por Guilherme Bakunin

Shyamalan começou a acompanhar a série animada de Avatar: The Last Airbender por causa da filha, e depois de assistir às duas primeiras temporadas declarou que o universo da animação certamente daria um grande filme. Não em suas mãos, não senhor. O Último Mestre do Ar é um trabalho de bom faro, perspicaz em sua construção de planos e arco central, mas não possui emoção e imersão do espectador na história.

O problema de Avatar começa com Shyamalan fazendo um filme infantil, praticamente traindo a autoridade que havia construído para si até aquele momento (2009-2010). Os filmes do cineasta eram adultos, artísticos no sentido que caracterizavam uma sincera expressão criada na mente de uma pessoa (nos termos de Frank Capra, era exatamente nisso que consiste um “filme de arte”, ou “cinema”). Criar um espetáculo infantil significa interromper esse caminho e trabalhar com linguagens completamente diversas das anteriores. O fator mais decisivo nessa diferença é a atmosfera, que em Último Mestre do Ar é leve, apesar das proporções épicas que o filme tenta atingir, e não consegue (O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupas por sua vez trabalha muito bem nisso, e citar Labirinto do Fauno é covardia).

Fora da densidade atmosférica, os diálogos tornam-se tolos e sem nenhuma razão, inexpressivos. Se em Fim dos Tempos Mark Whalberg e Zooey Deschanel são desumanizados para ressaltar a verdade de que eles só possuem emoções e sentimentos enquanto casal, compartilhando cada momento, aqui o negócio é apenas sem graça mesmo. A impressão que fica é que os atores não botaram fé no projeto, e leram em voz alta o que lhes foi delegado, sem necessariamente atuar. Sem a força dos atores, sem a força de um universo conciso para quem sabe justificar essa falta, o projeto de Shyamalan rui. O espectador simplesmente não compra a aventura que lhe está sendo contada.

Contudo, o projeto fraco é pontuado por diversos lapsos de criatividade cinematográfica. Os planos sequências são uma aposta arriscada, plasticamente bonitas, mas sem os cortes as lutas perdem emoção. Mas acompanhar Aang pelas lutas em grandes e fluidos planos é um artifício autoral, uma escolha quase filosófica, deixando o espectador a par exatamente dos mesmos elementos do personagem principal. As batalhas do filme são as batalhas do ponto de vista de Aang. Assim, o espectador também adormeceu por cem anos e precisa se adaptar aquele novo mundo, vivendo em guerra em perigo constante. A introdução a esse mundo pode parecer (e de fato é) didática, mas ao contrário de diversas coisas, é efeciente ao propósito do filme.

Portanto, Último Mestre de Ar é a descida mais íngrime na carreira de M. Night Shyamalan, um filme com mais erros que acertos e que certamente não desperta grande paixão. Não chega a ser ruim, a história original, se me perguntarem, também não é tão impressionante assim, preenchida por piadas sem graças a todo instante, algo eliminado corretamente pelo filme, mas definitivamente não reflete as melhores características do cineasta que ainda é uma das mentes mais criativas em atuação nos Estados Unidos.

2/5

Ficha técnica: O Último Mestre do Ar (The Last Airbender) – EUA, 2010. Dir.: M. Night Shyamalan. Elenco:  Noah Ringer, Dev Patel, Nicola Peltz, Jackson Rathbone, Shaun Toub, Aasi Mandvi, Cliff Curtis, Seychelle Gabriel, Damon Gupton, Summer Bishil.