– por Guilherme Bakunin

Hoje, o cinema independente americano existe praticamente como um gênero e, mesmo que relativamente novo (geralmente Sexo, Mentiras e Videotapes, de Soderbergh, é tido como o grande marco inicial dessa estética), é bastante desgastado, devido as intragáveis incursões de gente não-tão-talentosa, a super visibilidade conferida pelos festivais e as mais-do-que-aceitáveis similaridades (Os Exêntricos Taunembaums, por exemplo, daria conta reduzir quase que por completo todos os “destaques de Sundance” dos últimos dez anos). Mas, às vezes, surgem trabalhos que justificam o hype, que conseguem transpassar pela parede do gênero e se firmar como algo que está lá, mas que não é exatamente. O caso de Wes Anderson, Henry Fool de Hal Hartley, O Inverno da Alma, de Debra Gernik, ou Ghost World de Terry Zwigoff, são alguns exemplos. Hesher, debut de Spencer Susser, lançado no Sundance do ano passado, nem tanto.

Hesher é a história de TJ (David Brochu), seu pai Paul (Rainn Wilson) e sua avó (Piper Laurie) quando em conflito com um jovem ríspido e misterioso, Hesher (Joseph Gordon-Levitt, passa, sem permissão, a fazer parte de suas vidas. Hesher não possui emprego nem educação, mas de certa forma ele será justamente o que a família vai precisar pra superar a recente perda de Coleen, mãe de TJ e esposa de Paul.

O que é realmente angustiante a respeito desse filme é que, enquanto outros filmes indies tendem a ser simplesmente ruins, com um jugo irrevogável de mediocridade, de falha mesmo, desde o primeiro minuto, Hesher é uma história de potencial, e narrada, durante o primeiro e segundo ato, de forma a catalisar seus arcos narrativos. Com poucos e insubstanciais diálogos, passamos pelos cenários e personagens da história com a mesma indiferença que seu protagonista, TJ (David Brochu) passa pela sua vida após a recente perda da mãe. Ao fim do filme, todos os personagens já choraram e desabafaram, “melodramicamente”, exatamente da forma que se espera de um filme ruim.

Não é uma questão de manifesto contra o melodrama, nem ao menos uma implicância com catarse explícitas dentro de uma história. É só que Hesher escolhe os caminhos mais óbvios e fáceis pra seguir com a narrativa, sem propor desafios, sem surpreender, sem maravilhar. A anarquia grosseira do personagem-título Hesher durante o filme impressiona justamente porque não é um elemento óbvio ou comum; não devem existir muitos personagens por aí como Hesher: selvagem, incansável, direto, cruel. Mas no final das contas, essa anarquia se transforma no elemento narrativo que leva ao conformismo, ao ‘superar da perda’. O desajustado social leva a família de TJ a ajustar-se socialmente. É uma contradição de termos, e um caminho simplesmente errado tomado pela história.

Outras observações:

– Apesar de ser uma história de potenciais frustrados, vale a pena conferir, especialmente porque durante a maior parte, o filme se sustente através das imagens (ações e reações dos personagens), e não dos diálogos. É sempre raro na mesma proporção de gratificante poder assistir a um filme americano que funcione através dessa dinâmica. Spencer Susser, diretor e roteirista, sai dessa zona ao fechar as pontas do filme, com péssimos diálogos entre Hesher e TJ (antes eles mal se falavam e, por mais estranho que seja, a conexão entre os dois parecia mais sincera) e os especialmente ruins entre Nicole (Natalie Portman) e TJ.

– Sempre bom também é ver Natalie Portman atuando, a eterna doce ninfetinha tem um personagem mal aproveitado (até desnecessário), mas certamente sabe o que fazer em qualquer papel. Gordon-Levitt, que estrelou no encalço de Ledger em comédias românticas, surpreende a cada nova escolha de projeto. Hesher é uma de suas mais memoráveis atuações, e definitivamente mostra que o ator não precisa mais demonstrar potencial – já provou que veio pra ficar.

– Hesher já tem se tornado um personagem viral, mais ou menos na mesma linha de Dude Lebowski, Peter Bateman e Coringa.

2/5

Ficha técnica: Hesher (idem) – EUA, 2010. Dir: Spencer Susser. Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Natalie Portman, Rainn Wilson, Piper Laurie, David Brochu, Brendam Hill, Monica Staggs.

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