– por Guilherme Bakunin

Algumas loucuras simplesmente acontecem. De tempos em tempos, a crítica especializada resolve, por puro desastre, exaltar certos filmes sem nenhum motivo aparente, como Clube da Luta ou A Origem, ao mesmo tempo que lança à sarjeta filmes de certa preciosidade, como Fim dos Tempos ou esse Carros, de 2006. Na história, Relâmpago McQueen (convenhamos, esse é um nome massa para um personagem) é um carro de corrida de última geração convencido de suas próprias qualidades, que após se perder em uma cidade no meio do nada, acaba encontrando motivos para acreditar em algo mais do que si mesmo.

Temos em Carros todos os elementos que consagraram qualquer outro grande filme da Pixar: uma qualidade estonteante de animação em três dimensões; um clássico roteiro construído em mcguffin, para apreciação tanto do público infantil quanto do público mais adulto; a tese que defende os “bons valores”, em Carros versando principalmente a respeito de amizade (assim como em Toy Story e Procurando Nemo); os elementos de gênero atuando harmonicamente dentro da narrativa (romance, ação, suspense eletrificante).

E apesar de possuir a mesma estética que outros, assim como nenhum filme da Pixar, Carros nunca parece um produto genérico ou preguiçoso. Os elementos narrativos são, sim, arranjados dentro da história; mas a história definitivamente funciona dentro do seu fluxo próprio. Uma das coisas mais assombrosas aqui é, por exemplo, que a clássica jornada do herói é subvertida em prol do roteiro. Enquanto na maioria dos filmes da Pixar, ainda mais levando em consideração que Carros possui distribuição Disney, temos a figura benevolente do herói, que embarca em uma jornada que, apesar de ser também sobre autorreconhecimento, é especialmente sobre salvar/ajudar alguém ou alguma coisa: Toy Story, Procurando Nemo, Os Incríveis, Ratatouille, Wall·E, Up. Em Carros, porém, seguindo pela clássica lógica voegleriana, o herói seria alguém mais próximo Sally Carrera, o par romântico do protagonista, que é basicamente quem consegue salvá-lo de ser uma “pessoa” arrogante e egoísta.

É uma jogada ousada, obviamente, já que o filme coloca o espectador para acompanhar um personagem que, por ser “mau“, será transformado diversas vezes diante dos nossos olhos. Mas as transformações pelas quais Relâmpago McQueen passa são suaves e verossímeis o suficientes para não desestabilizar a história.

Colocando de lado essa pequena subversão de valores na personalidade do herói, que é definitivamente interessantíssima do ponto de vista narrativo, a história de Carros: não tão boa assim.

Há obviamente certa coesão nos assuntos,  já que a jornada de transcendência pessoal de McQueen intercala-se adequadamente com a jornada de transformação da cidade em um lugar melhor, e o filme desempenha um bom papel em narrar esses arcos aparentemente paralelos, ao mesmo tempo que dá vazão para que o público conheça e se identifique com outros pequenos personagens.

Porém, na hora de desenvolver a narrativa, o filme se perde em momentos tolos que flertam perigosamente com o genérico, o esperado e o comum. O romance entre Sally Carrera e McQueen é tão obvio, que assisti-lo até ele acontecer é um sacrifício,  por causa da previsibilidade; a comédia pastelão de Mater (dublado por Larry the cable guy) e todo a coisa de “velho, sábio e guru” de Doc Hudson (Paul Newman) também cansam, e entre primeiro e segundo ato Carros torna-se cansativo, e nada memorável.

Ao final, dentro dos acontecimentos que são, também, previsíveis (McQueen vai embora da cidade e reencontra mais tarde seus novos amigos caipiras num momento decisivo), o filme volta a funcionar um pouco mais, especialmente porque agora, ao contrário do que acontece no entre-atos, ele vai para algum lugar, ao invés de ficar estagnado em um só lugar.

3/5

Ficha técnica: Carros (Cars)  –  EUA, 2006. Dir: John Lasseter, Joe Ranft. Elenco: Owen Wilson, Bonnie Hunt, Paul Newman, Larry the cable guy, George Calin, Cheech Marin, Tony Shalhoub, Jennifer Lewis, Michael Schumacher.