– por Guilherme Bakunin

Por algum motivo, o retrato caótico que Altman compõe da América em seus filmes me parece ser a representação mais acurada não apenas de qualquer ambiente urbano e congestionado de lugares e pessoas, mas também e principalmente do espírito de confusão e paranóia do sonho americano nos anos 1970. Todo mundo conhece bem a mitologia da era de aquário, dos tempos que estavam prestes a mudar, seguidos pela ressaca moral que permeou a sociedade americana, com a guerra, as drogas, a violência. Robert Altman extraí em seus melhores filmes a pós-embriaguez desse período, marcadas principalmente pela disfuncionalidade, pelo indivualismo e pelo sarcasmo.

Dessa forma, trabalhar com Phillip Marlowe parece ser uma escolha interessantíssima, já que ele é um dos grandes heróis americanos, que já nos anos 1940 observava a sociedade liberal americana com ironia e niilismo. Os irmãos Coen resgataram, no começo dos anos 1990, esse herói, reconfigurando-o em Jeff Lebowski, um hippie que se recusa terminantemente a amadurecer. O Perigoso Adeus de Altman parece existir na intercessão entre as duas histórias: nos grandes romances de Chandler, Marlowe é um homem solitário e truculento que, por ser à moda antiga, é incapaz de se acomodar no carnaval de personagens e situações que o rodeia; em O Grande Lebowski, Marlowe (The Dude) é liberado demais, taxado de vagabundo por um microssomo social que se opõe aos valores da auto-satisfação; o Marlowe de Altman parece, portanto, aquele que está mais à vontade com o mundo que o rodeia, e a jornada do filme está interessada principalmente em narrar o processo de desilusão do detetive, ao descobrir a verdade sobre a intricada trama.

A história de O Perigoso Adeus se desenrola da mesma forma que qualquer outra história do detetive Marlowe: cuidando de seus próprios assuntos particulares, ele se vê imerso em algum tipo de encrenca, incapaz de se libertar a não ser através da completa resolução dos mistérios que rodeiam o elenco os protagonistas da aventura. Não é o que acontece nas tramas de Chandler que interessa ao leitor, mas a maneira a qual ele esculpe o universo, através do seu vocabulário descritivo e interlocuções afiadas. Altman se aproxima desse universo, e traduz o vocabulário de Chandler para o seu próprio, transformando o obscuro mistério de O Longo Adeus (livro no qual o filme é baseado) em um filme de caráter fortemente expositivo, que existe fundamentalmente em duas paisagens específicas: a cobertura cortiçal onde vive Marlowe, num exemplo grotesco de arquitetura, transformando elevadores e corredores em composições futurísticas delicadas que podem ou não estar prestes a desabar a qualquer momento; e a mansão à beira da praia do escritor Roger Wade e sua esposa, Eileen.

Altman registra então, pacientemente, todas as ações que ocorrem principalmente nesses dois cenários, em planos gerais especialmente, deixando  possam expressar, com todo o corpo, os trejeitos dos seus personagens. O dinamismo resultante dessa dinâmica é assustadoramente envolvente, mas de uma maneira completamente distinta do imersão chandleriana, que é mais pautada em reações sutis que só poderiam ser extraídas através de planos bem mais próximos. Por isso é tentadora a impressão de que Altman está mais interessado em retratar a América pós-anos-1960 do que qualquer outra coisa:  inserindo os personagens em desenvoltos cenários, obstruindo muitas vezes suas silhuetas com plantas, paredes, janelas, a câmera do diretor parece não conseguir esquivar-se de registrar sua contemporaneidade, nem que para fazer isto ela tenha que virar as costas para a ação.

Sob esse ponto de vista, faz muito sentido que o Marlowe de Altman aja da maneira que ele agiu no final: todo herói americano carrega a América nas suas costas. O Marlowe interpretado por Elliot Gould carrega uma profusão de cicatrizes indeléveis de uma futura utopia que jamais se concretizou. Entre as hippies persistentemente loucas à sua porta e o amigo de infância que o usou como bode expiatório pra conseguir alguns trocados, Phillip Marlowe agora só consegue se expressar através do desprezo e da desilusão – ele é um personagem muito mais hostil e instável agora do que em 1940, e provavelmente não haviam muitos diretores na época tão capacitados em assimilar essa dicotomia tão bem quanto Altman.

4/5

Ficha Técnica: O Perigoso Adeus (The Long Goodbye) – EUA, 1973. Dir: Robert Altman. Elenco: Elliot Gould, Nina Van Pallandt, Sterling Hayden, David Carradine, Henry Gibson, David Arkin.