diferentes: imagens de documentário, câmeras subjetivas, diálogos repetidos com cadência poética, metalinguagem. Isso resulta em uma unidade pensante, que empurrou o cinema para o status de arte capaz de se afirmar e de se discutir. Além de abrir as portas (junto com Acossado, de Godard, que também promove uma mudança na linguagem) para uma das fases mais ricas e líricas do cinema: a Nouvelle Vague.

Mas somos capazes de ver Hiroshima? Não, não somos. Mesmo estando no hospital, na Praça da Paz, no museu, mesmo tendo visto os chumaços de cabelo. Quem viu Hiroshima virou lenda mal contada.

5/5

Ficha Técnica: Hiroshima, Meu Amor (Hiroshima, Mon Amour) – França, 1959. Dir.: Alain Resnais. Elenco: Emmanuelle Riva e Eiji Okada

– por Cauli Fernandes

A janela do táxi transborda de coisas para olharmos. Em cada bueiro, em cada cor, Tóquio parece esconder uma novidade. Dos japoneses que riem, correm, voam pelas ruas, não observamos só “alguém”, mas uma dimensão paralela, algum tipo de seita transcendental onde as cores tramam revoluções com aqueles orientais, cheios de tradições imutáveis e gestos antepassados mas, que, ao mesmo tempo, são capazes de te surpreender com algo inumano, exato e arrebatador.

Bob Harris parece perceber isso, a julgar pelo esfregar de olhos e a boca escancarada de espanto. Ele se deslumbra com a profusão absoluta de matizes, o cheio de fundo do mar com boca molhada de chuva que o Sol Nascente traz. E, no meio de tanto delírio, surge uma coisa realmente insana: Bob está enorme, pregado numa parede, vendendo um copo de uísque que está na sua mão e fazendo cara de perdição, de amigo de infância reencontrado desiludido. Vida fodona.

Charlotte demonstra estar sendo cutucada por alguma coisa. Tem algo beliscado-a para dizer que os passos dela não são precisos; vontade de dizer “adeus” para tudo e sussurrar “merda” para o ombro. O marido dela não aparenta estar em débito consigo mesmo, como também não percebe que está em débito com a mulher. Ele já se alojou no caleidoscópio da cidade, mas ela continua apoiada na janela, olhando as formigas lá em baixo, matutando porque ela não se encaixa entre os sushis e templos, porque ela se acha fria e distante de toda a gente e ikebana, porque não consegue fazer um verdadeiro sorriso perante o homem com quem se casou.

Então, por efeito de algum ajuste no tempo, de alguma reorganização de todos os quarteirões do mundo, eles se encontram no mesmo hotel. No caminho que trilhavam, o ar estava em falta e o destino era oco, não estava sendo necessário chegar lá. Mas, depois da primeira troca de palavras, o que os aflige os enlaça; cada um saiu de um buraco de estranhezas para Tóquio, para um mundo feito à parte que nem todos conseguem ver. Havia um abraço sincero esperando por eles.

Com um toque nouvellevogueano, o casal passeia por lá, por aqui, vendo tudo como se cada fatia de peixe estivesse cheio de sonho. Os objetos e pessoas se metamorfoseiam em gamas de história com encantamento e importância. Até mesmo a dor que sentiam antes ao ver através do vidro é amenizada ao transformarem em música e compartilharem com quem entende. Mas, afinal, a resposta é a compreensão silenciosa.

Sofia Coppola transforma Tóquio em um daqueles globos de Natal, cheio de água, que a gente mexe pros floquinhos de neve se agitarem. Entretanto, ao contrário de neve, existe papeizinhos coloridos e cor-de-rosa e, no lugar do Papai Noel e sua casa nórdica, temos um aglomerado de prédios cinza com poesias secretas e pequenas pessoas ali pelo meio, enveredando por ruas, se perdendo. Sofia, ao brincar com o globo da vida, junta Bob e Charlotte em um nó de comprometimento e amor que nós procuramos todo o dia. Resta dizer parabéns para ela por fazer um dos casais mais lindos do cinema, e esperar pela hora em que nós teremos nossa particular palma da mão para agarrarmos e atravessar a rua. Porque, além do mais, a gente faz nossa própria Tóquio.

