– por Guilherme Bakunin

No terceiro ato de Albert Nobbs, drama de época inglês passado no século XIX, Albert, interpretado por Glenn Close, e Hubert, interpretado por  Janet McTerr, colocam vestidos e saem para caminhar na praia. As imagens dessas duas mulheres, que passaram boa parte de suas vidas travestidas de homens, causa um estranhamento tão desconfortável ao ponto der imprescindível se questionar a respeito de quem elas realmente são. A essência de Albert Nobbs, dessa forma, é definida pela luta de Rodrigo Garcia, o diretor, em penetrar na mente e corpo de seu personagem-título e decifrar suas personalidade. O problema é que esse personagem viveu tanto tempo preso numa personalidade fictícia, que esqueceu-se de quem era.

Não é exatamente uma motivação sexual que inspira a travestida de Albert Nobbs. Isso, o filme é capaz de estabelecer. Porém, Garcia não consegue ir muito além daí. É completamente desconhecido para Nobbs, tanto quanto para o espectador, quem ele realmente é. Ele apenas aprendeu, durante toda a vida, a ser rígido e firme em seu disfarce, negligenciando qualquer forma natural, por assim dizer, de existência.

Mas Nobbs junta dinheiro, religiosamente, para começar seu próprio negócio. Isso, ele conseguiu estabelecer. Provavelmente porque era o esperado – homens criam seu próprio negócio, constroem algo para si mesmo. A busca por esse sonho é tudo que Albert possui, e nele, Albert deposita todas a sua paixão e esperança. Em todos os outros aspectos de sua vida (ao menos a vida que nos é permitida conhecer), ele frio, duro, impessoal, sem companhias, como uma máquina. Apenas quando ele conhece Hubert, uma mulher que vive sob as mesmas condições que as suas (embora, sem ficar muito claro, o filme faça forte sugestão que Hubert seja realmente lésbica), é que Albert dá algum tipo de abertura e, aí sim, detalhes sobre sua intimidade são, escassamente, revelados.

É Hubert que sugere a Albert encontrar uma mulher para se casar. Albert então é tomado por um desejo de cortejar uma das empregadas da pousada onde trabalha como garçom, Helen (Mia Wasikowska), com uma inocência ao mesmo tempo patética e adorável, e muito provavelmente sem que ele saiba, com desejos estritamente platônicos.

É com essa postura que Albert Nobbs segue pela vida: recalcada e reservada, esperando pacientemente que lhe esclareçam o que lhe é esperado fazer para, só então, fazer. É uma vida miserável, e Garcia (que vem da televisão, dirigiu episódios para Família Sopranos, À Sete Palmos e criou o drama-pesado In Treatment) certamente tem o olhar paciente o bastante para temperar a história dessa trágica figura.

Toda a exímia experiência que Garcia adquiriu, no entanto, sempre envolveu histórias episódicas, que permitem a construção de personagens numa dinâmica de fragmentação – a estética que Família Sopranos ajudou a definir, que Humberto Eco já havia teorizado, de que a partir de pequenas partes, o roteirista/diretor constroem o todo. É uma dinâmica de catarse e intimidade. A objetividade de um Hitchcock, por exemplo, é, em teoria, menos intensa do que a fragmentação de Família Sopranos ou In Treatment, que permite maior facetação e incoerência na construção de personagens (humanidade, portanto, já que não somos serem unimotivacionais e coerentes).

Albert Nobbs, no entanto, é um filme. É um filme de duas horas que são, inclusive, dispersamente mal aproveitadas (muitas subtramas e lentidão narrativa). Nobbs termina o filme sem fazer a menor ideia de quem ele (ela) realmente é. Nós também. Sem reconhecer o personagem principal, não podemos nos identificar com ele. Sem projeção-identificação, o relacionamento que se tem com o filme é distante, negligencial. É duro passar pelas duas horas, com essas personagens de corpos definidos, mas de intimidade desconhecida.

O filme não é, infelizmente, capaz de gerar qualquer interesse a não ser pela curiosidade inicial. A partir daí, pode-se refletir em relações – o descaso com o filme é o descaso com o personagem principal, que é negligenciado pelos demais personagens da história; ou o desinteresse e incompreensão que o espectador possui pela trama são os mesmos que Nobbs possui pela vida, etc. Mas nada disso é bem verdade, e nada justificaria muito bem o filme, que não funciona.

2/5

Ficha Técnica: Albert Nobbs, EUA, Reino Unido, Irlanda, 2011. Direção: Rodrigo Garcia. Elenco: Glen Close, Janet McTerr, Antonia Campbell-Hughes, Mia Wasikowska, Pauline Collins, Maria Doyle Kennedy, Mark Williams, James Greene, Serena Brabazon, Michael McEllhatton, Brendan Gleeson.