por Bernardo Brum

Em seu início de carreira, poucos trabalharam com filmes de certos gêneros de maneira tão promissora quanto Abel Ferrara – como o dos filmes de vingança em Ms. 45 e O Gladiador, o do suspense erótico em Cat Chaser, o romance marginal de Inimigos Pelo Destino e o thriller sobre assassino seriais, neste Cidade do Medo. Tais produções, em maior e menor escala de importância, serviriam para Ferrara nos anos noventa virar tudo de cabeça para baixo e fazer um cinema para lá de pessoal e único, livre e sem amarras que o transformariam em um dos grandes autores de cinema do nosso tempo.

Cidade do Medo é o que poderia ser o típico filme do gênero, mas para Ferrara vai muito além. A questão, ao longo do filme, é muito menos encontrar o assassino – que o diretor nos revela a identidade logo no início da projeção – e mais desmascarar com sua fotografia que mescla o berrante colorido da típica luz neon oitentista com interiores pobres e figurinos  que representam uma falsa elegância para os rituais e situações sociais que aquele grupo de personagens em específico passam a ter de enfrentar quando o maníaco começa a atentar contra a vida de várias strippers de maneira extremamente precisa e brutal.

Já nos anos setenta/oitenta, o cinema finalmente encontrava seu auge urbano. Poucos filmes passavam-se então no campo ou  em subúrbios. Temas urbanos, paranoias, fobias, crime, assassinos em série e em massa, o perigo pode estar virando a esquina;  ao contrário da beleza doentia dos melhores filmes de terror, o filme de Ferrara é um ritual sobre a brutalidade, sempre abordada de forma feia e desagradável contra os receptáculos de carne angustiados que circulam os ambientes decadentes.

Os corpos das strippers, sensuais e esquálidos que desfazem-se de roupas características da época nas boates em suas cores e luzes típicas contrastam com o corpo truculento do assassino, fanático por exercícios e forma física, querendo perpetrar sua visão pessoal de limpeza urbana através das mulheres que fogem do modelo tradicional imposto. Como grande maioria dos filmes de suspense e horror (seja a matança pura à la Sexta-Feira 13 ou thrillers como Millenium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres), é constante a tônica da violência como a antítese do sexo; a destruição do que podia gerar, a castração fanática, a imputação de uma visão moralizante.

Os melhores filmes constantemente trazem essa visão abaixo, e com a obra de Ferrara não é diferente, obrigando homens diferentes a unirem forças para investigar a onda de assassinatos – um ex-boxeador expulso dos ringues pelo destempero  emocional que agora investe na vida como dono de clubes de strip e um policial linha-dura (interpretado por Billy Dee Williams, à época na crista da onda por interpretar Lando Calrissian, um dos poucos personagens ambíguos de Star Wars), com Melanie Griffith (à época, musa dos suspenses sexuais de Brian De Palma) como o nome forte do elenco feminino; a escolha do casting já pode deduzir a intenção de Ferrara de jamais vender sua obra como um filme maniqueísta ou raso, mesmo operando dentro de um gênero.

Tom Berenger, eterno coadjuvante mas aqui como protagonista, é o contraponto ao assassino (cujo nome nunca é revelado, nem o do ator – talvez ressaltando a visão da Ferrara de como os assassinos são homens comuns na aparência, mas aberrantes em suas mentes, derrubando a visão “preto no branco” de homo criminalis), tão embrutecido quanto. O clímax se desenrola o mais urbano possível, sangue se misturando a concreto e asfalto, iluminado pelas luzes dos becos. A noite urbana de Ferrara, neurótica e violenta, atraente em toda a sua atmosfera grotesca. O DNA do piche, incrustado no nosso século, inseparável de nós, uma escultura do medo e do mal-estar erguida por um artesão que só viria a se firmar em alguns anos.

4/5

Ficha técnica: Cidade do Medo (Fear City) – 1984, EUA. Dir.: Abel Ferrara. Elenco: Billy Dee Williams, Melanie Griffith, Tom Berenger, Rae Dawn Chong, Jack Scalia, Rossano Brazzi