– por Guilherme Bakunin

Histórias Cruzadas é o pior filme de 2011. Sua pretensão é ser um apanhado geral dos movimentos civis norte-americanos dos anos sessenta, usando a cidade de Jacksson, Mississipi (amplamente conhecido por ter sido uma das regiões de maior resistência aos movimentos raciais) como pano de fundo dessa história. A pretensão do filme é bem-sucedida, se você não sabe absolutamente  nada a respeito do período.

Não digo com desdém: realmente, pra quem não conhece a história dos movimentos civis dos anos sessenta, Histórias Cruzadas é um bom começo. Se você, por outro lado, já viu cinco filmes americanos produzidos no final dos anos 1960/início dos anos 1970, se você já leu as letras do Bob Dylan ou as da Nina Simone, se você já prestou vestibular, se você já assistiu Mad Men e etc, provavelmente considerará o filme ideologicamente perigoso, apesar de ser, em poucos momentos, historicamente acurado.

Isso porque esse é um filme racista – brancos maus, negros bons. Não há nuance, não há sutileza, não há humanidade. E também não há política. Desde os arquétipos de senhoras-negras-cheias-de-sabedoria-popular, passando pelas dondocas brancas donas-de-casa agindo como high school whores e culminando na anacrônica personagem Skeeter Phelan (interpretada por Emma Stone), o filme é completamente preenchido por personagens vazios, melodramas esperados e conflitos saídos de um folhetim de sitcom.

Sem qualquer exagero, toda a estética do filme parece emular um filme de colégio, envolvendo tramas sobre bullying ou desrespeito, os heróis, que se chocam contra esse padrão, os vilões, que por mesquinharia e futilidade o mantém, e os que são indiferentes, ignorados e superficiais. Todas as preocupações narrativas do filme incidem somente no terreno da “diversão”. Bem, nada de errado nisso. Mas um filme político tem de ser um filme político. Exige-se um compromisso com alguma coisa. Com a verdade ou com um posicionamento. Uma seriedade. Um filme político não pode existir pelas risadas, só pelo passatempo. E um filme sobre negros nos anos sessenta tem que ser um filme político. Não há outra possibilidade.

Ao invés de ser político, Histórias Cruzadas é anestesiante. Existia agradabilidade na posição social de um negro nos anos sessenta? Acho que não. Ainda sim, o filme é agradável. Estranho.

E ao invés de ser real, Histórias Cruzadas é melodramático. O melodrama está, essencialmente, mais longe da verdade do que o realismo. Mas existem casos em que o melodrama pode ser construído de forma a criar-se sentimentos que relacionam personagem e espectador, sem comprometer efetivamente a verdade. A Troca (Clint Eastwood) ou Tudo que o Céu Permite (de Douglas Sirk), são dois dos meus favoritos, que conseguem ser extremamente melodramáticos (além de femininos) e, ainda sim, não afastar-se do panorama social que denuncia (a mulher nos anos 20, em A Troca, e a mulher nos anos 50, em Tudo que o Céu Permite, à grosso modo). Nem ao menos esse equilíbrio Histórias Cruzadas consegue atingir. O filme é, afinal de contas, racista (posiciona mulheres brancas de forma estúpida e estereotipada – como um judeu num filme alemão dos anos 30, por exemplo).

Por fim, não é tão ruim quanto, digamos, Invasão do Mundo: Batalha de Los Angeles ou Alvin e os Esquilos 3, mas é ruim e é errado. É afrontosamente equivocado na construção do seu contexto histórico, e futilmente desenvolvido em seus personagens e narrativa. É basicamente o que Zombilândia é para os filmes de zumbi, e Emma Stone, muito provavelmente não coincidentemente, estrela nos dois.

1/5

Ficha Técnica: Histórias Cruzadas (The Help) EUA, 2011. Direção: Tate Taylor. Elenco: Emma Stone, Bruce Dallas Howard, Viola Davis, Octavia Spencer, Jessica Chastain.