– por Allan Kardec Pereira

Em Shotgun Stories, o primeiro filme do ótimo diretor Jeff Nichols, que antecede a esse Take Shelter, a tragédia familiar era algo iminente desde as primeiras cenas. O diretor, filma as ações de forma calma, serena no início. A trama se desenvolve e os eventos que seguem põe em perigo a base familiar tão importante para essa “América Profunda” de que seus dois filmes tratam. Take Shelter, que não se engane, é um legítimo fruto da paranoia pós-11 de Setembro. Misto de Bug, do Friedkin (e a insanidade do  personagem de Michael Shannon aproxima ainda mais os dois filmes) e The Happening, o poético filme-catástrofe de Shyamalan, o filme de Jeff Nichols se consolida como um dos grandes filmes do cinema recente a trabalhar as liames de temas fundamentais da sociedade atual: crença, o medo e a loucura frente um cenário apocalíptico.

Michael Shannon é Curtis, um sulista, operário exemplar, pai de Hannah, uma filha com problemas auditivos e de uma esposa que o ama, a bela Samantha (Jessica Chastain em um papel que lembra bastante o seu em “Árvore da Vida”. Ele passa a ser atormentado por pesadelos com tons proféticos de morte e destruição, de que uma tempestade de proporções bíblicas estivesse prestes a tomar o mundo, sensação que só ele tem e que provoca distanciamento crescente da sua família e dos membros de sua comunidade.

Entretanto, o brilhantismo da narrativa é, justamente, ir à contrapelo dos ocorridos habituais no cinema-catástrofe. O próprio Curtis é quem primeiro vai questionar sua sanidade perante o ocorrido (até porque, havia uma histórico de esquizofrenia na familia), sem, contudo, deixar de agir. De proteger à sua célula familiar, que era a grande atingida nos pesadelos que frequentemente ele passou a ter. Tal como diz o título do filme, ele procura abrigo. Diante disso, então, há um afastamento do filme para com o público. A  crença, tal qual é forte no cinema de Shyamalan, é necessária de nossa parte para que possamos acreditar que Curtis não é um “falso profeta”.

Nesse processo de crer ou não que Curtis é louco, ou que a catástrofe virá, o filme enfoca o medo. Não à toa, logo no início, parece ser o companheiro de trabalho Dewart (Shea Whigham), quem faz elogios à estabilidade da vida em família de Curtis. O episódio é fundante, na medida em que os proféticos pesadelos do protagonista justificarão um medo absoluto, e aparentemente injustificável, de que esta vida seja desfeita. É quase uma paranoia como a comunista nos tempos da Guerra Fria. Entretanto, a proximidade é mais com “Fim dos Tempos”, onde o desiquilíbrio da natureza ameaça a vida dos homens.

Entretanto, é com o final (os últimos 30 minutos do filme são espetacularmente tensos e imersivos) que o filme opera uma disfunção narrativa interessante. Negando à espetacularização do agora presente apocalipse (o vemos apenas no reflexo de um espelho). Interessa agora, somente que sua esposa Samantha e sua filha Hannah também o vejam. Em uma cena de imagens poderosas acerca da união famíliar . O último abrigo parece ser a confiança da família.

5/5

Ficha Técnica: O Abrigo (Take Shelter), Estados Unidos, 2011. Direção: Jeff Nichols. Elenco: Michael Shannon, Jessica Chastain, Tova Stewart, Shea Whigham, Katy Mixon, Natasha Randall.