por Bernardo Brum

Com Os Chefões, Ferrara equacionou, como muito de seus predecessores diretos a a aproximação entre valores tradicionais da sociedade burguesa e atividades ilegais e criminosas. Nesse caso, as famílias mafiosas. Unidade básica de muitas sociedades, a reunião de correlatos sanguíneos e cônjuges já trabalhava com relações de poder há muito tempo – como as monarquias de base familiar, por exemplo. Cedo ou tarde, famílias menos favorecidas pelo sistema legal acabariam no mundo do crime – levando um sentindo de “sangue”, “ordem” e “honra” a um mundo obscuro então violento e indiferente.

É o caso da violenta família Tempio, com seus protagonistas vivendo em um cotidiano tão moralista quanto amoral; casados e frequentando bordéis, criando filhos, seguindo ritos e matando pessoas, contrabandeando e estuprando mulheres; essa é a ambiguidade que fascina Ferrara no mundo da máfia, a linha tênue entre o bem e o mal que mora na natureza dos três irmãos protagonistas da obra: o frio, metódico e calculista Ray, o estourado e psicótico Chez e o jovem e impetuoso Johnnie, o caçula dos três, logo o mais sensível – apesar do estilo de vida que leva, frequenta reuniões clandestinas do partido comunista americano.

A trama se desenvolve a partir do assassinato de Johnnie e a determinação por vingança de Ray e Chez. Narrada tanto em ritmo de filme de investigação ou mistério quanto de “romance de formação”, com os flashbacks estabelecendo as relações entre aquelas pessoas tão diferentes unidas por um único laço – que, uma vez desfeito, faz a própria noção de família perder o sentido. Elemento especialmente perigoso, já que uma vez retirado o norte que fazia eles prosseguirem em uma vida de ilegalidade, essa mesma vida parece perder o sentido e propósito e restar apenas a truculência sem sentido.

Essa violência que coexiste com a sensação de segurança e afeto da família manifesta-se de forma especialmente característica ao longo do filme: desde as suas mais profundas raízes na infância – quando um Ray Tempio ainda infante é obrigado a cometer seu primeiro assassinato – até os dias atuais, onde cada irmão manifesta seu lado violento segundo sua personalidade; Chez não esconde de ninguém a maldade inerente aos seus atos, e a cena onde estupra uma jovem que queria se prostituir, acusando-a de vender a alma ao diabo, é emblemática: enquanto comete o chocante ato, ele grita em seu ouvido “não foda com o Diabo”. Ray, mesmo sendo racional e calculista, é mais cruel ainda: ele sabe que encontrar e matar o assassino de Johnnie não vai trazer o irmão de volta, mas o pacto Faustiano já está selado há muito tempo, desde que ele, quando criança, matou uma pessoa.

O recuo no tempo, com essa obra que retrata os anos trinta e seu lado escuro, é um convite de Ferrara a tomar consciência do lado feio da natureza humana, que não é mutuamente excludente com o lado afetuoso e generoso; mesmo deslocado em matéria de décadas, a história é mais uma versão da reflexão aberta em filmes como O Rei de Nova York e Vício Frenético; o visual é mais clássico, muitos estão de terno e roupas “de classe”, mas tudo ainda é muito escuro (dos ambientes às roupas) e de aspecto sujo, claustrofóbico e ameaçador. Toda a narrativa de Ferrara parece comprometida em virar para baixo os temas recorrentes nos filmes de máfia – como sangue, família e honra – para mostrar a razão primal deles:o pretexto para que o homem, animal social, traga a besta humana à tona.

Os Chefões traz o tribalismo brutal e desgovernado do Frank White de Rei de Nova York e o mergulho em vício, afogamento na culpa e tomada de consciência do Tenente de Vício Frenético para dentro do pilar da estrutura social. Como havia atestado desde seus filmes predecessores ao seu auge de forma e conteúdo, expressando desde através de pirações undergrounds como O Assassino da Furadeira e Sedução e Vingança e também no Shakespeare “das quebradas” Inimigos Pelo Destino:a violência é algo irresistível. Faz parte de nós. E faz parte da família também.

Como pode-se ver na chacina suicida ao final, a tomada de consciência tira todo o norte: Ray poderia até seguir em frente matando gente inocente até conseguir encontrar o culpado, mas o passional Chez não – o mesmo acaba resolvendo a contenda de forma irracional, explosiva e masculina, como o mesmo foi o filme inteiro, não só estuprando garotas na rua, mas subjugando sua mulher, a submissa Clara, o tempo todo. Essa violência herdada, para Chez, não poderia continuar – o inferno que eles se meteram eram deles, somente deles. Vingando-se irracionalmente, cometendo crimes que julgavam irrelevantes, ignorando o afeto e a preocupação verdadeira em nome de causas que julgavam maiores, esses três homens criaram o próprio buraco que estavam.

E se o laço de sangue que havia criado isso foi a gênese de toda a desgraça inconsequente até que a consciência apareça, que ele também sumisse, de uma vez só, por inteiro. A paixão homicida, o racionalismo frio, a juventude irresponsável: as três instâncias representadas vão embora uma a uma, repentinamente, numa maré súbita de uma violência que esgueirou em becos e corações escuros por gerações. Entram os acordes da canção húngara do suicídio, Gloomy Sunday – que também havia aberto o filme.

O homem, outra vez, devorou a si próprio, simplesmente por dar vazão mais uma vez ao lado baixo dos instintos e só parado para o exercício de consciência após. Justamente o que aconteceu durante todo o seu cinema. A escolha voluntária pelo mal é a escuridão que sempre os traga: todos tem oportunidades, caem vítimas de suas próprias escolhas e sempre terão que, cedo ou tarde, reavaliar e reconsiderar a existência com a qual têm de convier. Estamos condenados a sermos livres, diria Sartre. Estamos condenados a viver tendo que escolher o bem e o mal, diz Ferrara. Escolhas levianas constroem vidas levianas que levam a fins levianos.

A letra cantada por Billie Holiday dá vazão a inúmeros pensamentos depressivos e suicidas – mas ao final, espera que os mesmos não assombrem os entes queridos. Essa violência viral – literalmente, com a chacina final perpetrada por Chez – mora em todos nós. Resta esperar que a tomada de consciência seja exemplar para as gerações futuras – de nunca se acomodarem de aceitar ou praticar o mal, mas sim de compreendê-lo e domá-lo. É o complexo religioso de Ferrara – pecadores em processo de purificação espiritual e existencial, mas cozida no caldeirão de sombras e gritos de forma muito menos maniqueísta. A maçã do Éden e o pacto com Mefistófeles, para o diretor, nunca foram para o diretor mais do que metáforas bastante claras sobre temas-chave em sua obra, determinada a jogar luz onde os outros preferem que esteja escuro. Ferrara é o cineasta do mal, do mal consciente, do mal humano. Implacável, passional e singular, como só ele sabe fazer, em mais uma de sua vasta coleção de obras-primas.

5/5

Ficha técnica: Os Chefões (The Funeral) – EUA, 1996. Dir.: Abel Ferrara. Elenco: Christopher Walken, Chris Penn, Isabella Rossellini, Vincent Gallo,Annabella Sciorra, Benicio Del Toro, Gretchen Mol.