– por Guilherme Bakunin

Minha memória não é muito precisa em relação a Olhos Abertos. Peguei o filme simplesmente empolgado com a ideia de ver todos os – disponíveis – do Shyamalan, e certamente fiquei surpreso. Olhos Abertos não passa nem de perto pela abordagem de Sexto Sentido ou Corpo Fechado, filme onde os garotos desempenham um papel fundamental na trama; é um filme desajustado, infantil na maior parte do tempo, mas abordando a morte como seu motim principal.

E nesse dilema prático o filme se perde; acompanha a história de um menino chamado Joshua, que (em flashbacks) perde o avô e tem que lidar com esse vazio ao longo do ano em casa e no colégio católico que frequenta. Existe certa precisão pra segurar uma história como essa, que insiste em não se decidir entre o infantil e o maduro, mas as coisas não se sustentam por muito tempo. O personagem da criança, Joshua, passa por uma crise existencial precoce, mas está inserido num universo distante, dificilmente identificável. Ao pautar-se na ingenuidade e na maturidade, o filme monta acampamento numa nebulosa região entre essas duas coisas, e na medida em que Joshua, a criança índigo protagonista do filme embarca irrevogavelmente na sua jornada em busca da fé, mais claros se tornam essa deficiência de alvo da história.

Há quem compare essa adocicada abordagem sobre morte e fé com os trabalhos de otimismo de Frank Capra. Porém, apesar do alto caráter universal contido nos filmes do mais clássico dos cineastas americanos, eles são obviamente produtos embalados para o consumo de um público adulto, e a abordagem de fé e esperança nunca é tão cruamente doce a ponto de causar repulsão. No filme de Shyamalan, as coisas estão sempre a meio caminho, portanto as crianças falam como adultos de pouca eloquência, professando um discurso não apenas superficial e juvenil, mas irritantemente ingênuo, e insubstancialmente eficaz para completar o ciclo da história.

Talvez por ter esse recheio insuficiente, Shyamalan opta por um plot twist no final, o seu primeiro, revelando que uma misteriosa criança que rondava o colégio era, na verdade, a forma encarnada de um anjo. Só através de uma revelação tão carnal é que Joshua é capaz de se convencer da prevenção divina. Importante notar duas coisas, que se relacionam, inclusive, com Sinais: a primeira é que, ao contrário do filme de 2002, nesse, Shyamalan pesa no caráter proselitista, o que em si já descontribui pra universalidade de público que ele desejara; a segunda é que o convencimento de Joshua vem através de um aparato secular, físico, carnal, diferente da ambiguidade divina manifestada espiritualmente em Sinais. É um contraste importante, que diz muito sobre os defeitos de Olhos Abertos, mas diz muito mais sobre as virtudes do seu diretor, que foi capaz de amadurecer temática e cinematograficamente.

Foi o trabalho de estréia do Shyamalan, a gente não possui muitas informações sobre o filme. Sabemos que o roteiro é do próprio Shy, que o vendeu para a Miramax e com muito esforço conseguiu dirigi-lo; seis milhões foram gastos no filme e menos de dois foram faturados. O fracasso comercial em qualquer filme não justifica sua qualidade, mas é muito compreensível porque Olhos Abertos não encantou o público. Complicado falar de crise de fé em um filme infantil, complicado divulgar um filme em moldes infantis para adultos. A história nós já conhecemos: apesar do fracasso comercial, Shyamalan conseguiu emplacar seu próximo roteiro por dois milhões, que resultaria num filme que conquistou mais do que 600 milhões ao redor do mundo todo. Pouco a pouco a carreira comercial de Shyamalan iria entrar em declínio, mas resta saber se a qualidade autoral de seus filmes desapareceu junto com essa queda.

Observação: este post foi originalmente feito no começo do ano passado, e passou por uma revisão antes de ser repostado em ocasião do especial.

2/5

Ficha técnica: Olhos Abertos (Wide Awake) – EUA, 1998. Dir.: M. Night Shyamalan. Elenco: Joseph Cross, Timothy Reifsnyder, Dana Delany, Denis Leary, Robert Loggia, Rosie O’Donnell, Camryn Manheim, Julia Stiles.