– por Guilherme Bakunin

Rhoda Williams volta para casa embriagada quando recebe pelo rádio a notícia de que um outro planeta fora avistado a olho nu; distraída pela imagem, ainda insignificante, do outro planeta, ela choca seu carro contra o de uma família, matando mulher e criança. A adolescente é, então, jogada na prisão por quatro anos e quando é solta, tenta lidar com o que havia cometido.

Os contidos contornos sci-fi de A Outra Terra vestem o que é, na verdade, um drama sobre culpa e redenção. A vida de Rhoda é drasticamente transformada em circunstância do acidente de carro; e muito pior do que desperdiçar quatro anos de sua vida numa prisão ou dar as costas para a promissora carreira que, outrora, estava diante dela (a garota havia acabado de ser aprovada no exame do MIT) é auto-confrontar-se com a impactante imagem que não expira na sua mente: o corpo ensanguentado e morto de uma criança de cinco anos estirado no asfalto. Essa imagem – que é decorrente do acidente e, portanto, reflexo das consequências – capta sua atenção de maneira mais intensa do que a gigantesca imagem da outra Terra se aproximando.

Imersa nesse pesadelo em luto, Rhoda busca se distrair com um subemprego, com um improvável relacionamento que varia entre serviçal e amante do homem cuja vida ela destruiu no acidente de carro (matando sua esposa grávida e seu filho) e com ponderações silenciosas a respeito do que poderia existir no outro mundo. No outro mundo que, progressivamente, se aproxima. No outro mundo que é reflexo do nosso (ou o nosso que é reflexo do deles).

As ponderações possuem fortes sugestões de serem a respeito de segundas chances. Em determinado momento do filme, Rhoda tateia nas mãos de um cego a palavra “perdão”. Perdão, redenção, expiação, que carregam embora a culpa e catarseiam a alma do homem. As ponderações de Rhoda são as ponderações de Cahill e Marling (roteiristas): ignorantes, como não poderiam deixar de ser (para eles e para nós, meros mortais mal educados em física, astronomia, matemática), mas humanas, pessoais.

Na busca por uma história a respeito de segundas chances, Cahill e Marling tropeçaram em diversos pontos. Os elementos sci-fi não são suficientemente explorados, e muitas vezes cedem valioso espaço para melodramas não tão inspirados. A premissa filosófica que se abre com a possibilidade de existência de um outro – reflexo de si próprio – é completamente inexplorada, apesar do cliffhanger final. Mas é um debut inspirado, que descortina ideias interessantes e abre espaço pra discussão.

3/5

Ficha técnica: A Outra Terra (Another Earth) – EUA, 2011. Dir.: Mike Cahill. Elenco: Brit Marling, William Mapother, DJ Flava, Matthew-Lee Erlbach.