– por Michael Barbosa

É curioso pensar que no mesmo 2011 em que Jafar Panahi lançou This Is Not a Film diretamente da sua prisão domiciliar por crimes políticos, filmando clandestinamente em seu apartamento por ter sido proibido de fazê-lo pelo governo iraniano e sua censura, Asghar Farhadi nos entregue um filme como A Separação, corajoso, escrito com primazia e que amarra o espectador num híbrido absolutamente único de drama familiar e filme de crime.

A história começa da premissa de uma separação conjugal num Estado fundamentalista islâmico como o Irã; Simin quer sair do país, o marido Nader diz que não pode, o pai é doente, tem alzheimer, se é assim ela quer o divórcio, mas tem a filha dos dois e a lei patriarcal que não a deixa partir, ai tem a câmera no lugar do juiz, ela argumentando, ele onisciente da lei machista, ainda que meio constrangido com estar se valendo dela, ele é um bom homem, ela quer o melhor pra família, é complicado, se posicionar é um desafio desde o princípio. Só que essa separação do título logo se revela uma das duas facetas do filme, na outra temos Nader sendo acusado de homicídio por causa do aborto da mulher que trabalhava cuidando de seu pai e o desenrolar sufocante do caso. E é assim, com essas duas frentes sendo tocadas e se misturando o tempo todo, que Farhadi conduz A Separação.

Nisso a narrativa se desenrola de forma a nos tornar privilegiados espectadores ocultos do desmoronamento daquela família de classe média e do caso criminal que a envolve. Acabamos mergulhados nos meandros jurídicos do Irã, num desses sistemas em que a burocracia e os trâmites da lei vão causando uma sensação de claustrofobia, é Kafka, descarado, O Processo.

Enquanto isso o nosso protagonista, Nader, é construído com cuidado, somos condicionados a priori a simpatizar por ele, afinal ele é um sujeito decente, é islâmico e pai de família sem ser misógino e extremista, como manda o nosso clichezão ocidental, mas a trama nos entrega aos poucos seus erros e mentiras e com maestria acabamos por nos ver imersos numa relação relativamente conflituosa de torcer por ele e achá-lo um filho da puta vez ou outra. E de certa forma o mesmo se aplica a Simin, à vítima de aborto Razieh e ao seu marido explosivo; são personagens bons porque são críveis, têm nuances e humanidade, é possível odiá-los e respeitá-los, simultaneamente, igual é com as pessoas ao nosso redor. Não há vilão. Farhardi faz um legítimo esforço para evitar maniqueísmos e bravamente consegue.

Farhardi ainda tem suas artimanhas, se vale de Nader saber ou não que Razieh estava grávida quando do incidente que impulsiona a trama para em última instância garantir que tem o suficiente para prender a atenção até do menos atento dos espectadores. E não foge também do lugar óbvio a se tratar num filme passado no Irã, a religião, é o islã, a religiosidade e incapacidade de mentir sob o Corão que a certa altura permitem a catarse do filme e seu clímax, é o medo de Alá – ou talvez o próprio Deus – entrando como uma personagem da trama, força propulsora do agir das personagens, de diálogo em diálogo ouvimos “Alá” e ele ou a crença nele influenciam diretamente no desenvolver da história.

E se a crítica social é menos clara do que poderia é por questões legais, da dificuldade em se lançar um filme como esse no Irã, mas está tudo ali, pode procurar: é religião, justiça, família e política, tudo na história dessas personagens tão boas e tão bem interpretadas.

Por fim temos a filha do casal principal, entregue nisso tudo, que chora a lágrima mais sincera do filme e é a maior afetada por tudo isso, e que no fim haverá o poder de decidir com quem ficar. A gente não sabe, não podemos saber, Farhardi deixa as respostas para gente, os julgamentos, se assim quisermos que sejam feitos por nós, assumindo essa responsabilidade, a câmera estava parada na primeira cena quando conhecemos Simin e Nader e pouco se mexe na última, analítica apenas, quando nos despedimos deles, a mensagem é óbvia, a história é contada e só, a análise é nossa. A Separação é intenso à medida que é humano. E a verossimilhança que não é obrigação alguma aqui é um trunfo, porque a gente acredita naquilo tudo mesmo, soa razoável sem soar burocrático. E o Irã é isso ai, essa meca oriental do cinema contemporâneo, apesar de tudo. Um Filmaço.

5/5

Ficha Técnica: A Separação (جدایی نادر از سیمین) Irã, 2011. Direção: Asghar Farhadi. Elenco: Sabrina Fahardi, Leila Hatami, Sareh Bayat, Merila Zarei, Peyman Moadi.