– por Guilherme Bakunin

Foi interessante assistir a esse O Inventor da Mocidade no mesmo dia em que eu também assisti a Este Mundo é um Hospício, do renomado diretor/propagandista Frank Capra, porque tratam-se de duas screwball comedies protagonizadas pelo Cary Grant, então já se reservam aí semelhanças suficientes para se estabelecer essa comparação. Muito embora a densidade temática de Este Mundo é um Hospício parece sugerir que talvez Capra não fosse o diretor mais adequado para a produção (o filme fala sobre duas velhinhas simpáticas que assassinam piedosamente velhos solitários), os vícios de um certo moralismo encontram-se na tangente da história: apesar do sexismo exagerado, e da morbidez do humor, Capra torna seus principais personagens simpáticos ao público, afim de anestesiar a experiência do carnaval de assassinos, torturadores e loucos do filme. Hawks, por outro lado, é praticamente um mágico, e cria a empatia através da ambiguidade, dos defeitos, do espetáculo. Em nenhuma de suas comédias o diretor move uma pena para atiçar a identificação entre personagem e público, mas concentra todas as suas forças em deixar que a história possa fluir com seus acontecimentos e diálogos. Essa estética é responsável por duas das maiores comédias da história: Jejum de Amor, de 1940, e Levada da Breca, de 1938.

E também O Inventor da Mocidade, já em 1952, meio fora de forma, com diálogos menos loucos e personagens que já sentem nas costas o julgo da velhice. Por isso, Hawks aqui deixa os personagens ficarem em silêncio – um contraste que torna mais evidente as metamorfoses da história. Cary Grant interpreta Barnaby Fulton, um pesquisador que acredita ter achado a formula da juventude. Na verdade, quem descobriu a fórmula foi seu macaco, que despejou os compostos da fórmula no bebedouro, desencadeando uma série de reações que perpetuam durante o filme.

A questão da desencadeação como narrativa é extremamente importante na obra de Hawks, especialmente no período pós-1950, quando o cineasta está mais comprometido e articulado nos seus objetivos. Uma das citações que lhe é atribuída diz que “filmes são imagens em movimento, mas que não se mexem sozinhas”, testemunhando que, a função do diretor enquanto contador de histórias, é movimentá-las.

A screwball comedy parece, então, o gênero de maior  adequação com os preceitos de Hawks – a história vai sempre para frente, sem a necessidade de conexão entre o que houve antes e o que houve depois. O desleixe narrativo chega a fazer parte do gênero. Mas Hawks não busca o que é mais adequado e cômodo, a talha mesmo na mais inócua e singela comédia, que nas mãos de qualquer outra pessoa jamais se tornaria um filme instigante, relações entre personagens que somente a força do sutil pode potencializar.

Em O Inventor da Mocidade, a figura mítica de Monroe (ainda coadjuvante) paira sobre o casamento dos Fulton, mas qualquer espectador sabe que existe uma história e existe um sentimento entre os dois, existe uma força que os atraí e que, mesmo nas crises, coloca-os juntos em intimidade. Essa força é o diretor, o contador de histórias, tão ignorado em muitos filmes, e tão bem utilizados em alguns. A mesma energia que comanda os personagens de O Inventor da Mocidade, também está presente em Lua de Papel (de Peter Bogdanovich, 1971) e Pulp Fiction (de Quentin Tarantino, 1994), raros casos em que os diretores não se esqueceram de prestar tributo a um dos maiores artífices do cinema americano.

Por isso, mesmo que O Inventor da Mocidade não seja tão engraçado quanto as típicas comédias de Hawks, é uma história bem articulada e orquestrada, as cenas se desenrolam com rapidez e objetividade e ninguém provavelmente verá um casal tão bem em tela quanto Cary Grant e Ginger Rogers. Além do mais, assistir a um filme do Hawks é como entrar num tipo de hipnose espiritual: você simplesmente não consegue desviar os olhos e a atenção das telas.

É aí que eu volto com a comparação entre Capra e Hawks: o filme de Capra foi, pra mim, um engodo, um incômodo. Viciosamente o diretor insistia em me distrair do que mais me interessava (a comédia, o personagem de Grant, a rapidez nos diálogos), e me afastava cada vez mais da experiência do cinema, e também da experiência da comédia, que se afastava de mim na mesma proporção. Com o filme de Hawks, no entanto, as risadas foram consistentemente mais escassas durante todo o filme, mas um prédio poderia desabar ao lado da minha casa, e eu não ligaria. Essa é, pra mim e se tratando de um filme de hollywood (pois nem toda a experiência cinematográfica é baseada nos mesmos princípios), a diferença entre um bom e um mau filme:  a relação intrínseca entre a história sendo contada e o controle que o diretor de cinema, e somente ele, possui ao arranjá-la.

3/5

Ficha Técnica: O Inventor da Mocidade (Monkey Business)  –  EUA, 1952. Dir: Howard Hawks. Elenco: Cary Grant, Ginger Rogers, Marilyn Monroe, Charles Coburn, Hugh Marlowe, Henri Latondal.