– por Bernardo Brum

Quando lançou sua obra-prima, Soavi era um aventureiro praticamente solitário em um cinema que se desfazia. Os tempos já eram outros – não à toa que seus filmes sempre tiveram aquele caráter tardio. O Pássaro Sangrento, seu debut no mundo cinematográfico, narrativamente tendia mais para o slasher do que para o giallo. O próprio mundo passava por uma grande transformação de idéias – saía o idealismo transgressor e contracultural ainda que hedonista dos sessenta/setenta e era substituído pelo sensacionalismo midiático, o consumismo desenfreado e o pouco interesse em questões sóciopolíticas; ao contrário dos inúmeros protestos de jovens dos anos sessenta durante a intervenção militar no Vietnã, a guerra do Golfo foi apenas contemplada pela geração X, os jovens apelidados de slackers.

 Esse é o espírito representado em canções como “Dumb”, do Nirvana (“talvez eu seja um imbecil, ou talvez apenas esteja feliz”) e em filmes como O Grande Lebowski, dos Irmãos Coen (sobre um cara largado que só quer saber de jogar boliche e fumar maconha que é impelido pelas circunstâncias a participar de trâmites suspeitos do local onde mora) é representado pelo coveiro protagonista de Pelo Amor e Pela Morte, Francesco Dellamorte, personagem livremente inspirado nos quadrinhos fumetti Dylan Dog, de Tiziano Sclavi (que, curiosamente, ao basear os traços físicos de seus personagens em Rupert Everett, jamais imaginou que o próprio ator interpretaria uma versão do seu Detetive do Pesadelo no cinema).

 Dellamorte é um coveiro que passa a ter como principal problema o fato que, depois do sétimo dia de morte, os falecidos começam a levantar de suas tumbas como mortos-vivos que vagam, indefinidamente, para assombrar os vivos. Letárgico, Francesco pouco parece se importar com os olhos de todo o mundo voltado para guerras, fome e doenças que estavam em todas as rodas de debate pelo mundo: a ele, só interessa seu trabalho de enterrar, e em seguida, matar novamente os zumbis com um tiro ou um golpe de pá na cabeça.

 Alheio, a tudo, o coveiro tece comentários como “Será o começo de uma invasão? Isso acontece em todo cemitério ou será o meu o único? Quem sabe? E afinal, quem se importa? Só estou fazendo meu trabalho” e “tudo é uma merda. A única coisa que não e uma merda é dormir”. Para Soavi, a conexão da obra com o seu tempo é que ela não é “sobre o medo de morrer, mas sobre o medo de viver”. Como grande parte dos slackers, Francesco não liga de contemplar a vida passivamente e nunca protagonizar nada. Nem mesmo tenta saber o motivo do levante do além contra o mundo físico.

 A única coisa que tira Dellamorte da inércia total é uma mulher anônima, referida apenas como “ela”, viúva do mais novo falecido do cemitério, que invariavelmente levanta depois de um tempo e flagra a mulher, que deveria estar de luto, com o coveiro em cima de uma lápide, mandando ver. Furioso, o morto morde a mulher. Não resta alternativa a Dellamorte então a não ser a de matar a amada. Mais à frente, irá descobrir que ela não estava realmente morta na hora que estourou seu cérebro para prevenir sua volta – o que leva o coveiro a entrar numa espiral decadente de loucura onde começa a matar desenfreadamente as pessoas mesmo antes da hora.

 Visto nesse sumário geral pode até parecer um tanto dramático e complicado com essas questões do binômio vida/morte, mas Pelo Amor e Pela Morte acaba se revelando como um delirante e surreal conto de humor negro onde pessoas não se importam com o mundo, nem de serem engolidas pelo mesmo. A estilização de Soavi, verdadeiro delírio pictórico grotesco, bagunça um mundo apático com doses cavalares de sexo e violência, como sugere o título – o original, Dellamorte Dellamore, confunde mesmo o nome do coveiro, como se só sentimentos efêmeros muito fortes como a paixão e a perda fossem capazes de atrair alguma atenção do exército de insensíveis que marcham tanto pelas cidades que Dellamorte quer limpar quanto os que se levantam do cemitério.

 Pelo Amor e Pela Morte é o relato de um Caronte perturbado, que atrapalha o trabalho da morte e de todo o além. Ele apenas deveria fazer a transição, e não superlotar o trânsito, que vai comer o pão que o diabo amassou até redescobrir o sentido da sua vida, da sua função, para poder voltar a trabalhar. Perdendo o propósito do trabalho, Dellamorte tentou fuga na paixão pela viúva – afinal, a década de noventa não foi só a década do tédio, mas também a tentativa desesperada de fazer qualquer coisa para escapar do mesmo – seja montar uma banda de garagem, correr pro circuito alternativo de filmes ou se entregar no hedonismo de anos atrás. Ao final, Dellamorte estará novamente conformado, mas não estará mais alienado. Ocorreu uma tomada de consciência – ele e todo mundo daquela cidade esquecida pelo mundo onde ele mora (verdadeiro microcosmo metafórico na trama) só quer trabalhar o suficiente para comprar um belo caixão e deixar dinheiro para os filhos comprarem um também.

 O coveiro, último homem com o qual todos nós teremos contato, percebeu que, nessa altura, iriam morrer milhares de pessoas nos próximos anos. Seu trabalho será maior ainda. Um monte de cadáveres em vida, zumbis de entropia, que perderam a noção filosófica de “busca pelo êxtase”. Segurança e comodidade são mais importantes do que isso; de onde surgiu tanta inércia alienada nesta sociedade contemporânea? Quando é que viramos os tais espectros acomodados que precisam morrer para sentir qualquer emoção ou instinto genuíno?

 Como já disse Francesco, “Quem sabe? E afinal, quem se importa?”.

 4,5/5

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