Como muito de vocês sabem, eu tenho experiência como professor de Química. Eu comecei a perceber que muito do que eu ensino meus alunos não se aplica apenas a assuntos da sala de aula, mas também à vida. Não é tão maluco quanto parece. Sabe, tecnicamente, química é o estudo da matéria. Mas eu prefiro vê-la como o estudo da mudança. Apenas pense nisso agora. Elétrons mudam seus níveis de energia. Moléculas mudam suas ligações. Elementos se combinam e transformam-se em compostos. Bem, isso é tudo na vida, certo? É a constante, é o ciclo. É solução e então dissolução, de novo e de novo e de novo. É crescimento, então decadência e então transformação. É realmente fascinante. É uma vergonha tantos de nós jamais pararem um pouco para considerar essas implicações“.

– Walter White, S01E01 (“Pilot”)

O que separa cidadãos comuns, como eu e você, do que Walter White se tornou na quinta temporada da aclamada série Breaking Bad? Tudo, dirá qualquer pessoa sã. E nada, dirá o espectador de Breaking Bad após muitas e muitas horas de drogas, tramas criminosas, idéias perigosas e mentiras. É a diferença entre o que diz Walter White – o pai de família com dois empregos, pai de um garoto deficiente, marido de uma esposa que não lhe dá muita atenção, ex-químico renomado – e o que diz Heisenberg, o “homem câncer”, o prepotente imperador da metanfetamina de Albuquerque, um assassino calculista, dissimulado e manipulador.

Declarada pelo criador da série (e também produtor, roteirista principal e diretor dos episódios mais importantes) Vince Gilligan, a intenção de Breaking Bad é clara:  “transformar Mr. Chips no Scarface”. As citações, que são tão dramatúrgicas quanto estéticas (e, esticando o tom de homenagem, apresenta dois atores do filme de Brian De Palma:  Steven Bauer e Mark Margolis), fazem de Breaking Bad uma das séries mais “cinematográficas” de todas: é especial a atenção dada ao uso da iluminação (sempre disforme e mutante), temperatura de cor, à perspectiva tridimensional, à evolução dos figurinos e dos cortes de cabelo, aos faux raccords visuais e/ou sonoros que ligam uma cena e outra, por aí vai:  comparado com grande parte dos seriados, que abusam da linguagem televisiva que só eles (planos fechados, diálogos expositivos, iluminação de três pontos), Breaking Bad surge, desde sua gênese, como uma percepção aberrante.

E não à toa que estão lá o sem número de metáforas visuais e sonoras para contar, justamente, a história da decadência, transformação e então ascensão de Walter White, o professor de química que descobre, um dia, sofrer de um câncer inoperável. Mesmo os tratamentos mais caros podem apenas retardar em alguns anos a fatalidade.  Perdido e confuso, o outrora introspectivo “Walt” logo de início torna-se cada vez mais suscetível e agressivo, até o momento em que forma uma aliança com seu ex-aluno e atual traficante Jesse Pinkman que causa cedo um forte impacto no submundo local: após muitas situações potencialmente fatais e inúmeras discussões os dois conseguem produzir a metanfetamina mais pura já vista.  A excitação e o perigo estimulam novamente o espírito de um Walter White apagado pelos anos, reprimido dia após dia e faz o até então patético homem começar a sonhar com dinheiro. E respeito. E, principalmente, poder.

A construção lenta e demorada na série – que, em cinco temporadas, pretende cobrir apenas dois anos da vida do protagonista – explora essa lenta metamorfose e descida ao inferno de Walter White. Nas mais variadas camadas, é desenhada essa lenta transição: desde a sanidade indo pelo ralo – indo de explosões de libido a esbanjamento desnecessário de dinheiro, marcado principalmente pelo episódio “Fly”, onde White tem um delírio paranóico com uma mosca que entra sem seu laboratório de metanfetamina, caçando-a obsessivamente, temeroso pela menor partícula que possa infectar sua puríssima droga – até na própria relação do protagonista com a vida alheia – tornando-se cada vez mais frio, demarcado pela transição que começa com o assassinato em legítima defesa, passa pela omissão de socorro e deságua tanto no assassinato premeditado quanto no puro assassinato por orgulho.

A maior luta, claro, é contra Heisenberg; luta que Walter já perdeu há muito tempo; sua relação deteriorada com o mundo encontra vários antagonistas; é o caso de Hank, cunhado de sua esposa, o homem da lei convicto, que descobre-se frágil e sensível; é o caso de Skyler, a personificação da mãe atual, perdida entre crise de valores e culpa; de Gustavo Fring, o grande senhor da metanfetamina de New Mexico, um dos grandes nêmesis de Walt durante a série, que Walt terá de destronar; de Mike, fiel escudeiro de Gus, um homem com seu próprio código de moralidade.

E, é claro, de Jesse Pinkman, o garoto viciado e rebelde que, pouco a pouco, devido tanto às maquinações de Walt quanto à própria inconsequência, terá que aprender a crescer, a conhecer a dor da perda, o gosto do medo, a culpa do crime, a vontade de perpetuação; não são poucas as suas recaídas, ataques de melancolia, lágrimas de desespero.  Ao contrário de Walt, Jesse passa progressivamente pela tomada de consciência; enquanto um deixa qualquer resquício do homem que já foi um dia para trás, o outro, jovem, lentamente começa a criar uma identidade para si. Não apenas uma estatística, mas um indivíduo. À sua maneira, com a ficha criminal suja que só; mas consciente, ao final de tudo.

Seja na fotografia escaldante e árida do deserto ou dos interiores opressivos, apertados e desesperadores, Breaking Bad é uma série belissimamente bem pensada e escrita e com uma concepção visual impressionante desde o primeiro momento, onde Walter White aponta a arma em nossa direção; mesmo com diferentes diretores a cada episódio (o próprio criador Vince Gilligan e o próprio ator central, Bryan Cranston, já assinaram a direção de alguns deles), a série consegue manter a sua unidade singular mesmo com tantas assinaturas diferentes. Cada mão do roteiro, cada plano concebido guia Walt nesse longo caminho das pedras até o auge do poder, até o pico da autodestruição.

Breaking Bad é, afinal das contas, esse longo (apesar de breve, cronologicamente falando) tratado sobre o lado oculto, feio e ruim. Sobre a angústia de saber-se final, sobre a reação desesperada. Da consequência de nossos pecados. De até onde somos capazes de chegar enquanto indivíduo. Sobre a tênue linha que separava um bom homem na besta humana, gananciosa, cruel e inconsequente.  Como um processo químico, Breaking Bad muda cada um de seus personagens; no processo, descobrem ser mortais, falhos e com desvios de caráter, vivendo contextos e tomando decisões que jamais imaginariam.  No meio do caminho, enquanto lentamente inverte clichês, estereótipos e expectativas, muda nossa própria percepção. A percepção aberrante, em constante transformação, jamais estagnada; eis Breaking Bad, o lado escuro da televisão.