– por Guilherme Bakunin

Longe dos cinemas desde Fantasmas de Marte (2001), Carpenter retornou em 2010 com Aterrorizada, terror de sub-gênero manicômio (filmes de suspense ou horror que tocam em questões como loucura e instituições de tratamento psicológico são bastante recorrentes, como exemplos Paixões que Alucinam, Ilha do Medo ou do próprio Carpenter, À Beira da Loucura).

A história é a respeito de Kristen, uma jovem perturbada que é colocada numa seção especial de um hospital psiquiátrico (chamada ward, enfermaria vigiada em tradução literal) junto com outras quatro garotas, Sarah, Zoey, Iris e Emily, que estavam previamente confinadas na ward. As garotas recebem Kristen com cautela, e a troca sugestiva de olhares entre elas sugerem fortemente que existe um grande mistério que marca o passado daquele lugar.

A grande questão em Aterrizada é que a cada novo passo da narrativa, você sabe o que virá. Não há grande criatividade na criação e execução dessa história, e toda a relação entre paciente-são-versus-médicos-condescendentes já foi extremamente revisitada, de forma que, qualquer outra pessoa por trás das câmeras, o projeto seria invariavelmente um fracasso. Mas quem dirige é John Carpenter que, mesmo fora de forma, tem sempre algo a dizer.

Carpenter não é um mero operário da indústria. Na verdade, ele atua contra ela. Seu hiato se deve principalmente ao seu descontentamento com o maquinário de hollywood, e talvez isso explique que Aterrizada seja um filme que não dê passos largos tematicamente. É o retorno de um mestre, que caminha cautelosamente em um território que é, constantemente, hostil aos que criam pela paixão de criar.

Porém, são passos largos que impulsionam Aterrorizada na construção de sua atmosfera. Pouquíssimos cineastas americanos hoje conseguem ser tão sutis na hora de filmar, tão contidos no fluir da história, e tão precisos nos cortes quanto Carpenter. Que trabalhe especialmente com suspense, só existe um (Shyamalan). O filme poderia, facilmente, se segurar na maravilhosa protagonista interpretada por Amber Heard; ou poderia, como é comum no diluído mercado americano de filmes de horror, se sustentar em sombras artificiais e gritos repentinos, ou ainda em efeitos de computador ou filtros de cor. Mas Aterrorizada se sustenta na capacidade de, cena após cena, direcionar o olhar do espectador para o que interessa. Não para enganá-lo, conduzindo-o numa direção equivocada propositalmente pra garantir uma reviravolta, mas porque o que interessa é a condução do olhar e da percepção de quem assiste, para potencializar, sem truques baratos, um espetáculo de suspense de horror. Simples e contido, sim. Longe do que Carpenter pode e já fez. Mas ainda assim, satisfatório.

Outras observações:

– Percebi dois grandes momentos em Aterrorizada. No primeiro, Iris vai até o escritório do Dr. Stringer (Jared Harris, Lane Pryce de Mad Men), na expectativa de que ela receberá alta. A condução do suspense aqui é magistral e desconcertante. No segundo, Sarah recebe uma sessão especial de eletrochoques do fantasma de Alice, numa daquelas cenas semi-gore que entortam a espinha, realmente sensacional.

3/5

Ficha técnica: Aterrorizada (The Ward) – EUA, 2010. Dir.: John Carpenter. Elenco: Amber Heard, Mamie Gummer, Danielle Panabaker, Laura-Leigh, Lyndsy Fonseca, Jared Harris, Sali Sayler, Susanna Burney, Dan Anderson, Seam Cook, Jilian Krammer.