– por Michael Barbosa

Reza a lenda que o ainda incipiente Stanley Kubrick (à época com 28 anos e apenas no seu segundo longa) teve que bater o pé e brigar com unhas e dentes para que O Grande Golpe fosse lançado do modo como o editara; não-linear e brincando com diferentes pontos de vistas. O estúdio relutou, disse que ninguém suportaria aquilo, mas acabou cedendo. E o jovem Kubrick triunfou, pois fora exatamente à ousadia e à habilidade em ser instigante e ousado, porém inteligível, que vieram os maiores méritos de The Killing, um delicioso flerte de Kubrick com noir que já anunciava a brilhante carreira que estava por vir.

A história é conhecida e a fórmula já não era nova em 1956; temos um grupo distinto de sujeitos (de criminosos “profissionais a policiais, passando até por um barman) que resolvem arquitetar um plano mirabolante para ganhar uma bolada, aqui o alvo é um hipódromo. O que o filme retrata é esse antes (planejamento), durante (execução) e depois (consequência). Kubrick acerta ao dedicar pelo menos uma ou duas cenas para dar a devida complexidade da caráter a cada um dos envolvidos no golpe, tirando assim o filme da superfície, se afastando daquele maniqueísmo tão típico de mocinhos e vilões. Cada um chegou ali com os seus – e tão seus – porquês, e Kubrick se abstém de promover algum julgamenta moral, deixando essa tarefa a cargo do espectador. Como é casto aos noirs, The Killing é, ao seu modo, um romance, trabalha com a figura do duplo, do sujeito que tem em si forças opostas. Johnny Clay, o golpista chefe, recém saído da cadeia, dotado de um código ético aparente e que quer ter nesse golpe a sua jogada final para poder fugir dali com a amada, é, afinal, um herói romântico, com esses interesses dúbios e atitudes difíceis de julgar e que acaba obrigando que a análise vá além da superfície e do lugar comum.

A dificuldade mora, talvez, em ver O Grande Golpe depois de toda a análise psicológica e sociológica ímpar de Laranja Mecânica ou a metafísica de 2001, o exercício intelectual acaba sendo o de tentar abstrair as magnus opus de Kubrick que ainda estavam por vir e ver aqui as qualidades bastante únicas e nada modestas aqui presentes. Kubrick mostra saber dosar com uma precisão cirúrgica seus recursos ao mesclar a narrativa não-linear com uma narração em off que vai viajando no tempo e dando ao espectador o mínimo necessário para acompanhar as idas e vindas da história, quase como se Kubrick criasse os problemas para em seguida tentar solucioná-los; explicando para confundir e confundindo pra esclarecer, como diria Tom Zé.

O final, em todo seu fatalismo tragicômico, é ácido e niilista e acaba por falar um pouco mais sobre seu diretor, o que é, para todos os efeitos, coerente com o que viria logo nos anos seguintes em filmes como Dr. Fantástico e Lolita.

Num panorama final cabe ainda se questionar sobre o conceito de “filme menor”, tão usual em rodinhas cinéfilas para se referir a obras como essa, a questão parece ser meramente sobre parâmetro, pois se O Grande Golpe tiver seu fim em si mesmo o que temos é “apenas” (com todas as devidas aspas) um grande filme, um ponto de referência único para toda produção desse sub-gênero do filmes de assalto com pretensão de serem engenhosos que viram depois, de Onze Homens e Um Segredo à A Origem. Divertido, analítico, bem construído. Um Kubrick, pois.

5/5

Ficha Técnica: O Grande Golpe – EUA, 1956. Dir: Stanley Kubrick. Elenco: Sterling Hayden, Coleen Gray, Vince Edwards, Jay F. Clippen