– por Guilherme Bakunin

É um caso particular, esse Inquietos, na carreira de Gus Van Sant. O diretor é amplamente conhecido pela dicotomia artística que preenche sua filmografia, com clássicos populares dos anos 1990 como Gênio Indomável e Cowboys da Meia-Noite; e também por suas fábulas estilísticas-adolescentes como Elefante e Paranoid Park. Inquietos, novo filme do diretor exibido na Cartain Regard do Festival de Cannes do ano passado se posiciona mais ou menos entre essas duas correntes.

A história é de Enoch Brae, um adolescente dropout que mora com a tia, pois perdeu recentemente seus pais. Enoch é um jovem excêntrico que, para assimilar seu trauma, visita constantemente funerais de pessoas desconhecidas e se relaciona continuamente com o fantasma de um piloto kamikaze da segunda guerra mundial. Numa de suas visitas ele conhece Annabel Cotton, uma adolescente enferma que possui apenas mais três meses de vida.

Não é certo o que dispara a curiosidade de Enoch e Annabel um no outro; e ambos não parecem compartilhar muitas semelhanças além da seminal excentricidade  providente de suas fortes relações com a morte.

Seja como for, os dois se conectam e os dois se relacionam. Van Sant ritma seu filme através das baladas de Danny Elfman e diversas canções pops e acompanha a crescente intimidade do excêntrico casal com um olhar apaixonado, porém contido. O olhar de câmera do cineasta é tão imersivo, que numa das cenas mais interessantes do filme, quando Enoch e Annabele se relacionam sexualmente pela primeira vez, o filme assume contornos parcialmente abstratos, com sombras e imagens close-ups desfocados, transportando para o espectador a visualidade que, assumidamente, os personagens possuíam naquele momento.

O crítico norte-americano Roger Moore disse que Inquietos é “bem mais precioso que profundo”, e isso diz muito a respeito do que Gus van Sant tem em mãos e como ele trabalha com esse material. Uma história que não é apenas simples, mas insípida, quase boba, conduzida com uma visualidade e uma segurança tão inspiradoras que, quase a todo momento, consegue maquiar as fraquezas do texto. Porém, o texto derrapa em momentos tão ruins que se tornam mais aparentes, como a mislead de quando Annabele e Enoch encenam a morte da garota e consequentemente brigam e rompem o namoro; ou os ciúmes injustificáveis da irmã de Annabele; ou o alcoolismo da mãe, que não mostra a que veio; ou o excesso de melodrama em todo o arco envolvendo o fantasma do piloto japonês.

Mas não acredito que tais situações sejam marcantes o suficientes para obstruir o intimismo e a sobriedade da história. Seria muito fácil cair em situações fáceis e pouco brilhantes, mas toda a história da relação de Enoch e Annabele, e como os dois se relacionam com a inexorabilidade da morte é narrada sem subterfúgios: a trilha sonora nunca exige determinado posicionamento do espectador, os diálogos nunca são muito bem determinantes, a mise en scène nunca é sobrecarregada. É cinema sobre jovens, mas liderado por alguém que tem experiência e sabe muito bem o que quer contar.

Outras observações:

– Como todo mundo já deve estar saturado de saber, Enoch Brae é interpretado por Henry Hopper, filho de Dennis Hopper (Easy Rider, Veludo Azul). O filho resguarda semelhanças físicas absurdas com o pai, mas senti muita influência (tanto física quanto gestual) com James Dean na atuação do garoto: as emoções de tal maneira à flor-da-pele que parecem arder, ao passo que, quando com adultos ou estranhos, existe uma certa indiferença na expressão, uma vontade de se privar. Enfim, me lembrou.

– Inspiradíssima a cena que abre Inquietos, onde Enoch risca com giz o redor de seu corpo; e mais tarde, o casal faz a mesma coisa, evidenciando a forma como o tema – a morte – é um incômodo constante e indecifrável, de forma que palavras não seriam capazes de expressá-lo.

– Desconfio que exista abertura suficiente no título original do filme – Restless – para dar abertura ao título nacional, supostamente traduzido de forma literal; porém, acredito que o filme seja muito mais de Enoch do que de Annebele. Ela está, desde o começo, extremamente conformada, até confortável, eu diria, com a própria morte. Ele, por outro lado, está traumatizado, inquieto, portanto, a respeito do tema.

4/5

Ficha técnica: Inquietos (Restless) – EUA, 2011. Dir.: Gus Van Sant. Elenco: Henry Hopper, Mia Wasikowska, Jane Adams, Ryo Kase, Shuyler Fisk, Lusia Struss.