por Bernardo Brum

Miami Vice lembrou para os anos 2000 do que, afinal, eram feitos os filmes de crime em sua essência. O reboot de Mann da série de televisão oitentista (da qual havia sido produtor executivo) novamente colocou em evidência os pequenos momentos – as relações difíceis e tempestuosas, o amor impossível e as pessoas sensíveis demais para um mundo tão hostil e impiedoso. O mundo, o sistema, os interesses econômicos estão sempre, infelizmente, acima dos meros indivíduos.

Sonny Crockett e Rico Tubbs encarnam nada mais que o estereótipo do estereótipo do estereótipo. Homens casca-grossa, porém frágeis por dentro, experienciam dramas profundamente pessoais quando têm de entrarem no mundo crime infiltrados para tentarem desmontar um poderoso cartel de tráfico de drogas, armas e tecnologia.

Esses dois personagens sem muito passado para contar – basicamente só levam aquelas vidas perigosas trabalhando como policiais – até o fim do filme sofrerão o inferno a troco de nada. A agente de polícia namorada de Tubbs fica entre a vida e a morte após confusão com negociantes. Crockett apaixona-se e é correspondido pela bela asiática Isabella, conselheira de finanças do chefão do tráfico Arcangel de Jesús Montoya. Relação essa que, uma vez baseada em uma mentira, é inevitavelmente fadada ao fracasso.

Os dois acabam, no final das contas, sendo símbolo de uma terra que destrói o que é estável e impede o novo de florescer. Em sua estilização tão bela e trágica feita em cima da cenografia e figurino referenciais e propositalmente cafonas,  Miami Vice é um campo de batalha à lá Fuller: amor, suspeita, lealdade e brutalidade irão entrar em choque e serão questionados a todo o momento. Nessa longa estrada de amargos sobreviventes que protagonizam os filmes policiais, Sonny e Rico juntam-se ao clube daqueles que sabem que, no meio em que vivem, se algo pode terminar mal, terminará pior.

Não há a dor da perda propriamente dita ao final da obra; há um final suspenso, de significado esvaziado, onde paira nada além de dúvida sobre o futuro. E como se sabe desde a época de obras como No Silêncio da Noite, não há nada mais devastador que a dúvida e a incerteza. Como conseguir viver em um mundo que já é difícil de sobreviver?

Exprimindo as linhas de força do cinema narrativo, Mann revela que o que interessa em Miami Vice é menos algo como “trama” e “enredo” e sim o que é íntimo, pessoal: o sexo apaixonado, o banho em companhia, as danças, as caminhadas: são os momentos chaves do filme. Onde os personagens irão se confessar, onde suas angústias serão exibidas, onde tentarão esquecer de seus problemas – apenas para, nas cenas seguintes, novamente lançarem-se em maratona desesperada pelos cenários imensos e quilométricos em busca de uma missão que irá apenas destruir suas vidas.

Mas como a longa galeria dos anti-heróis do cinema policial, eles seguirão em frente, simplesmente porque ninguém mais se candidata. Difíceis de se identificar com, fáceis de se admirar pela nobreza impetuosa mesmo que ambígua e subjetiva (nem passa pela cabeça de Crockett prender a mulher por quem é apaixonado – mesmo ela sendo peça-chave de um negócio ilegal de influência mundial), a dupla de policiais saíram da televisão e foram parar na tela grande para terem seus infernos particulares expostos com uma força que só o cinema de Mann tem, em sua obra definitiva.

Tão atual quanto antiquado, a passionalidade  brutal do diretor explode em tela, não em um banho de sangue e lágrimas como muitas sequências podem dar a entender. Mas sim, como mostra o seu final, em um oceano de dúvida e angústia. Mas no qual eles se lançarão bravamente com suas lanchas turbinadas. O por quê? Talvez nem eles saibam. Talvez sejam tão admiráveis assim porque, depois de tudo, ainda são idealistas. Uma dupla de policiais contra um cartel inteiro? Impossível, diriam todos. Mas para os trágicos Crockett e Tubbs alguém tem que dar um murro na ponta da faca. Mesmo que nunca cheguem a lugar nenhum. Mesmo que percam tudo.

Cinema, depois de tudo, representado em seus melhores personagens, mesmo nos cretinos, é isso: um ato de resistência. E Miami Vice é mais um desses capítulos sobre aqueles que se recusam a serem engolidos pela corrupção, pela sujeira, pelo errado. O triste idealismo realista que só os artistas têm, depois de tudo.

4/5

Ficha técnica: Miami Vice (Idem) – EUA/Alemanha, 2006). Dir.: Michael Mann. Elenco: Naomie Harris, Colin Farrell, Jamie Foxx, Justin Theroux, Li Gong, Luis Tosar, John Ortiz, Isaach De Bankolé, Ana Cristina De Oliveira, Ilan Krigsfeld, Chris Astoyan, Elizabeth Rodriguez