por Bernardo Brum

Jardim das delícias dos adeptos e galinha dos ovos de ouro de produtores sem escrúpulo nenhum, o cinema exploitation, com toda a sua insistência e fúria em causar choque, controvérsia e repulsa gratuitas, foi um dos significantes de formar o inconsciente de grande parte da geração jovem da época.E poucos foram tão significantes quanto uma particular obra do filão “nazista” dos filmes apelativos, Ilsa, a Loba da SS.

 Variante bizarra e pervertida da fatia da indústria cinematográfica dedicada a mostrar a crueldade e o sofrimento do Holocausto (que vai do longíquo Noite e Neblina de Alain Resnais até o mais recente O Pianista, de Roman Polanski), o assim chamado nazi exploitation ou ainda “nazisploitation” misturou ao tema altas doses de sangue, sujeira e sacanagem – influenciados pelas polêmicas obras O Porteiro da Noite e Saló ou Os 120 Dias de Sodoma – e a obra de Don Edmonds com a musa cult e dona de imensos seios Dyanne Thorne é o filme-base para toda a bagunça que se seguiu depois.

 Ainda com elementos WIP (women in prison, filmes exploitaiton sobre mulheres na prisão), Ilsa é um marco do mau gosto e da falta de noção. Onde mais achar, senão nesse tipo de cinema, uma história que envolve uma comandante de um campo de concentração obcecada cientificamente em provar que mulheres conseguem resistir mais à dor física que homens, e ao mesmo tempo uma ninfomaníaca de marca maior que sempre fica frustrada pelos seus parceiros sexuais ejacularem antes. Desculpa óbvia para determinar os nortes do filme: violência bizarra e sexo desenfreado.

 Mesmo utilizando-se de uma linguagem um tanto quanto clássica, o filme não tem medo de ousar dramaturgicamente e colocar a vilã do filme como a protagonista – a mulher que jamais cede à dor física e o homem capaz de controlar a ejaculação por quanto tempo quiser são apenas detalhe, meros antagonistas pro show de horrores promovidos pela loira. O filme é direto no ponto – a violência é realista e encenada de forma perturbadora, por vezes sugerindo, por vezes mostrando até demais e o sexo é mostrado bem de acordo com a filosofia da época de produção – todo mundo é liberal no tocante a esse assunto, e de forma até engraçada; os prisioneiros da sádica Ilsa podem até odiá-la, mas obviamente, pelo bem do filme, nem pensam em recusar uma transa com a mesma.

 Ainda que hoje tudo soe um tanto quanto forçado e ridículo, dá para entender a controvérsia causada na época: universos diegéticos que só apresentavam corpos nus e carne estraçalhada eram realmente uma nova perspectiva para um mundo que ainda se acostumava com a violência pra lá de gráfica e explícita de obras como Banquete de Sangue e A Noite dos Mortos-Vivos e a abordagem sem pudor da sensualidade do corpo feita por gente como Russ Meyer e Tinto Brass. A juventude nem quis saber: caiu de cabeça na festa degenerada e anticonservadora e só sairia de lá anos depois.

 Apesar da ambientação propícia a mostrar a “crueldade” de uns e a “via crucis” de outros, a obra de Don Edmonds não quer nem saber: sua linguagem é uma câmera intrusa, perto do espectador de forma desconfortável: quando menos esperamos, lá estamos nós e nossos olhos enxergando, através das lentes, partes anatômicas gigantescas e mutilações dignas de açougue.

 Sem distanciamento estilístico, portanto, mas curiosamente no conteúdo sim: a obra, consciente disso ou não, não toma partido de nenhum lado – não é um filme para despertar comoção e ódio, mas para causar excitação e nojo. Reflete o prazer culpado de admirar uma bela mulher que comete tanta atrocidade, ou sentir pena de gente capaz de ser tão cruel quanto Ilsa lá pelas tantas. Não que isso represente uma completa quebra de paradigma ou dê à obra algum valor artístico: apenas convenções que eram deliberadamente quebradas para esvaziar o lado narrativo da obra e torna-la um catálogo de bizarrice, um tanto difícil de julgar: o conteúdo gore-erótico é indubitavelmente bom, com cenas assustadoras e agonizantes e sexo softcore kitsch fetichista como ele só; mas o que foi criado para costurar uma cena à outra é tão ridículo que chega a ser hilário – difícil controlar as risadas quando o antagonista de Ilsa começa a explicar seu plano envolvendo o seu controle sobrenatural sobre sua ereção. Difícil acreditar que faça par com cenas como a da mulher torturada, já totalmente deformada e coberta de sangue, tentando se vingar da comandante, encenada com um realismo composto escabroso. É a essência do cinema grindhouse afinal; parte atraente e chamativo, parte demente e controverso… E com suas doses de humor involuntário pelo sem número de cenas e diálogos constrangedores.

 Assistido por mera curiosidade enciclopédica ou por fanatismo ao gênero, o filme ainda se revela tão curioso quanto sua protagonista.  Ícone de uma geração, a comandante passou a habitar o imaginário de uma geração encantada com um cinema erótico e violento como nunca havia sido visto, inclusive no mainstream – clássicos famosos da época, como Último Tango em Paris e Poderoso Chefão, traziam suas cenas envolvendo animais decapitados e dicas para fazer sexo anal. No cinema “poverty row”, então, é onde “o pau comia” – em suas mais variadas acepções. E a musa nazisploitation é a sua rainha degenerada, sentada confortavelmente no trono há quase quatro décadas, ainda sem concorrentes à altura. Um verdadeiro clássico do cinema de gosto duvidoso.

 3/5

Ficha técnica: Ilsa, A Loba da SS (Ilsa, She-Wolf of The SS) – EUA/Alemanha Ocidental, 1975. Dir.: Don Edmonds. Elenco: Dyanne Thorne, Gregory Knoph, Tony Mumolo, Maria Marx,Nicolle Riddell, Jo Jo Deville

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