– por Guilherme Bakunin

Oregon, Estados Unidos. 1845. Época dos pioneiros e desbravadores. É mais ou menos por aí que a grande maioria dos clássicos faroestes são contextualizados. Kelly Reichardt vem, então, para lançar um olhar franco, realista e intimista na época onde grandes das maiores aventuras do cinema americano foram narradas.

Meek’s Cutoff inicia-se com um cortejo de pioneiros cruzando um rio. Vagarosa, paciente e cuidadosamente, cada um dos viajantes (oito no total, se não me falha a memória) cruza o pequeno rio junto com seus pertences. Na história, um experiente explorador chamado Stephen Meek lidera um grupo de três famílias através de um atalho para chegarem em uma terra inexplorada que poderá ser, dentro de alguns anos, parte oficial do território norte americano. O conflito surge quando os homens se reúnem, desconfiados que Meek os conduziu erroneamente de propósito, para decidirem se enforcarão ou não o viajante.

Perdidos no meio de um árido deserto americano, paranoicos a respeito da presença de selvagens (índios) nos arredores, sem comida, bebida ou quaisquer garantias de que conseguirão escapar e chegar em algum lugar que valha a pena (o próprio destino do trajeto é incerto, já que também fala-se a respeito de índios hostis próximos àquela área), os viajantes tornam-se mais instáveis e inseguros a cada dia; e suas instabilidade e inseguranças revelarão um forte drama que envolve fé, preconceito e ignorância.

A crítica tem se referido ao filme como lento; mas a crítica, especialmente americana, tende a taxar de lento qualquer filme que simplesmente deixa fluir a ação, ao invés de colocá-la em fast-forward. É um filme que aborda aspectos sutis a respeito dos personagens (supracitados); tai aspectos funcionam como metonímia para falar a respeito da própria condição americana, onde questões como a fronteira, a exploração e a carnificina dos povos nativos sub-existem como herança pungente na vida de qualquer cidadão pensante.  Talvez por almejar essas questões, a diretora Reichardt resolve colocar a agulha debaixo a unha do western tradicional, subvertendo-o. Os grandes heróis cedem lugar à figuras humanas, temerosas e frágeis; os grandes vilões são inexistentes; as atitudes heroicas saem de cena para a entrada de ações absolutamente banais, como moer café e correr atrás de um lenço levado pelo vento (e a cena inicial, do cruzamento do rio serve como ambientação adequada para o resto da narrativa). Numa das cenas mais impressionantes, Emily (interpretada por Michelle Williams) dispara dois tiros de escopeta para o alto, mas não antes de carregá-lo de pólvora, ação que demora quase dois minutos para ser executada, em um plano sequência estático e arrebatador. Arrebatador justamente por trazer à tona essa questão no tempo e do western.

Mas além de anti-western, Meek’s Cutoff também é um road movie. Quase sempre, um filme estrada revela condições pungentes, ainda que existenciais ou pessoais, a respeito dos personagens. Meek’s Cutoff, com sua fábula sobre fé e preconceito, revela através de seus personagens os despojos do oeste americano: a desarmonia entre semelhantas e a incapacidade de compreensão do próximo. Não é uma temática tão religiosa, como pode parecer, mais do que é moral. Perdidos em terras desconhecidas, seus personagens descendem de um convívio social harmonioso para um estágio de insegurança latente. Os filmes de estrada, como apontado por Sam Adams do Av. Club, costumam ser um gênero “mais otimista, a respeito de liberdade e novos horizontes”. Mas em Meek’s Cutoff, a suspeita dos personagens é tão efervescente, que as amplas e insólitas paisagens do deserto trazem, através das rédeas de Reichardt, um desconforto absurdo, e uma claustrofóbica sensação de perigo imediato.

O desconforto e o pavor do filme colidem em um final enigmático e incerto, talvez porque os rumos dessa fábula ainda estejam vigentes, em curso, em algum lugar.

Outras observações:

– Como a entrevista linkada acima informa, Stephen Meek foi um explorador de certo renome em Oregon, portanto uma personalidade real. Contudo, os dados a respeito desse homem são escassos, então sua história serve apenas como influência histórica imediata para a criação de toda a fábula de Meek’s Cutoff.

– A direção é de Kelly Reichardt, mas o filme é um projeto colaborativo entre ela e Jonathan Raymond, o roteirista. Ambos trabalharam juntos duas vezes antes, com Old Joy (2006) e Wendy e Lucy (2008, também protagonizado por Michelle Williams).

– Ainda inédito no Brasil, portanto sem nome por aqui. Em portugal o filme recebeu o nome de O Atalho.

5/5

Ficha Técnica: Meek’s Cutoff, EUA, 2010. Dir. Kelly Reichardt. Elenco: Michelle Williams, Will Patton, Bruce Greenwood, Zoe Kazan, Paul Dano, Shirley Henderson.