– por Guilherme Bakunin

O Homem que Mudou o Jogo toca em questões delicadas a respeito do esporte, e parece proselitisar a respeito de uma superioridade palpável no esquema gerencial de Billy Beane (interpretado por Brad Pitt). O esquema per se não importa de verdade, valendo mencionar apenas que é gerado por computador e baseado em estáticas afim de burlar os favoritos e abocanhar bons jogadores a preços risivelmente baixos. À comparação com o futebol, seria como se um banco de dados atestasse a garantia de que um jogador de passa muito tempo com a bola nos pés é mais valioso do que um jogador de marca muitos gols.

Apesar da gerência de Beane na liga de 2002 ter se provado efetiva, ela também se mostra desumana. Se no jogo há a paixão, capaz de turbinar as limitações do próprio atleta (há, afinal, O Triunfo da Vontade, que embora glorifique mais o povo ariano do que a figura do esportista, é um bom exemplo a ser levado em consideração), há os olheiros, responsáveis por fisgar esses jogadores antes que eles despontem, usando muitas vezes a própria intuição. A paixão e a intuição. Dois aspectos humanos, mais do que isso aliás, dois aspectos românticos que o filme definitivamente tenta desmitificar.

Essa questão acaba repercutindo no principal problema de O Homem que Mudou o Jogo. Semelhantemente ao esquema de Beane, o filme é por diversas ocasiões automático, como que gerado por máquinas. Seus personagens falam e se relacionam com a mesma incomunicabilidade de uma calculadora e um fogão. É, afinal, A Rede Social dos filmes de baseball: personagens que rompem talentosamente com um determinado status quo, mas que falham em ter o controle sobre suas próprias vidas.

Nesse sentido, Bennet Miller (cujo debut foi Capote, em 2006) pode não ter sido a melhor escolha para estar a frente desse projeto. Se David Fincher é eloquente o bastante pra extrair poesia das talking heads de A Rede Social, Miller parece olhar pra sua história como um amontoado de nomes e números e fatos. Embora haja uma grande vontade em tornar o personagem de Pitt humano, relacionando suas conquistas dentro da gerência do Oakland A’s com seu relacionamento familiar e seu passado de falhas (Billy Beane foi durante algum tempo um jogador de baseball tido como promessa por olheiros, mas que fracassou), durante muitas cenas ele é apenas um personagem frio com sede por vitória.

Uma abordagem mais interessante talvez fosse demarcar mais algo que possui apenas levas tracejados durante o filme: Miller esboça os jogadores do time como párias do universo do beiseball, como se eles fossem marginais renegados de suas próprias sociedades. Existe algo de Nicholas Ray nas cenas em que somos levados a percorrer os salões de treinamento do Oakland A’s, olhando para homens gordos, mancos e tortos. Diante dessa visão, podemos pensar que esse grupo está fadado ao fracasso. Eles mesmo parecem pensar assim. É preciso que o personagem de Pitt entre no vestiário e seja ríspido, firme, mas compreensível: eles não valhem muito enquanto indivíduos, mas serão insuperáveis como um grupo.

Uma mensagem não muito humana ou otimista, vale dizer, mas que vai, por outro lado, na contra-mão  do que se costuma fazer com filmes de esporte: criar heróis. Não há um homem que muda o jogo em Moneyball, há um grupo que consegue subverter uma expectativa. Um grupo sob a gerência de um homem, claro, mas ainda assim, um coletivo.

Miller, portanto, não tem o olhar mais confiante sobre sua história, e isso sem dúvida prejudica o resultado final. Mas é, afinal, uma história escrita por Aaron Sorkin e Steven Zaillian, dois dos grandes roteiristas e escritores de diálogos que hollywood tem à disposição nesse momento. É o suficiente pra atiçar a curiosidade, e Miller pelo menos deixa as coisas simples e corretas o bastante pra fazer deste um bom filme.

3/5

Ficha técnica: O Homem que Mudou o Jogo (Moneyball) – EUA, 2011. Dir.: Bennett Miller. Elenco:  Brad Pitt, Jonah Hill, Philip Seymour Hoffman, Robin Wright, Chris Pratt, Stephen Bishop, Tommy Blanchard, Nick Porazzo, Spike Jonze.