– por Guilherme Bakunin

Michael Mann constantemente hesita entre o que há de mais frágil e brutal em seus heróis. Cercados por ameaças geralmente maiores do que o escopo de suas atribuições, há sempre um subterfúgio que envolve algo de delicado para livrar suas mentes dessas provocações. É a foto de uma casa que Max pode chamar de seu lar, o barco que Sonny Croccket vê Isabella partir, a canção “Bye, Bye, Blackbird” que Dillinger delegou para Billie. Em O Informante, Mann não lida com a temática que criou sua fama. Sem as armas e as sirenes, Mann lida com outro tipo de perigo: a conspiração, que por ser essencialmente imaginativa, constituí uma espécie de ameaça muito mais latente do que o perigo físico.

Apesar disso, os personagens e as situações de O Informante permanecem os mesmos com os quais Mann acostumou-se a retratar. São homens que têm de lidar com a responsabilidade da vida que escolheram, e precisam tomar a decisão entre proteger aqueles que estão ao redor ou proteger a si mesmos. Russel Crowe e Al Pacino estrelam a história baseada em fatos reais sobre um homem chamado Jeffrey Wigand (Crowe), recém-demitido do seu cargo de pesquisador da gigante do tabaco Brown & Williamson, que resolve ir à público para denunciar práticas escusas utilizadas pela empresa para tornar os cigarros mais atrativos.

Filmes baseados em histórias reais tendem a ser extremamente dramáticos, e lidam com a dicotomia entre lidar com seus personagens e cobrir todo o contexto no qual eles se inserem. Mann não segue essa lógica. O que interessa em O Informante é não é neutralizar o contexto que supostamente expõe (o caso Wigand vs. Brown & Williamson), mas penetrar nas idiossincrasias e aflições de seus personagens principais, revelando muito mais o mundo sob o ponto de vista desses personagens do que o mundo como ele realmente é.

É, antes de tudo, um filme de autor. O cinema autoral nunca foi a respeito da verdade, pois ela não existe absolutamente. O cinema autoral é muito mais a respeito de  um conjunto indecifrável de forças que são disparadas e que convergem em meio à trama narrativa, usada quase como um pretexto pra expor essa batalha de forças radicantes. Mann pessoalmente se aproximou de Lowell Bergman (interpretado, no filme, por Al Pacino), interessado em dramatizar a sua história, não sob o desejo de retratar os eventos da maneira como eles ocorreram, mas visionando um certo potencial: trabalhar com a relação das forças conspiracionistas que envolvem a história.

A ameaça que provém de todos os lados, e que mesmo após o seu fim, permanece misteriosa (as ameaças de morte sofrida por Wigand). Os segredos que estão capitalmente proibidos de serem compartilhados. A hesitação de Wigand em revelar a verdade (no sentido de ser a sua visão sobre os fatos) por apreço à sua família, e seu consequente sacrifício semi-messiânico. O abandono dos corporativistas, que chega para Bergman e Wigand como um baque tão feroz, que eles simplesmente desistem de lutar.

São esses os fatos que Mann se apropria para talhar sua poesia, através de um requinte técnico que ele dificilmente superou, uma união entre luzes, ângulos, cortes e música tão sublime que é capaz de deixar o mais estilístico dos cineastas com os olhos brilhando e os cabelos arrepiados. O Informante é um filme sobre luta. Sobre luta e desistência. Sobre a perda da capacidade de continuar.

5/5

Ficha técnica: O Informante (The Insider) – EUA, 1999). Dir.: Michael Mann. Elenco: Al Pacino, Russel Crowe, Christopher Plummer, Philip Baker Hall, Diane Venora, Lindsay Crouse, Nick Nolte.