– por Guilherme Bakunin

JJ Abrams, como bom discípulo de todo o universo soft geek dos anos oitenta, guarda um imenso respeito pelas obras infantis seminais daquele tempo, como Goonies (1985) e E.T. (1982), que de tão poderosas e universais, acabaram fazendo parte não apenas do imaginário daquela geração de norte americanos, mas de todo o mundo. Não existem muitos exemplos de filme de aventura onde crianças são protagonistas. Tem umas paradas da Disney nos anos cinquenta, tipo os filmes do Bobby Discoll, tem as quinhentas versões de Olivers Twists, tem aqueles filmes infantis que de tão infantis não são nem bem uma aventura, mas Goonies cria um novo patamar: é muito divertido, muito bem realizado e, por isso, universal. E você tem toda a coisa da universalidade funcionando a todo vapor no mercado cinematográfico dos anos oitenta, porque é mais ou menos por aí que o conceito de blockbuster se desenvolve mesmo. Essas obras formaram mesmo o caráter desses adolescentes de 30-20 anos atrás. Mas no meio do caminho, alguma coisa deu errado, e aí começou uma cadeia de erros tão desastrosa, que deixou Hollywood em crise, que faliu produtoras, que deixou a Disney queimada e etc.

25 anos depois de Goonies, 30 anos depois de Tubarão, o que a geração que se formou a partir desse universo da estética do blockbuster, tem a dizer? Que tipo de trabalho esse pessoal é capaz de produzir de forma que seja tão universal e tão compromissado com a diversão, sem ser medíocre, quanto os filmes de suas adolescências? Um dos caras que mais se destaca dentro desse contexto é J.J. Abrams, que criou a série de tv Alias, mas que ficou famoso mesmo com Lost.

Abrams surgiu então com essa ideia de misturar Conta Comigo (1986) com Contatos Imediatos de Terceiro Grau (1977), resgatando alguns elementos dramáticos da série que o tornou mundialmente famoso, os lendários daddy issues, pra chegar com essa história que se passa no final dos anos 70, contando a aventura de um grupo de crianças se envolvem acidentalmente em algum tipo de conspiração militar ao gravar um filme amador sobre zumbis. É praticamente um coquetel geek. Adams trabalha bem com seus personagens bem construídos e sua pathos bem direcionada. Ele conta uma história sobre crianças dum ponto de vista infantil, adultos em segundos e terceiros planos, capturando com precisão aquela intimidade infantil, onde boys can be boys, falando palavrões, tendo hobbies, sendo eles mesmos.

É aí que ele acerta. Concentra a narrativa nos garotos, desenvolve esses personagens, gera simpatia, tridimensionaliza-os. Mas Super 8 não para por aí, e a história vai além da proporção. De conspiração militar a conspiração militar, a parada atinge níveis interplanetares, afastando o filme do que ele tinha mais força, seus personagens. O roteiro ainda amarra o ‘monstro’ com o personagem de Joe, daquele jeito que só os blockbusters voglerianos sheakspeare wannabe conseguem ser. De alguma forma, ao final do filme, libertar o vilão é a única forma de superar o trauma, e aí valha-me símbolos, metáforas e easter eggs, maçantezando a experiência do que deveria ter sido uma das melhores histórias do ano, mas que acabou sendo um thriller infanto juvenil mal aproveitado.

Outras observações:

– Christopher Volger escreveu “A Jornada do Escritor – Estrutura Mítica para Roteiristas”, um livro bastante influente e recomendável, principalmente pra quem gosta de cinema americano.

– Super 8 me chegou como uma experiência melancólica. É bem óbvio que existem duas histórias aqui, como já mencionado: o drama dos losers colegiais e o thriller, que em nenhum momento deixa de soar desconexo e exagerado. Longe de ser filme de autor ou de circuitos comerciais fechados, Conta Comigo foi produzido e lançado na segunda metade da década de 1980, e se saiu muito bem, obrigado. Vinte anos depois, por algum motivo, não é possível lançar um filme que conte tão pouco. Já existe a espera por elementos grandiosos (que são invisíveis, diga-se de passagem, já que se trata de CGI) que deve ser obrigatoriamente obedecida, do contrário, veta-se a produção.

– J.J. Abrams lançou uma série de crime e mistério esses dias, bem pior que Super 8. A televisão aberta também sofre com essas aberrações da padronização.  A máxima de Matthew Weiner realmente vale: “as pessoas gostam de ver coisas diferentes, mas na verdade não querem”.

– Kyle Chandler ainda é um notório desconhecido, vencedor de um Emmy meio por simpatia há um mês atrás. Podem anotar que o cara vai começar a aparecer.

2/5

Ficha Técnica: Super 8 (idem) – EUA, 2011. Dir: J.J. Abrams. Elenco: Elle Fanning, Joel Courtney, Riley Griffiths, Ryan Lee, Gabriel Basso, Zach Mills, Kyle Chandler, Jessica Tuck, Joel McKinnon Miller, Ron Eldard.

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