– por Guilherme Bakunin

Narrativamente falando, O Porto é tão convencional, que seria um filme desconfortável. Nem mesmo o mais despreparado dos espectadores encontra muito entusiasmo em filmes que mexem sempre com aquilo que é esperado. Porém, alguns diretores conseguem se sair bem com o clichê, pelos mais diversos motivos. O mais comum ocorre quando o diretor é um autor. Sendo autor, ele não apenas manufatura filmes; ele os cria. É, nesse caso, uma expressão consistentemente pessoal, verdadeira. E quando alguém conhece sua própria verdade, não há como errá-la.

Aki Kaurismäki é certamente um dos expoentes mais bem sucedidos do cinema fatalista, e sua obra extensa e consistente é a prova disso. Desde os anos 1970, o cineasta tem produzido proliferamente filmes a respeito de marginais bem intencionados, que apesar de suas maldades terem como alvo apenas e ocasionalmente a si mesmos, ainda são relegados a uma vida de miséria e solidão. Ariel (um dos meus filmes preferidos), Nuvens Passageiras e O Homem Sem Passado são exemplos cabais de toda a estética de Kaurismäki, repleta de humor, ingenuidade e atmosfera.

Em O Porto, o cineasta se utiliza da questão dos imigrantes, que tem sido amplamente discutida na União Européia, para contar a história de Marcel Marx, sua esposa Arletty, seus vizinhos, amigos, inimigos e Idrissa, o garoto africano que desembarca por engano no porto de Le Havre. As decisões formais de Kaurismäki, que são tão genuinamente influenciadas por novelas e operetas que deixariam qualquer fã de Almodovar extasiado, não são capazes de mascarar a previsibilidade da história, mas são capazes de elevar a experiência cinematográfica para um nível diferente de apreciação.

O simplório e o paroquial transformam-se, em O Porto e nos demais filmes onde a estética de Kaurismäki está pulsante, de aspectos formais da fotografia para aspectos pertencentes à religião do filme. É o que o filme é e é o que o filme deve ser. Não se trata nem de um objetivo, mas de uma obrigação. Os pequenos  gestos das pessoas simples, e os detalhes mais estapafúrdios de suas rotinas são amplamente reconhecidos nesses filmes, detalhadamente registrados, dando aos personagens dimensões heroicas de importância e de significado.

E O Porto também é repleto de lirismo, especialmente nas cenas de ação, que curiosamente são as mais introspectivas. Sempre que o filme registra um acontecimento mais eletrizante, onde normalmente faria mais sentido dentro de uma lógica clássica cobrir o maior número possível de movimentos (como em uma cena de tiroteio, o natural seria filmar quem está atirando e quem está recebendo o tiro, por exemplo, além de mostrar onde eles estão), Karusmäki emprega closes-ups, numa tentativa feliz de se narrar não apenas o que acontece, mas as implicações desses acontecimentos mais imediatas em seus personagens ou o significado mais imediato dentro da narrativa.

Um dos exemplos mais interessantes é quando Arletty dorme ouvindo um conto de Franz Kafka. O escritor, que é bastante associado a uma ideia de estar encurralado, narra uma história onde uma mulher foge da cidade e das pessoas para pacificar-se na floresta. A paz e a tranquilidade. O refúgio, o remédio. Uma das heroínas do escritor mais tenebroso do século XX pôde encontrar. Os personagens de Kaurismäki, ainda que imersos em realismo, certamente também poderão.

4/5

Ficha técnica: O Porto (Le Havre) – Finlândia/França/Alemanha, 2011. Dir.: Aki Karusmäki. Elenco: André Wilms, Kati Outinen, Blondin Miguel, Jean-Pierre Darroussin, Elina Salo, Evelyne Didi, Quoc Dung Nguyen.