– por Michael Barbosa

Revolver me parece, em alguns sentidos, o mais longe que Guy Ritchie foi com o seu cinema – para o bem ou para o mal. O que temos aqui é uma espécie de filme-estudo sobre o Ego, a Realidade e todo o mais envolvido naquela teoria psicanalítica bem complicada; o meio para esse projeto de estudo é um thriller com mais ou menos todas as características típicas do cinema de Ritchie sendo executadas de maneira bastante radical.

A coisa começa a se desenrolar quando Green sai da prisão após sete anos por lá depois de as coisas darem erradas com o dono de cassino, mafioso, traficante etc Macha; Green, que vem tendo grande sucesso em todo tipo de jogos e golpes desde que saiu da cadeia vence Macha no seu próprio cassino e tudo está lindo até que ele se vê perseguido, diagnosticado com uma doença de sangue que o matará em três dias e refém de dois agiotas (um dos quais é Andre 3000, do Outkast, cara muito legal mesmo).

O plot é vagamente esse e o que vem em seguida é um trabalho de desenvolvimento dessa trama de modo basicamente caótico. De ampla forma Guy Ritchie parece bastante disposto a fazer de Revólver um exemplar do seu projeto estético e narrativo de cinema levado às últimas consequências formais, abrindo todo um debate sobre limites dentro de uma certa concepção pós-moderna de arte que ele parece querer a explorar; a certa altura, numa cena de ação paralela, o live-action é intercalado com uma animação que surge pela tela da tevê em cena, tudo isso na esperada montagem videoclíptica de sempre… O ponto é que a animação surge como um recurso de hiperrealismo (uma versão da realidade mais real que a própria realidade [sic], ou mais extrema, mais literal) – na história desenhada as proporções físicas são do tamanho das emoções; a ira das personagens é distorcida e representada na aparência exterior: Macha atira pelas mãos, o mafioso chinês raquítico se agiganta atrás de pistolas enormes, o agiota brutamonte é ainda maior e mais imponente e por ai vai. No meio disso temos toda a violência gráfica, cenários monocromáticos (curioso observar como cada microuniverso do filme parece ter sua própria identidade visual através de suas cores nas roupas, objetos e luzes) e uma infinidade de jump cuts, zoons in e out e outros recursos que evitam, a todo custo, que a câmera fique estática; e assim Ritchie executa o tal projeto caótico de cinema, através de um turbilhão de recursos sendo vomitados ininterruptamente. Nesse trajeto Guy Ritchie corre sérios riscos de acabar sendo só um pastiche de Tarantino ou algo análogo, mas parece conseguir, afinal, fazer um filme meio que realmente ousado esteticamente, “pós” tantas coisas que é difícil não reconhecer como válido o esforço do sujeito de ir tão na contramão de qualquer cartilha de bom-senso visual do cinema classicista.

O outro lado da moeda se dá ao pensarmos que nas suas pretensões de filme profundo sobre ego, realidade, contemporaneidade, filosofia, xadrez e psicanálise ele é muito mal sucedido mesmo; eu procurei bem e não consegui achar qual é o argumento, afinal; lembra, por isso, Clube da Luta, filme onde David Fincher – tal qual G.R. nesse daqui – faz um exercício estético muito bom mesmo que se perde com pretensõezzzz estéreis de revelar alguma grande verdade sobre o homem (pós) contemporâneo.

Revólver se reserva ao direito de um gigantesco insight no fim que não prova nada sobre o intelecto ou pretensões ou qualquer coisa de nenhuma das personagens, e a série de depoimentos reais de professores universitários, “PhDs”, falando sobre ego no fim me parece um legítimo atestado de que nosso amigo Guy Ritchie realmente acha que fez um estudo de caso muito profundo aqui, acadêmico até – enquanto para mim parece precisamente o oposto, ele chega ao final do seu filme absolutamente desesperado com a ideia que seu argumento não tenho ficado claro, e não ficou. Revólver é, pois, o ex da Madonna entregando um belo espetáculo estilístico que não consegue sustentar o próprio discurso, e paga o preço por isso.

3/5

Ficha técnica: Revólver (Revolver) – EUA, 2005. Dir: Guy Ritchie. Elenco: Andre 3000, Ray Liotta, Jason Statham, Mark Strong, Vincent Pastore