– por Guilherme Bakunin

Uou!, esse filme é um saco. Não porque o roteiro é completamente previsível, pois geralmente uma boa storytelling se ocupa em encantar mesmo na previsibilidade. Mas existe uma certa mediocridade oculta em O Artista, como um sorriso de político meio a um discurso festivo. O filme é todo uma celebração do processo de se fazer filmes, embora só tenhamos acompanhado o fazer de um filme dentro da história, o que fracassou. E isso não é por acaso.

O Artista acompanha George Valentin (Jean Dujardin), um superastro do cinema mudo enfrentando dificuldades para se adaptar ao mundo do cinema falado, e a aspirante a atriz Peppi Miller (Berenice Bejo) tentando se tornar uma estrela. Valentin se esbarra com Peppi na premiere de seu filme e ali, os dois se apaixonam. Ele como o grande ícone de uma era em decadência meteórica; ela como o futuro rosto dos talkies. Mas Valentin está engajado em um casamento que também está prestes a ruir; a falta de entusiasmo de sua esposa para com ele é similar a sua falta de fé nos filmes falados.

Mas os filmes falados chegam para ficar, assim como o crack de 29. Bem, ninguém precisa de cartas de tarot pra adivinhar o que sai daí. Sim, Valentin é abandonado pela esposa, pelo produtor, perde todas as suas economias numa última tentativa vaidosa de emplacar um hit mudo. O filme fracassa nas bilheterias e é isso aí, Valentin está completamente derrotado. E então as coisas se complicam para O Artista.

É durante esse entreatos obscuro que narra os momentos mais baixos da vida de Valentin que o filme torna-se mais enfadonho; esse também é, aliás, o ato mais longo. Hazanavicious simplesmente parece não fazer ideia pra onde levar a história, e então sobrepõe cenas dispensáveis, desgasta cada plano até o último segundo, cria romances e distrações para seus personagens (eles não poderiam, afinal, ficar quarenta minutos sem fazer absolutamente nada). Tudo para orquestrar um final grandioso e impressionante à Se Meu Apartamento Falasse, mas que falha estruturalmente, por ser capenga (o filme não estabelece que Peppi Miller é má motorista, por exemplo – qual é, até Scoop antecipa melhor as coisas) e previsível.

Após o reencontro do casal injutificavelmente apaixonado, a epifania: Valentin se recusa a falar, mas através da sua dança ele poderá se expressar, sapateando seu caminho de volta ao estrelato cinematográfico.

O problema: o filme se chama O Artista e eu ainda estou procurando a quem o título faz referência (muito provavelmente ao cachorro) porque, até onde me consta, a função de um artista não é adaptar-se a qualquer circunstância, moldando-se ao gosto popular para manter-se em evidência: não existe ao menos um artista de renome que tenha trabalhado com essa postura. Nos cinemas, talvez Chaplin, mas mesmo ele ficou sem falar até os anos 40, e só abriu a boca para discursar sobre o que acreditava.

Mas Hazanavicious tenta extrair leite de pedra e quer convencer-nos que o metade galã metade mímico personagem principal da sua comédia romântica revisionista faz arte. Não, não faz. Provavelmente não antes, e certamente não depois dos talkies. O diretor trabalha muito bem, contudo, com a dinâmica do filme mudo, e o uso do som em algumas sequências (particularmente uma sequência de sonho no meio do filme) é sublime. Fora todos os dispositivos visuais e as gags gestuais que estão espalhadas pelo filme, o único outro grande destaque de O Artista é a atuação magnética de Jean Dujardin, canastrão em partes, e humano em outras, sempre à necessidade da história.

O mais incômodo em relação ao filme é que não se trata, na verdade, de um filme revisionista. O Artista é agradável e medíocre nas mesmas proporções de qualquer filme inofensivo dos anos 1920, mas não elabora nenhum comentário à respeito do período (não chega nem ao menos perto do discurso de Cantando na Chuva, por exemplo), mas limita-se a mimetizar toda a estrutura que foi, há quase um século, consagrada nos circuitos mais populares. Mais populares no sentindo de ressaltar  a ideia de que os anos 1920 não foram preenchidos exclusivamente por chick flicks em preto & branco. Na verdade, muitas das grandes obras do cinema, americano e europeu, estão lá, mas são negligenciados na história por serem obras atemporais, não sujeitas à dispositivos tecnológicos de som e imagem. Os artistas de verdade, aparentemente, não têm nada a temer.

2/5

Ficha Técnica: O Artista (The Artist) França/Bélgica, 2011. Direção: Michel Hazanavicious. Elenco: Jean Dujardin, Bérenice Bejo, John Goodman, James Cromwell, Penelope Ann Miller, Missi Pyle, Beth Grant, Ed Luter.