por Bernardo Brum

Duas pessoas conversando ao redor de uma mesa. Será assim o prelúdio de grande parte das cenas-chave de Pulp Fiction, o filme de Tarantino que tornou conceitos herméticos e temas marginais em um marco da cultura popular. Os tempos são outros – sai a estrutura de enredo dos clássicos filmes de crime, sai o “romance de formação” de O Poderoso Chefão, e restam apenas os personagens medíocres.

Assim como os personagens que abriga, a Los Angeles de Pulp Fiction é um mundo violento e cínico, demente e amoral. Não há uma “ordem das coisas”, nenhum objetivo maior ou tópico de maior importância. Logo, é um mundo insignificante, também. Entre uma conversa de mesa e outra, eles explodem os miolos uns dos outros, roubam, matam, injetam drogas pesadas e encaram experiências das mais pervertidas… E continuam, ainda assim, encarando tudo  como algo menor. É um mundo onde relações pessoais íntimas não se concretizam – mas relações de poder, de comércio e de hostilidade ocorrem o tempo todo.

Pulp Fiction pode ser considerado o primeiro “filme de convergência” dos anos noventa, que mesclavam os elementos estético-narrativos “sofisticados” já experimentados pelo cinema – a cronologia desmontada, o protagonismo descentralizado, a falta de interesse em um encadeamento dramático crescente, a quebra da quarta parede – e a intertextualidade com todo o cinema de gênero e os exploitations produzido desde o final dos anos cinqüenta.

Tal intertextualidade abre precedente para toda a violência demencial do filme: uma obra praticamente escatológica, com estupro, bondage, cabeças estouradas e overdoses de heroína preenchendo grande parte das cenas mais importantes do filme. Tal cruza também seria aperfeiçoada por gente como seus contemporâneos, os irmãos Coen, e alguns dos discípulos confessos, como os ingleses Guy Ritchie e Edgar Wright.

Filmado com um tipo de filme lento, que privilegiava a nitidez da imagem para fazer um pastiche do Technicolor cinqüentista, Tarantino fez um filme com muita pouca vocação realista. Luzes e cores fortes, berrantes, ocres e podres explodem aos olhos em Pulp Fiction, uma obra que joga com as expectativas do espectador o tempo todo, em uma brincadeira entre um realismo composto e uma estilização exagerada que jamais se aproxima, digamos assim, do “realismo”.

Desde gracejos mais explícitos (como Mia Wallace desenhando um “quadrado” que se materializa no ar) aos mais intricados – a própria estrutura temporal desorganizada e cenas como Vincent Vega salvando a protegida da máfia Mia Wallace de uma overdose (numa cena que começa com câmeras trepidantes, falsamente documentais, e acaba evoluindo para um jogo de closes, focos seletivos e planos detalhes que evocam o melhor do cinema italiano fantástico de Lucio Fulci e Dario Argento quando Mia, após uma injeção de adrenalina, “volta dos mortos” feito uma zumbi), Pulp Fiction, atrás de todos os seus diálogos hilariamente imbecis e situações tétricas, repulsivas e inacreditáveis, reflete todo o imaginário de uma cultura. Não procura jamais representá-la ou sintetizá-la, mas investigar, ao longo de duas horas e meia, o fetiche do espectador de participar de uma ilusão violenta conflitando com todo o tédio por trás de toda a atividade existente.

Embalado pelo melhor do soul, rock e pop que Tarantino cresceu ouvindo, a música jamais procura contextualizar o espectador em determinada época – ouve-se de Chuck Berry a Urge Overkill, passando por Dusty Springfield e Kool & The Gang. Muito mais do que pontuar, serve para erigir o universo de temas mundanos entremeados com situações tristemente reais. Assim como todo o cinema que se propôs contra-cultural desde Cidadão Kane, a tendência é buscar o íntimo de personagens absolutamente distantes de nós – como assassinos, traficantes, pugilistas comprados, chefões do crime organizado… Tanto a música quanto os diálogos refletem os idílios de uma geração que já não é feita mais de boba por nenhuma utopia.

