por Bernardo Brum

Antes de A Marca do Assassino, Suzuki trazia para a tela em cores fortes, duras, marcadas e quase lisérgicas a vida de um pequeno grupo de prostitutas que resolvem lutar – na mão – para conseguir sobreviver. Unidas sob uma promessa, elas resolvem não deixar ninguém entrar em seus domínios – um casarão arruinado ao qual chamam de “lar”  e punir qualquer uma do grupo que transe com um homem de graça, sem cobrar.

Ainda que com figurinos tão coloridos, o contraponto deles, que são os cenários arrasados e sujos, dão o tom geral do filme: uma cáustica reflexão do Japão do período pós-guerra. Claro que, como é habitual do diretor, feito com muito esculhambação e histrionismo.  A câmera penetrante do diretor, sempre pescando pequenos momentos e inseguranças dos ambíguos e violentos personagens, une forças com a montagem altamente fragmentada para dar a Portal da Carne seu aspecto confuso, de pesadelo vivido, de idílios e desejos deformados.

Esse tipo de filme  com o passar dos anos iria influenciar todo um filão de filmes no Japão a cada vez mais produzir histórias a toques de caixa sobre o crime organizado, os vícios, a opressão e exploração do sexo feminino e por aí vai. Suzuki foi certamente um dos pioneiros em seu país do cinema B, barato e urgente. Se Kenji Mizoguchi, em grande parte dos seus filmes, via como trágica a situação de meninas sendo vendidas como prostitutas para que as famílias conseguissem comer (o que aconteceu com a irmã do diretor), Suzuki filma no meio do lixo.

Entre uma bebedeira e outra, a líder das prostitutas calcula que elas cobram o mesmo preço para vender seus corpos que o mercado cobra para vender carne. Nem mais nem menos, nem despesa nem lucro; ela só não sabe responder, afinal, se “estamos comendo para vender nossos corpos ou vendendo nossos corpos para comer”? Mizoguchi lamentava a degradação. Suzuki, de outra geração, já era a podridão propriamente dita.  Sem tempo para muitas filosofias no meio daquele matadouro humano.

Chove constantemente no filme; os personagens estão constantemente sujos, suados e envoltos pelas sombras. Essas criaturas da noite, enfocadas de maneira delirante pelo diretor acabam por pintar um certo quadro expressionista japonês; Suzki não parece muito interessado em narrar, mas sim criar uma manifestação íntima que equilibre elementos como a emoção e toda a sua gama de cores (cada prostituta, com sua cor específica, reage de maneira diferenciada ao universo e aos acontecimentos que experimentam) com seu campo profundo, a perder de vista. O que está ao alcance da vista é uma bagunça, uma ruína, uma sujeira. Não se vê muita coisa ao longe. Seja pela distância ser enorme, seja pela escuridão engolir, seja pelo foco seletivo – Portal da Carne faz jus ao nome e está sempre perto demais daqueles rostos que ninguém se dispõe a olhar.

Suzuki procura redefinir a autoridade, o homem, a mulher e suas relações: as mulheres são corajosas, batalham para sobreviver, mas ainda cedem aos homens; os homens são frágeis, mas ainda violentos. Ambos são comerciantes, ambos trabalham com o lado ilegal da vida. Um lugar onde a autoridade não existe, onde cada um cria suas próprias regras – e dane-se quem não gostar. Uma sociedade virada de cabeça pra baixo, esmagada pelo peso de suas próprias tradições. A lógica clássica da família japonesa, apesar de ainda poder ser vista no filme, é obviamente filtrada pelas lentes distorcidas, pelas sobreposições e elementos cênicos bizarros.

Tal espírito que faria Suzuki ser demitido após A Marca de Assassino, sob alegação dos produtores que seus filmes “não faziam sentido nem faziam dinheiro” , cujo posterior processo aos seus antigos patrões por parte do cineasta faria o mesmo entrar numa lista negra e ao mesmo tempo ser ídolo contracultural da sua geração, um homem que não tinha medo de mostrar o Japão como via a japoneses progressivamente mais alienados – que fizeram gente de ambos os lados do globo delirarem, de John Woo, Chan-Wook Park,  e Takeshi Kitano  a Jim Jarmusch e Quentin Tarantino, motivando os próprios a também tecerem suas próprias histórias marginais.

Insatisfeito com as formas e conceitos anteriores, Suzuki foi lá e fez a sua parte, caminhando paralelamente à nouvelle vague japonesa (ou nuberu bagu) de Nagisa Oshima e Hiroshi Teshigahara, e reinventou o cinema japonês como conhecíamos: ao invés dos samurais fordianos em estética classicamente ocidental de Kurosawa, do anti-drama de Ozu e o pesado trabalho de mise-en-scène sobre temas humilhantes de Mizoguchi, agora cores, sons, música e enquadramentos adquiriam novos tons de bizarrice. Se a humanidade era um show de horrores então, filmaremos ela como tal. Da obsessão sexual de Oshima e Hiroshi em A Mulher da Areia e O Império dos Sentidos até a mais bizarra perversão de um Takeshi Miike (em filmes como Audition, Gozu e Imprint), Suzuki abriu um novo precedente estético e dramatúrgico: o japão, marginalizado, encenado em uma linguagem dodecafônica, sem pátria, que só faz sentido afinal, na cabeça de quem assiste. Do jeito como Suzuki sempre quis, afinal de contas.

4,5/5

Ficha técnica: Portal da Carne (Nikutai no Mon) – 1964, Japão. Dir.: Seijun Suzuki. Elenco:  Jo Shishido, Mariko Ogawa, Anne Mari, Koji Nambara, Isao Tamagawa,Hiroshi Minami.