por Bernardo Brum

Apesar de estar em franca ascensão – fazendo seu primeiro filme falado em inglês e recheado de atores consagrados – Tomas Alfredson não arrefeceu tematicamente: O Espião que Sabia Demais, adaptação do romance de 1974 escrito por John Le Carré (também autor de O Jardineiro Fiel, transposto para o cinema por Fernando Meirelles), é tão denso e lento quanto o seu primeiro sucesso, o aclamado Deixe Ela Entrar.

E talvez até mais radical; a trama de política e espionagem de Carré tem bem mais personagens e, por consequência, bem mais emoções em conflito. Sem sequências espetaculares de ação ou explicações didáticas, o diretor sueco fez uma obra notadamente adulta, que exige certa maturidade do espectador para uma apreciação justa da obra.

Faz-se necessário abrir um parêntese aqui:  o personagem-símbolo da obra de Carré, o agente secreto George Smiley – protagonista da maioria de suas obras mais conhecidas e coadjuvante em outras tantas – é um verdadeiro anti-herói surgido em meados dos anos sessenta e destacado nos anos setenta como o “pólo negativo” do James Bond de Ian Fleming. Sai o macho alfa adulto que todo homem quer ser, entra um homem envelhecido, que começara a trabalhar no serviço de espionagem nos anos trinta e na época em que o filme se passa já estava aposentado.

Ao contrário do hábil pistoleiro cheio de “gadgets”, temos um mestre da burocracia. Não é charmoso; é calmo, contido e calculista.  Tampouco é um Don Juan – pelo contrário, é frequentemente traído pela mulher. A própria história rejeitava o tom aventureiro de Fleming para retratar o ambiente onde os personagens vivem como amedrontador, imoral, violento e anti-ético, em  histórias de suspense que envolvem traição, paixões e medos  – ou seja, um mundo mais movido pela emoção do que pela razão onde Smiley surge como um dos poucos que usam o cérebro.

E a adaptação de Alfredson repete o serviço: após os violentos filmes de espionagem contemporâneos como o 007 de Daniel Craig (em Cassino Royale e Quantum of Solace) e a trilogia de Jason Bourne dirigida por Paul Greengrass, O Espião que Sabia Demais é um filme feito à moda antiga, na base dos diálogos, com uma violência que pouco se faz presente visualmente mas o tempo todo na atmosfera: a imagem “fria” possuída por certa parte dos britânicos parece até se justificar aqui, já que os picos de tensão, antes do final, são bastante esparsos.

Como a atuação de Gary Oldman no papel de Smiley atesta o tempo todo, apesar de tão denso, esse é um suspense de sutilezas, onde nada em momento algum está inteiramente claro e todos são suspeitos. Cheia de pequenos detalhes, sua interpretação de homem contido que raramente levanta a voz é a força motriz desse filme que vai e volta no tempo em sua forma quase hermética, que vai e volta no tempo, que enquadra personagens distantes e conversas criptografadas em seu verdadeiro jogo de xadrez, quase que proibindo o espectador de se envolver emocionalmente com aqueles homens e mulheres passionais e ambíguos. Como Smiley, teremos que observar tudo racionalmente.

O clímax de O Espião que Sabia Demais, na contramão de todo o filme, explode numa maré de violência só sugerida pelo resto do filme. Acompanhada ao som de La Mer, de Julio Iglesias, o complexo e sufocante jogo de interesses é descortinado de forma rápida, brutal e praticamente exagerada após quase duas horas de suspeitas. Smiley aprende que esse tipo de emprego é aquele do qual você pode se aposentar dele, mas ele não se aposenta de você.

Consciente que o mundo não está dividido entre bem e mal, mas apenas por diferentes ideologias – como atesta uma sequência onde Oldman reencena um diálogo que ele relembra vivamente mas que jamais vimos – Smiley mostra-se o mais angustiado, vulnerável e portanto o mais humano dos clássicos espiões do século vinte. O triste olhar que lança para a câmera em um close (onde Alfredson cria uma espécie de “subjetiva fantasma”), quando parece perceber que o diálogo é apenas uma memória, denuncia um ideal pela paz perdido: o que resta é a guerra de diferentes concepções de mundo, pura e simples, seja explícita ou fria, física ou psicológica. Um dos muitos paradoxos injustos que Alfredson espalha por suas obras: novamente, buscamos a paz, mas somos violentos demais para isso. Poderíamos ser tolerantes, mas estamos acomodados demais com o fanatismo.

Após quase duas horas de suspeitas e alguns minutos de brutalidade, o filme termina em suspenso, recusando o espetáculo, a aventura, a ação dramática óbvia e a aproximação fácil. É o jeito anti-sentimentalista, praticamente  “cascudo” do filme: já que câmera e narrativa desde o início nos obrigam a sermos distantes e racionais como Smiley, resta fazer como ele e conseguir reunir forças suficientes para continuar seguindo, mesmo quando todo o resto aponta contra.

4/5

Ficha técnica: O Espião que Sabia Demais (Tinker, Tailor, Soldier, Spy) – Reino Unido/França, 2011. Dir.: Tomas Alfredson. Elenco:  Gary Oldman, John Hurt, Ciarán Hinds, Colin Firth, Tom Hardy, Kathy Burke, Simon McBurney, Mark Strong, Toby Jones, Stephen Graham, David Dencik,Benedict Cumberbatch