Afinal, não dá para esquecer, essa foi a década da contemplação, do “slackerism”, da preguiça. Seus personagens vêem o tempo passar, mas não querem, de forma alguma, deixar descendência para o mundo: ter filhos, constituir família ou qualquer coisa que possa significar continuidade não interessa para os degenerados grotescos de Pulp Fiction, que um a um, serão todos desnudados – Vincent e Jules logo perdem as roupas que permitiam eles serem assassinos profissionais (como diz Jules para Vincent antes de entrarem na casa dos traficantes que pretendem matar, “vamos entrar no personagem”) para roupas típicas de um americano conformado e imbecilizado e Marsellus vira vítima de estupro por dois pervertidos viciados em bondage. Profunda provocação de Tarantino com o próprio establishment do cinema criminoso – um homem imenso, do tamanho de um armário, que fazia as vezes no filme para veteranos como Tony Camonte ou Don Vito Corleone, é violado pelo ânus sem dó nem piedade.

Se é um cinema que sabe-se cinema, sempre fazendo questão de quebrar a diegese para lembrar que tudo aquilo ali ainda é ilusão, também é um cinema desmistificado, que sabe que os rompantes de violência entremeiam-se com profundos momentos de tédio. O que, aliás, havia sido explorado incansavelmente por Scorsese, Abel Ferrara e Takeshi Kitano: é um mundo hostil e também bastante sonolento. Você nunca está preparado o suficiente, e mesmo assim, seu espírito nunca encontrará o descanso que merece. Não há cena que talvez descreva isso melhor que o hilário momento onde, após Jules passar em cima de um quebra-mola, Vincent acidentalmente dispara contra o rosto de um refém que fizeram – apesar da violência bizarra da cena, a reação dos personagens é apática: Vincent limpa o rosto e reclama de forma casual, como se ketchup tivesse caído em sua camisa; mesmo o irritado Jules não faz muito caso de ter o carro todo manchado de sangue em plena luz do dia -apesar de comentar o fato, continua dirigindo dentro do limite de velocidade.

A longa galeria de personagens pouco usuais que Tarantino cria e as relações estabelecidas entre eles serve para suprimir o caráter de imitação para partir para a idéia de representação cartunesca. Uma vez que cinematografias diferentes atingem todos os personagens centrais – a maioria perambula tanto por tardes ensolaradas, quanto porões malignos, boates nostálgicas, casas suburbanas e outros tipos de ambientes, todos são ambíguos, todos tem desejos (apesar de nunca procurarem realizá-los) e todos tentam sobreviver ao mundo violento e imprevisível.

Da atitude cool e indiferente de Vincent Vega, The Wolf e Mia Wallace, aos explosivos Marsellus e Jules passando pelo durão pugilista de segunda categoria Butch, a galeria orquestrada por Tarantino com uma longa escola por trás (Bullitt, Shaft, Dirty Harry…) dificilmente é harmônica; entra em choque o tempo todo entre si, em um ciclo de acontecimentos que variam o ponto de vista de histórias levemente entrelaçadas (cada personagem, ou dupla deles, é protagonista de um episódio determinado) e só conseguem chegar a um denominador comum por pura negociação.

Quando Vincent compra heroína do seu traficante e eles jamais exibem qualquer tipo de afeto (como se fosse a mais básica e fria relação  “comerciante x consumidor”), ele sintetiza todo o filme. Ele e Jules são apenas parceiros de negócios. The Wolf é apenas um operário da indústria do crime, excelente no que faz. Vincent é apenas o acompanhante de Mia, mesmo com a tensão sexual existente. Marsellus, um chefe. Butch, outro operário, a mando de Marsellus, que ao salvar a vida do chefão, acaba conseguindo um precedente para não ser lesado e ir embora, desde que a história do estupro seja esquecida.

