por Bernardo Brum

Como um ótimo elaborador de “cartões de visita”, Dario Argento introduz Quatro Moscas no Veludo Cinza com tudo o que o espectador verá pela próxima hora e quarenta de projeção:  através de uma banda mandando ver em um rock lisérgico, assistimos  aquele colorido absurdo do Eastman Color tão comum à época e ao cinema fantástico italiano clássico, ângulos improváveis e impossíveis de câmera, supercloses, encenação em profundidade demarcada de forma singular em sua estranheza, supercloses exagerados e invasivos, travellings e panorâmicas absolutamente vertiginosas e desconfortáveis.

Logo de primeira, o protagonista Roberto Tobias é incomodado por uma mosca que voa ao seu redor insistentemente; ele nos lembra de primeira, uma de suas obsessões: um universo desconfortável, onde nem tudo é limpo e claro como o dia, onde os mínimos detalhes já bastam para nos perturbar e nos tirar da rotina.

Com tudo estabelecido através de tão poucos símbolos, é só seguir a história de sempre com o renovação estilística constante e nada comum de Dario: após ser metido em um whodunit com elementos Hitchcockianos, ao aparentemente ter matado um homem que o perseguia, ele logo vê o universo à sua volta perder o sentido: morrem e se distanciam figuras centrais da vida de Roberto: mulher, amigos, parentes…

Como seu mestre inglês fazia, seus personagens sempre estão a ponto de perder tudo, estão sempre no limiar de morrerem ou virarem nulidades sociais e/ou existenciais. Não adianta Roberto ter a consciência da inocência, pois já tem o sentimento de culpa, da identidade trocada, da sua vida comum  ser lançada em uma história de suspense.

Feito três anos antes de sua obra-prima Prelúdio Para Matar e fechando a “Trilogia dos Animais” de forma já bem mais madura que o debut O Pássaro das Plumas de Cristal. Mesmo sendo um fenômeno recente na época da sua feitura, gente como Argento, Fulci e Sergio Martino se encarregaram de tornar o giallo adulto e relevante dentro dessa cinematografia rapidamente. Sua obra já não era mais mero rascunho: já era um Dario Argento que se aprimorava filme a filme nos seus ataques aos sentidos. Seus filmes são muito mais gana e emoção do que intelecto; a única parte “racional” são as cenas onde o protagonista percebe estar perdendo o chão e o sentido da sua vida.

Aí, reviravolta absurda atrás de reviravolta absurda, não resta nada senão a intensidade e a irracionalidade dos eventos que conspiram contra nós – muito mais incômodos que moscas voando perto de nossos rostos. Crescendo como uma bola de neve, o filme impressiona olhos e ouvidos mesmo matando muito pouco e não mostrando tanto assim – o poder sugestivo de Argento encontra sutileza no que é brutal, beleza no que é grotesco, ritualismo no que é aleatório.

E o mais surpreendente é que mesmo com um início de carreira tão bom, ele ainda não havia mostrado 1% de sua criatividade doentia e bizarra capaz de impressionar até mesmo Hitchcock. Um raro exemplo de maturidade precoce.

4/5

Ficha técnica: Quatro Moscas no Veludo Cinza (4 Mosche di Velluto Grigio) – Itália, 1971. Dir: Dario Argento. Elenco:  Jean-Pierre Marielle, Mimsy Farmer, Bud Spencer, Michael Brandon, Aldo Bufi Landi, Calisto Calisti

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