– por Michael Barbosa

Isso de expectativa é um problema mesmo; sabe, o filme tem o nosso diretor pedófilo favorito dirigindo, a Winslet, o Waltz e a Foster, tem até o John C. Reilly, aquele, esses cinco ai ainda se juntaram e renderam uma das fotos mais simpáticas e cutes que o cinema já nos proporcionou. Juntamos a isso que a história é algo sobre aqueles quatro dentro de um quarto discutindo e com todas condições para darem o seu máximo. Não dá para não esperar muito, e essa mea culpa toda é porque ao que tudo indica Deus da Carnificina não chega lá, infelizmente.

A história é simples, e mais do que isso é apenas um plano de fundo para o desenvolvimento do argumento: dois garotos brigaram, um arrancou três dentes do outro, os pais dos dois se encontram pra tirar a história a limpo.

O que começara com diplomacia e cordialidade acaba virando cinismo, grosseria, sarcasmo, vômitos e bebedeira. Partindo daí Polanski se propõe a realizar uma espécie de alegoria caricatural da burguesia enquanto grupo antropológico, tentando através de quatro caricaturas (a engajada, o frustrado, o workaholic, a mulher moderna) fazer de Carnage um estudo sobre as máscaras dessa classe. O problema reside não em trabalhar com arquétipos ou no ar de “peça de teatro filmada” que possa ter (uma vez que em outros tantos filmes isso passa longe de prejudicar [um exemplo: 12 Homens e Uma Sentença]) mas no caráter surpreendentemente contido que o filme acaba ganhando. Falta a catarse, já disse Guilherme Bakunin, desse mesmo blog e um debate sobre o filme.

Não evitando comparações inevitáveis Carnage remete à temática de Buñuel em alguns de seus filmes, que se imbuiu da mesma missão: analisar, criticar, ridicularizar e escancarar burgueses ou aristocratas. Em O Anjo Exterminador as personagens não conseguem deixar a sala, ainda que nada físico os impeça, o mesmo parece acontecer aqui, o casal de Winslet e Waltz passa por isso, mas é tudo mais tímido do que no surrealismo do espanhol desse ou de O Discreto Charme… Mesmo que cada um dos quatro tenham seus respectivos momentos para exibir um chilique individual Carnage deixa um gosto amargo por não levar o argumento às últimas consequências.

Ao fim temos ainda os dois moleques que brigaram e deram origem a isso tudo bem de boa conversando no parque enquanto os pais se digladiam, é a crítica à moralidade que eles se impuseram de tentar colocar diplomacia em uma mera briga de crianças, Polanski parece dizer “deixem rolar”.

Dentro sempre da ideia de que é tudo um número caricato as atuações são como tem que ser, Winslet faz uma dondoca bêbada patética, Waltz um sarcástico incurável, a Foster vai irritar-nos o filme inteiro com aquele moralismo todo e eles passam isso. Polanski se mostra naturalmente confortável com o trabalho de mise em scène num apartamento e faz do fato do filme se passar todo ali dentro algo pouco cansativo, a duração ínfima ajuda, o filme tem seus momentos de brilho, mais graças aos atores do que do texto, mas é isso dai, os créditos sobem você fica pensando se já era para acabar mesmo e refletindo sobre o que faltou para Deus da Carnificina ser tudo que poderia.

3/5

Ficha Ténica: Deus da Carnificina (Carnage) –  França, Alemanha, Polônia, Espanha, 2011. Dir: Roman Polanski. Elenco: Kate Winslet, Jodie Foster, Christoph Waltz, John C. Reilly.