por Bernardo Brum

Já se comemoram mais de trinta anos de carreira desde a primeira obra de Jarmusch e do início de uma carreira pragmática: ainda que não apresentasse o formalismo fiel (ainda que mutante) das suas obras posteriores, já havia a preocupação em trazer certas temáticas vistas em filmes como os de crime americanos (de Ray e Fuller), do cinema japonês clássico (Ozu) e das escolas fundamentais de cinema – como o expressionismo de Murnau e a linguagem neo-relista de Rossellini.

Em um encontro do contexto marginal do cinema de gênero com efeitos expressivos de luz e sombra propostos em planos estáticos em um ritmo de montagem mais vagaroso, servindo de “tapete” para o estilo antiteatral, desdramatizado e sem conflito, que o diretor propõe desde o início de sua carreira cinematográfica, aqui ele apresenta, de forma quase didática, a tônica de seus filmes: os personagens que, assim como a autodescrição do protagonista quando o título do filme é citado, estão em “férias permanentes”, desconectados da vida normal, levando uma vida nômade mesmo milhões de anos aós que o homem se domesticar e passou a morar em locais fixos. É em direção a essas aberrações sociais que Jarmusch aponta sua câmera de forma persistente – como se somente eles fossem capazes de dizer algo relevante sobre o mundo velho, cinza e desbotado pelo qual caminham.

 Claro, frente ao que Jarmusch iria aprontar depois – como em Daunbailó, Dead Man e Trem Mistério – o filme não era tão maduro assim; não havia o controle absoluto sobre a narrativa que Jarmusch gosta de impor, mas já há o firme objetivo de passar a impressão de não estar contando a impressão de uma história quando na verdade está, fugindo de qualquer mecanismo dramático tradicional. Por mais que existam determinados conflitos, há o distanciamento deles. Jarmusch não aproxima quem assiste da narrativa, tenta impedir a identificação narcísica do espectador de se colocar no lugar do personagem e vivenciar a situação do mesmo; fica evidenciado o caráter “espelho” ou “janela” do cinema, ou seja, que estamos como observadores de algo que não somos nós ou mesmo algo semelhante a nós.

A bem da verdade, Permanent Vacation soa mais como um ensaio, como uma aposta em características de linguagem que ainda viriam ser fortemente desenvolvidas pelo diretor em um projeto estético que, mesmo sendo refinado ao longo dos anos, não mudou o tom: há ainda a temática da perambulação, as interpretações esquisitas, os personagens sem passado e pouco aprofundados e o apelo ao nonsense e à cultura de massa. Tudo isso já era presente nesse debut, mas de forma bem mais didática e digerível.

 É curioso notar que o fio condutor das histórias, ou seja, a falta de propósito da vida dos personagens, consegue se metamorfosear nas mais variadas abordagens. Tanto os personagens de Estranhos no Paraíso, feito quatro anos depois de Permanent Vacation, quanto Os Limites do Controle, de 2009, apresentam semelhanças bem características. No mais recente, é um assassino de aluguel. Em outro, era um grupo de três jovens que se detestam, vivem em um contexto amoral e que cruzam a América profunda ao lado de uma estrangeira. Aqui, é um garoto viciado em Charlie Parker, com uma mãe internada, que atravessa bairros pobres e falidos, quase cidades-fantasma, e que acaba indo embora e cortando quaisquer laços ao final. São estranhos, sem senso de pertencimento, sem nenhum objetivo que una sua existência a de outro ser humano de forma íntima.

 Embora não se preocupe em ser um comentário social (Jarmusch se preocupa menos em mimetizar a realidade e mais em estilizar a mesma com seu ritualismo estético singular) sua produção e suas escolhas lingüísticas, fazem da obra inicial da filmografia do diretor um interessante retrato da época, dominada por tensões políticas, conflito entre publicidade e realidade e crises de valores, que acabou por cristalizar o inconsciente de uma geração estranha ao próprio chão que pisa, hedonista por falta de opção, apática e alienada com o que não os concerne.

 Em um dos seus filmes preferidos, Amarga Esperança, o debut de Nicholas Ray, Jarmusch aprendeu com o mestre a amar os vagabundos, marginais e injustiçados – e não à toa, a última obra-prima de Ray, Sangue Sobre a Neve, é citada no filme de forma muito apropriada (O esquimó de Anthony Quinn não era um criminoso ou alguém de mau caráter – ele simplesmente não conhecia as leis humanas), já que dá a tônica para descrever o personagem do filme sem precisar de muitas explicações – e Permanent Vacation foi, então, o primeiro resultado de toda essa coletânea de influências – massa imagética que Jarmusch, depois de absorver, regurgitaria em um cinema terno e estranho como só ele saberia fazer.

 3/5

Ficha técnica: Permanent Vacation – 1980, EUA. Dir.: Jim Jarmusch. Elenco: Frankie Faison, Richard Boes, Ruth Bolton, Sara Driver, María Duval, Jane Fire, Chris Parker, Leila Gastil

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