– por Guilherme Bakunin

Drive, de 2011, colocou definitivamente Nicolas Winding Refn em evidência, e seus trabalhos anteriores estão sendo fervorosamente revisitados. Medo X, de 2003 e estrelado pelo prodigioso John Torturro, foi um retumbante fracasso de bilheteria, e não recebeu críticas exatamente agradáveis.

A história segue Harry Caine, um segurança de shopping traumatizado pela recente morte da esposa, vítima de duplo assassinato que resultou em sua morte e na de um policial. Com o crime não solucionado, Harry, segurança do mesmo shopping center onde sua esposa foi morta, passa as noites pós-expediente vasculhando pacientemente as fitas do circuito interno do prédio à procura de pistas que possam levá-lo a desvendar o crime.

Estar trancafiado solitariamente em seu apartamento também é estar trancafiado em seus próprios pensamentos. Harry não parece se relacionar realmente com ninguém (apesar de que, morando em uma cidade pequena, ele conhece e cumprimenta pessoas, mas sem constituir, dessa forma, uma relação). E, ao olhar pra si mesmo, ele só percebe a escuridão e a paranoia. Harry simplesmente não consegue superar a morte da esposa.

Medo X se detém num primeiro momento a sintonizar o espectador com a atmosfera de paranoia e obsessão vivida pelo protagonista. Mas quando Harry Caine descobre, numa casa abandonada adjacente à sua um rolo de negativos que indicariam a possível localização do assassino de sua esposa, o filme sofre uma reviravolta e nós somos apresentados a um outro personagem, o policial de caráter Peter Northrup.

Parte da noção de um filme de suspense é que, no começo, o espectador sempre sabe muito pouco a respeito da história e ao aproximar-se do final, a familiaridade com os acontecimentos acaba sendo natural. E eu não me refiro a mistérios que são resguardados até os últimos minutos (como em Um Corpo que Cai, ou O Sexto Sentido), mas a todas aquelas coisas que motivam a história, toda a composição de um universo (sabemos, por exemplo, de todas as motivações que impulsionam a obsessão do personagem de James Stuwart em Um Corpo que Cai; o mesmo vale para os personagens principais de O Sexto Sentido). Medo X desconstrói essa lógica por se torna cada vez mais enigmático e incompreensível.

Mas Refn não é um diretor de compreensibilidade. Quem conhece seus outros filmes para além de Drive (que é, até certo ponto, bastante inteligível também), está habituado e se envolver com o filme de outras maneiras. Medo X, uma tradução literal do original Fear X, parece indicar, com o X, uma marca indelével, através de onde escorre todo o medo e toda a paranoia do protagonista.

Pelo pouco que nos é entregue, como quando a câmera literalmente entra dentro da cabeça de Harry Caine e nos revela um vermelho que obstrui a silhueta de um homem, podemos inferir apenas algumas coisas e maneira pouco substanciais (o hotel do filme, filmado como se fosse uma espécie de inferno-na-terra, emblematicamente nos remetendo a Barton Fink, é completamente vermelho e pontuado por acontecimentos que beiram o surreal, havendo a forte sugestão de que se trata de uma alucinação, por exemplo).

O fundamental, realmente parece não ser o porque essa cicatriz, o X, existe, nem como ela se dá. Como as imersões ocasionais da câmera dentro da cabeça do protagonista, Refn parece querer, com o filme, nos colocar dentro da mente de um homem perturbado, e fazer-nos sentir, com a trilha de Brian Eno, Dean Landon e Peter Shwalmm e a fotografia de Larry Smith, o medo jorrar, pulsante, através dessa marca. É um grande momento para a história do terror atmosférico, e o Refn deveria ser mais lembrado por todas as conquistas que obteve na estrutura formal desse filme que é subestimado.

3/5

Ficha Técnica: Medo X (Fear X) Dinamarca/Canadá/Reino Unido/Brasil, 2003. Direção: Nicolas Winding Refn. Elenco: John Torturro, Deborah Kara Unger, Stephen McIntyre, William Allen Young, Gene Davis, Mark Houghton.