De certa forma, Pulp Fiction representa, nos anos 90, o momento em que uma determinada mentalidade econômica alcança o íntimo das pessoas. No mundo sem moral e sem lei onde vivem, onde você pode sofrer overdoses, ser vítima de estupro ou ainda assim ser salvo por acidente, a única garantia parece ser o dinheiro, o poder e a influência. É um mundo de máscaras, das quais os personagens correm o tempo todo, mas constantemente jogam um teatro frio, distante e impessoal. A tensão sexual entre Mia e Vincent representa bem isso: se Vincent dormir com a mulher do chefe, ele não apenas perde o emprego – também é morto. Não há moral concreta e absoluta em Pulp Fiction. Tudo é relativo, subjetivo, não há uma lei maior regendo – só a lei dos homens: o dinheiro.

A violência dos filmes de Tarantino seria, então, gratuita? Sim, mas não no sentido dramático, mas sim contextual. Os tiroteios, cortes de espada, injeções de adrenalina, evocam samurais, matadores e monstros de outras eras para simbolizar um mundo que, então, perdera seu norte específico e agora tentava se encontrar – caía o muro de Berlim, acabavam os protestos sociais, guerras desnecessárias e belicistas eram travadas. Esse mundo pirado, entediado, truculento e desmotivado dá a tônica de personagens que não ligam muito para situações de vida ou morte: amanhã será outro dia, ainda mais chato do que esse. Mesmo Jules, que acredita ter sido salvo por um milagre, ainda repete citações da bíblia mesmo sem entendê-las, dá as costas para uma cena absurda e sai andando tranquilamente.

O cotidiano diegético improvável de Tarantino – banhado pelo pop, arrombado pela subcultura – acabou sendo, no final das contas, o símbolo de uma geração. Sua repercussão inimaginável para um filme tão controverso e com uma longa duração (duas horas e meia) refletiu todo o senso de humor escroto e imbecil e todos os anseios patéticos e muito sérios de jovens que viam nos berros despinguelados sobre alegorias sem sentido específico e nos acordes barulhentos de Kurt Cobain todo o sentido do mundo. Pulp Fiction é uma obra sobre o vazio de vidas levadas ao cinema, encarnadas em estereótipos improváveis, habitando cenários malucos e distorcidos, iluminados de formas exageradas e grotescas.

É nesse universo puramente cinematográfico que Tarantino repensou, junto com sua geração, que valores deveriam ser criticados, atacados ou refletidos e exaltados. Filmes exagerados para mentes anabolizadas e amortecidas pelo exagero televisivo, propagandista e mercadológico. Pulp Fiction, Cães de Aluguel, Fargo, O Grande Lebowski, Coração Selvagem; nesses pastiches paródicos de cinema de gênero que citavam a deus e o mundo para erguer em nossos imaginários filmes cacofônicos que refletissem uma moral igualmente subjetiva e fragmentada, as muitas vozes de Pulp Fiction ecoam em matéria de estilo e dramaturgia até os dias de hoje, de forma mais aceita, pela grande massa, do que nos filmes que buscaram inspiração.

Essa geração de cineastas não revolucionou propriamente o cinema em si – mas buscaram na marginália e na vanguarda formas de pensar e projetar os filmes para o futuro, nunca fazendo-o de forma fácil, mas sim questionando, referenciando, lembrando. Pulp Fiction, o filme mais influente dos anos noventa, é um compêndio e um pensamento sobre toda uma mentalidade – e ainda – julgando as melhores produções “de gênero” lançadas na última década – bastante relevante para pensar grande parte das questões estéticas de todos esses últimos anos desde o seu lançamento.

5/5

Ficha técnica: Pulp Fiction – Tempo de Violência (Pulp Fiction) – EUA, 1994. Dir.: Quentin Tarantino. Elenco: Eric Stoltz, Bruce Willis, Uma Thurman, Ving Rhames, Harvey Keitel, John Travolta, Samuel L. Jackson, Rosanna Arquette, Quentin Tarantino, Amanda Plummer, Maria de Medeiros, Phil LaMarr.