– por Guilherme Bakunin

Margin Call pondera a respeito do que teria sido o passo em direção ao abismo da crise econômica de 2008 através de uma narrativa minimalista que toma curso num período de 24 horas numa empresa de investimentos-ou-qualquer-coisa-assim. É de fato um filme pouco convencional, segue pacientemente o curso das tomadas de decisições faustianas dos high-profiles executives de alguma companhia de Wall Street. O principal delas parece ser: abrir mão de toda a fortuna pessoal, declarando a falência da empresa, ou vender todas as ações antes que a bolsa de valores possa especular a inexorável desvalorização da companhia, causando um desastre econômico sem precedentes.

J.C. Chandor, em seu debut, não menospreza a inteligência do espectador ao simplificar a conversa sobre economia. A questão é: entender sobre economia não é pre-requisito pra inteligência, e se você não entende, aí é só uma questão de quanto tempo de filme você é capaz de suportar sem fazer a menor ideia do que está causando todos os conflitos.

Contudo, há gratificações para os que conseguirem passar da metade: o filme acaba sendo mais sobre os personagens responsáveis pela crise do que pela crise em si. Que as bolsas estão sinistras, todo mundo sabe, e Margin Call não parece interessado no explanar dos porquês (apesar de gastar um tempo considerável fingindo o fazer). O roteiro de Chandor parece ter uma urgência em decifrar as personalidades que foram capazes de tomar a decição que tomaram, e não consegue, obviamente. Não poderia: na mesma medida em que o roteiro tem o desejo de decrifar os personagens, também os investe de individualidade e humanidade. São pessoas, afinal, religiosamente gananciosas e fatalmente humanas.

Há uma questão de marginalidade explícita também: o filme trata de pessoas que são, de certa forma, marginais. A sociedade não é, obviamente, formada pelos 1%. Não são pessoas necessitadas, mas também não são comuns (alguns estão no caminho para não serem, é bem verdade, como o personagem de Zachary Quinto). Se auto exilaram da vida ordinária e ocupam suas próprias e intransponíveis fronteiras – a do dinheiro, do status social, etc. Mas a margem do título parece ser outra. É uma linha, um limite, de ordem não social, mas ética. Num dos últimos momentos de Margin Call, o personagem de Jeremy Irons profere um discurso niilista refutando a concepção do personagem de Kevin Spacey de que a decisão tomada por eles foi errada ou inapropriada. É um discurso eloquente, que convence ao mesmo tempo que delineia a referida linha ética que o filme parece traçar: ironicamente, após o discurso do Irons, a amoralidade das ações dos personagens fica mais evidente.

Essas ações alcançaram essa linha. O filme ao menos parece trepidar junto com esse conflito moral (os personagens estão reflexivos ao mesmo tempo que descrentes, praticamente desde o começo). Não fica muito claro, porém, em qual dos dois lados ela ficou – do correto ou do inescrupuloso, por exemplo. Mas com certeza ela terminou perigosamente perto demais.

3/5

Ficha técnica: Margin Call – O Dia Antes do Fim (Margin Call) – EUA, 2011. Dir.: J.C. Chandor. Elenco:  Kevin Spacey, Jeremy Irons, Zachary Quinto, Paul Bettany, Stanley Tucci, Penn Badgley, Simon Baker, Demi Moore.