– Por Allan Kardec Pereira

Caso definidamente singular esse em que o novo filme do Mallick se insere. São raros os filmes atuais que propõem discussões tão amplas – tanto em termos de cinema, quanto em termos de filosofia. Acaba, talvez devido a isso, ou mesmo por conta de sua premiação quase que unânime em Cannes, por despertar sentimentos opostos. da idolatria ao demérito.

Fato é que, se tomarmos em consideração a própria carreira de Mallick, desde “Além da Linha Vermelha” o cineasta vem trilhando um caminho radical em sua cinematografia. Sobretudo no que concerne à Edição em seus filmes, às elipses narrativas, à relação entre discurso em off e imagens. Enquanto muitos cineastas constroem suas narrativas a partir de planos-sequência, Mallick cria fenômenos narrativos, onde um plano não explica o próximo, onde uma provável sequencia se esfacela em um determinado momento, para aparecer em uma temporalidade outra, porém em um contexto mental semelhante. Desta forma, cenas que figurariam na narrativa lógica do começo do filme acabam voltando no final, de forma a refletir sobre aquele instante. Resultando em uma narrativa esfacelada a limites do absurdo. Mas, como já dito, tal perspectiva já acontecia em “Além da Linha Vermelha” um poético filme de guerra, que na verdade se desconcentra da ação física enquanto mergulha fundo nos dramas psicológicos de seus personagens. De certa forma, “A Árvore da Vida” partilha de característica semelhante, já que não entendemos o filme enquanto uma narrativa delimitada. O filme se configura a procurar sensações em tempos e possibilidades distintos.

E é nesse ponto que parecem figurar grande parte das críticas à Mallick, já que, segundo os detratores, o cineasta incorpora uma câmera Deus. O estilo “contra-luz”, com o sol imponente tal qual o Deus cristão sempre a observar as pessoas aqui na terra, parece dotar o filme de uma grandiloquência insensata. Entretanto, o fato de o cineasta usar da formação de um adolescente do Texas nos anos 1950 como uma metonímia da formação do Universo, incluindo aí um das mais ousadas sequências do cinema recente: os 20 minutos ocupados pela sucessão de efeitos especiais de Douglas Trumbull para figurar a criação do mundo e das espécies animais, acaba por se justificar frente à carreira de Mallick. Tal como demonstrado desde “Cinzas do Paraíso” , o diálogo dos personagens do diretor são com a falta de respostas (e contradições) frente as pertenças verdades absolutas do Deus. Nesse sentido, os questionamentos interiores do filho, o pequeno Jack (Hunter McCracken) frente a autoridade do pai Mr. O’Brien (Brad Pitt) resultam em uma analogia interessante entre o fiel, o crente, o naturalmente submisso tal como o Jó da Bíblia, citado na Epígrafe do filme, e o Deus-Pai absoluto. Questão, portanto, atemporal, e universal. A incursão do enigmático personagem de Sean Penn (o filho quando adulto) parece apontar para uma solução redentora, de fé, já que a figura da “graça”, representada na mãe-protetora, tensiona uma interpretação de amparo ao filho com a cena da praia. Parece apontar, mais ainda, pra muito do que crê o próprio Terrence Mallick, visto o notável caráter auto-biográfico da obra.

Enfim, chega ser estranho ver uma pessoa de filmografia esquecida, um dos grandes artífices da imagem que surgiram na “Nova Hollywood” ter seu filme tão comentado – e pior, quase que pelos mesmos motivos – quanto um “Anticrito”, de Lars Von Trier. Critica-se a pretensão, o caráter redentor e cristão do filme, sua narrativa esfacelada, etc., entretanto há também de se  pensar o filme com melhor apuro, sobretudo tomando por base os filmes anteriores da carreira do diretor. Notar The Tree of Live como uma possibilidade de expressão filosófica mesmo. Entendê-lo, sobretudo, como um filme que lança perguntas.

4,5/5

Ficha Técnica: A Árvore da Vida, EUA, 2011. Dir. Terrence Mallick. Elenco: Brad Pitt, Sean Penn, Jessica Chastain, Hunter McCracken.

Anúncios