No imaginário judaico-cristão, o sangue lava, purifica. Nos cinemas, o sangue também pode corromper. Me vem à mente cinco filmes que não apenas possuem uma carnificina atuando como clímax da história, mas que trabalham com a estética da violência para criar, desenvolver ou discutir um determinado ponto vista. Cinco grandes filmes de cinco grandes cineastas com cinco grandes sequências que não podem ser esquecidas depois de apreciadas.

5. Terceiro ato de Quadrilha de Sádicos (Wes Craven, 1977)

Todos gostam de falar sobre o espetáculo sangrento de Dogville (Lars von Trier, 2003), sem saber que exatos trinta anos antes, o grande Wes Craven já lidou com a relação de catarse e culpa da violência em um filme. Quadrilha de Sádicos é um dos grandes sobreviventes do horror slasher dos anos setenta, não só porque Craven detém o controle de sua narrativa, mas porque as questões antropológicas presentes na sua história possuem implicações atemporais. E ver uma família católica americana decepando selvagens é sempre muito revigorante.

4. O batismo em Poderoso Chefão (Francis Ford Coppola, 1972)

Michael é o herdeiro da família Corleone e, com a morte do pai, deve assumir o cargo de chefe das cinco famílias que controlam o crime em Nova York. Líderes de outras famílias conspiram, contudo, para assassiná-lo. Michael então ordena que os conspiracionistas sejam executados em lugares diferentes durante o batismo de sua filha bebê. As imagens de assassinatos são intercaladas com as cenas do batismo, e enquanto Al Pacino renega as obras de satã perante o padre, diversas pessoas são brutalmente assassinadas sob sua ordem. Eisenstein poucas vezes pisou tão forte em Hollywood.

3. A rebelião em A Greve (Sergei Eisenstein, 1926)

Falando no diabo, pouquíssimos filmes inspiraram tanto quanto O Encouraçado Potekim (1925) e esse. Eisenstein, financiado pelo partido comunista soviético, foi responsável pela perpetualização definitiva do advento da montagem paralela no cinema. Não se trata de mensagem subliminar. A Greve é um grito alto e claro por revolução. Datado, mas o clímax ainda é capaz de arrepiar os pelos das costas de qualquer um.

2. O final de Dogville (Lars von Trier, 2003)

“There’s a family with kids. [Kill] the kids first and make the mother watch. Tell her you will stop if she can hold back her tears. I owe her that”. Não me entendam mal ali no número cinco. Wes Craven trabalhou com princípios semelhantes aos de Trier. Mas né. Uma coisa é sujar as mãos de sangue, outra é beber o sangue de crianças enquanto a mãe está assistindo.

1. O terceiro ato de Sob o Domínio do Medo (Sam Peckinpah, 1971)

“Nem Laranja Mecânica, nem Violência Gratuita, nem Anticristo. Nem mesmo Saló. Nenhum filme estrangula o espectador com tanta força quanto Sob o Domínio do Medo. Sam Peckinpah realiza o maior estudo sobre a violência jamais feito. Do início ao fim, tudo é realizado com uma intensidade sem igual, sem paralelos ou precedentes. Não é a violência do estado contra o jovem, da mídia contra o espectador, do facismo contra a humanidade, do homem contra a mulher. É  a violência humana, pura, simples, cruel e degradante.”

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