– por Guilherme Bakunin

Em todos os filmes de Shyamalan, existe um elemento que é rigorosamente sempre presente: o medo como conteúdo simbólico. Ao pegar emprestado a definição de mcguffin, que Hitchcock utilizava principalmente para ora driblar a censura ora filmar não apenas o suspense, mas também o amor, a violência, o sexo e o medo, Shyalaman trás em O Sexto Sentido um conto de incomunicabilidade: temos Cole, interpretado por Joel Osment, e sua mãe, interpretada por Toni Collette. O divórcio dos pais e a morte da avó criam, dentro da fria casa onde boa parte do filme acontece, barreiras de intransponíveis desintimidade. Como elemento simbólico dessa falta de comunicação, os dois mundos – dos vivos e dos mortos, que existem simultaneamente, que reagem um com o outro, mas sem interagirem.

Cole é um garoto peculiar de sociabilidade desajustada que vive com a mãe, quando começa a uma espécie de acompanhamento terapêutico com o aclamado psicólogo infantil Malcom Crowe (Bruce Willis). A essa altura da pós-modernidade, todos nós sabemos que o personagem de Willis é um fantasma que estava morto o tempo todo e, embora essa seja uma parte realmente impressionante de O Sexto Sentido, pois, à época, o cinema mainstream americano não tinha nenhum outro artesão do suspense com o brilhantismo em misce-en-scène de Shyamalan, a história é, realmente, sobre outra coisa, e os equívocos que geralmente são atribuídos ao filme (“a primeira assistida é inevitavelmente a melhor”) são, geralmente, fruto da uma percepção inadequada que foi vastamente propagada por toda a carreira do diretor.

Enquanto melodrama fantástico, não é difícil viajar em O Sexto Sentido. Viventes dentro de uma casa, mãe e filho têm dificuldades em se relacionarem. Como maior obstáculo dessa relação, fantasmas – figuras invisíveis resultantes de acontecimentos do passado. A ausência do pai, as experiências relacionadas à morte – da avó – criam a frieza desse relacionamento. E embora haja nesses dois personagens o desejo de serem espontaneamente abertos um com o outro, os elementos traumáticos do passado (novamente ressaltando, simbolicamente representados por fantasmas), atuam para engatilhar a desarmonia e a incompreensão.

Na verdade, ao redor dessa madonna and child, esses fantasmas estão tão estabelecidos, que as chagas tornam-se físicas, e em Cole, a criança que recebeu o jugo de perpetuar os traumas da mãe, os dois mundos colidem em feridas e em responsabilidade. E ao longo da história, e através do personagem de Bruce Willis que, não por coincidência, também age motivado por traumas, Cole aprende a lidar com suas atribuições, e numa grande cena do filme, se abre com a mãe, encerrando o ciclo do seu personagem na história. A última vez que os dois aparecem, eles estão abraçados e aos prantos, em perfeita sintonia com o que estão realmente sentindo.

Do outro lado da moeda, há a saga silenciosa de Malcom em busca da reconciliação da sua esposa e, embora Shyalaman não se ateie ao óbvio para narrar essa parte do seu filme, é realmente interessante na primeira ou no máximo na segunda vez em que se o assiste, já que todo o propósito desse arco existe em volta do twist final. Mas é sempre importante tornar o mais claro possível que essa saga pessoal do personagem de Willis é infimamente menos substancial do que o triângulo relacional que ele constitui com os personagens de Collette e Osment, que é, sem a menor dúvida, a essência definitiva de O Sexto Sentido, e o germe de toda a capacidade melodramática que M. Night expandiria com maior magistralidade em seus próximos trabalhos.

4/5

Ficha técnica: O Sexto Sentido (The Sixth Sense) – EUA, 1999. Elenco: Toni Collette, Haley Joel Osment, Bruce Willis, Olivia Williams.