– por Guilherme Bakunin

Decidi fazer esse texto duplo, porque não acho que consigo enrolar muito a respeito de cada um deles separadamente, e Uncle Kent, o qual já vi há alguns meses, vem sendo presença constante nos meus inócuos pensamentos.

Joe Swanberg, o diretor dos dois longas, é um proeminente cineasta usualmente categorizado como parte do movimento mumblecore. O movimento consiste, na maior parte das vezes, em pequenos dramas de baixíssimo orçamento a respeito das vidas de jovens relativamente independentes e recém-graduados.

Kissing on the Mouth, debut do diretor, é de 2005 e segue a vida de Ellen (Kate Winterich), uma jovem recém-graduada que está em neurose a respeito dos rumos de sua vida. Enquanto reflete, Ellen passa as tardes transando com o ex-namorado e conversando com sua amiga Laura (Kriss Williams). Uncle Kent, por sua vez, é parcialmente metalinguístico, segue Kent (Kent Osborn), animador de As Aventuras de Flapjack, que passas suas tardes desenhando, se masturbando e fumando.

Tanto Kissing on the Mouth quanto Uncle Kent se concentram bastante na questão de pessoas que lutam para não se moverem na vida; Ellen e Kent são dois jovens deliberadamente estagnados e se armam constantemente de discursos para justificar suas posturas passivas em relação ao amadurecimento.

Mais uma vez, porém, ambos os filmes usarão artifícios para armar o auto-confronto de seus dois personagens principais; em Kissing on the Mouth, depois de muita conversa, Elle permanece indecidida, porém, será obrigada a tomar alguma postura (e manter-se na mesma postura é uma das opções) diante da descoberta de que seu ex-namorado, Patrick (Kevin Pittman), está em um novo relacionamento; quanto para Kent, ele recebe a visita de uma de suas amigas virtuais, a jornalista ambiental Kate (Jennifer Prediger). Depois de algumas investidas e muitos foras, Kent, chateado, se reconforta vendo um vídeo no youtube de quando ele e seu sobrinho bebê brincaram juntos.

Joe Swanberg não parece interessado em completar o ciclo narrativo. É incerto se Ellen e Kent realmente vão dar um passo para frente. Os dois filmes armam o confronto de forma que seus protagonistas não podem ignorá-lo. Ellen e Kent podem continuar presos nessa vida pós-universidade-pós-adolescente, se quiserem. Os roteiros de Swanberg só fazem questão do confronto, e parecem valorizar tanto os personagens, que os filmes se encerram assim que esse confronto ocorre, como se desejasse dar a essas pessoas privacidade (a cinematografia é extremamente invasiva, quase documental) para refletirem e decidirem por si mesmas.

Outras observações: 

Uncle Kent, de 2010, foi a estreia de Joe Swanberg no Festival de Sundance. O filme é, como comentei, parcialmente autobiográfico. Provavelmente provém de uma história original do próprio Swanberg, mas não se pode ignorar o fato de que Kent é um maconheiro-animador de desenhos infantis, assim como o ator, Kent Osborn (que trabalhou em Bob Esponja e As Aventuras de Flapjack).

– A respeito da cinematografia intrusiva. Kissing on the Mouth possui uma câmera extremamente irritante, mas que se concentra em diversos closes, de corpos e rostos, como se quisesse ir realmente a fundo em seus personagens. Uncle Kent já utiliza câmeras mais distantes, muitas vezes estáticas.

– A respeito disso, o crítico Brandon Judell diz: “Apesar de extremamente contemporâneo, o problema com Uncle Kent é que parece completamente desforme, como se não fosse sequer um filme. Como se alguém escolhesse um nome num catálogo e então levasse os esquipamentos de filmagem para aquela casa, os ligasse, saísse e então voltasse três dias depois para recolher as filmagens e as chamassem de filme”. O que Judell parece argumentar fala muito a respeito de uma ausência de elaborada decupagem, o que é absurdo. Se nos filmes o diretor dispõe principalmente de duas ferramentes para criar a visualidade (a composição e a decupagem), ele articulará a melhor relação entre esses dois artifícios na hora de produzir seu próprio material. Há filmes sem elaborada composição (documentários), há filmes sem elaborada decupagem (Arca Russa, O Cavalo de Turin), e nem por isso chamaremos esses filmes de outras coisas. O cinema digital e o compartilhamento de arquivos são algumas das inúmeras novas dinâmicas de produção disponíveis, com suas próprias particularidades. Essa tal maturidade do cinema deve abrir espaço para os mais variados exercícios de expressão (não somos inquisitores, afinal, somos expectadores/admiradores), não suprimi-los ou moldá-los.

Kissing on the Mouth: 2/5
Uncle Kent: 4/5

Ficha técnica: Kissing on the Mouth – EUA, 2005. Dir.: Joe Swanberg. Elenco:   Joe Swanberg, Kate Winterich, Kris Williams, Kevin Pittman, Julie VanDeWeghe.

Ficha técnica: Uncle Kent – EUA, 2011. Dir.: Joe Swanberg. Elenco: Kent Osborn, Jennifer Prediger, Joe Swanberg, Kevin Bewersdorf, Josephine Decker.