5/5

Ficha técnica: Encontros e Desencontros (Lost In Translation) – 2003, EUA, Japão. Dir.: Sofia Coppola. Elenco: Scarlett Johansson, Bill Murray, Giovanni Ribisi, Catherine Lambert, Anna Faris, Fumihiro Hayashi.

– por Cauli Fernandes

No início, fez-se a sombra. Atravessando dezenas de tons de cinza, vemos uma mulher desconhecida chorando, ouvindo uma música que vem de um vinil que toca. Somente para nós, surge o título do filme, mas quase não é possível distingui-lo. A mulher continua lá, sentada, sofrendo e olhando para uma TV com estática. Ela parece um pouco absorta naquilo, como também indiferente, vendo aquelas pontos de luz.

E isso é só o começo, o batente da entrada. Corte após corte, passeamos por aposentos diferentes de algum lugar, de alguma cabeça, por algo dentro de algum ser vivo ou não, sem qualquer linearidade. É tudo luz, sons, cores, ruídos, sonho, uma experiência sensorial jamais vista, dando conta de contar… O quê? Não sei. As histórias não se encaixam, os delírios são delirantes demais, tentar amarrar os personagens em algo coeso é insanidade. Tem mafiosos, uma burguesa às voltas com as questões da vida, alguém que sofreu violência durante a vida de casada.

E coelhos. Homens com cabeças de coelhos. Coelhos com corpo de homens. Eles fazem um programa de TV, talvez um sitcom, sem conteúdo nenhum, mas que há alguém que ri, há. Eles transam, transam, transam para perpetuar a geração de besteiras. Em um momento, ouve-se alguém batendo na porta e um dos coelhos a abre. Vê o que era. Sai. Silêncio.

Laura Dern. Laura Dern. Laura Dern. Ela é uma atriz que mora numa casa dourada e bonita e faz um filme amaldiçoado. Ela recebe uma visita de uma senhora que diz que um menino abriu uma porta, diz que o filme tem um assassinato foda pra caralho, diz que se hoje fosse amanhã. E aponta o dedo para uma poltrona e não se sabe o que acontece, três mulheres, incluindo Laura, aparecem lá. De um segundo para outro. Esse é o espírito.

Onde estarão as prostitutas? Mostrando os peitos para Laura, fazendo a maior cena musical da história, transando com quem? Elas transam? São prostitutas? Elas devem vagar pelo mundo, feito fantasmas. Será que já morreram? Faça perguntas sempre, sempre, se não, não se sobrevive nesse mundo de gente louca.  Laura Dern foi conversar com alguém, em algum lugar bem alto, falar sobre espancamentos, ameaças, morte.

Pomona fica onde? Muito perto ou muito longe? É algum lugar capaz de se alcançar? Para Laura Dern, apunhalada, deve ser difícil. Mas mesmo assim, estão filmando-a. Gravando a morte para fazer arte. Ou dinheiro? Dizem “corta” e ela anda, quase flutua para chegar em algum lugar, atravessa sets de filmagem, atravessa olhares. Chega onde? Em algum fundo saturado de contrastes, em alguma sala atolada de memórias, desvarios, demônios. Laura Dern diz que ama alguém. Mais luz e escuridão.

Todos os impérios estão mortos. Os sonhos estão sempre vivos, guerreando, acima de tudo e todos. Mas o Império dos Sonhos ainda está vivo do que nunca. Soberbo, pulsando. Na tela de cinema? Sim, talvez. Os filmes conversam entre si? Qual seria o fruto de um debate entre Casablanca e O Iluminado? Janela Indiscreta e Scanners são amigos? A gente gosta dos filmes, mas será que eles gostam da gente? Esse século de cinema quer toda a humanidade morta, de miolo espalhado na parede? Perguntem para eles.

C’mon, baby.

Do the locomotion.

5/5

Ficha Técnica: Império dos Sonhos (INLAND EMPIRE) – 2006, EUA. Dir.: David Lynch. Elenco: Laura Dern, Jeremy Irons, Justin Theroux