por Bernardo Brum

Bandas de rock que tocavam muito alto e muito rápido. Abuso de drogas. Sexo e erotismo desenfreado e ininterrupto. Homossexualidade. Travestis psicóticos. Festas o tempo todo, em que os foliões nem ligam se há alguém morrendo no recinto ao lado, ou num país vizinho, ou atravessando o oceano.

 Tudo isso e muito mais está De Volta ao Vale das Bonecas, a perversão de Russ Meyer de Vale das Bonecas, filme adaptação de um best seller feminista sobre três mulheres emancipadas e viciadas em tranquilizantes (“dolls” sendo um apelido para barbitúricos), lançado três anos antes. O que era sério e dramático, logo ganhou tintas um tanto diferentes na visão de Russ Meyer.

 O velho doido simplesmente trocou os barbitúricos por anfetaminas e cocaína – saía o drama sério sobre o vício, entrava o melodrama barato e quase cômico, obviamente satírico com os filmes antidrogas de Hollywood; a desconstrução era feita não a partir do descortinamento de uma realidade tabu, mas através do choque sensacionalista com sexo softcore e situações e personagens bizarras aos montes; a emancipação feminina de três mulheres no underground do show business é chutada para o mundo do rock and roll; a emancipação feminina não se dá através de mulheres sofisticadas e glamourosas, mas através de garotas com peitos e bundas gigantescos, altamente sexualizadas e que jamais se deixam dominar por homens. De novo, Russ retomava ao tema “chicks with cojones” previamente trabalhado em Faster, Pussycat! Kill! Kill!.

 Tomava lugar também uma linguagem acelerada e frenética que leva algum tempo de projeção para se acostumar; esse filme, mesmo com seus 40 anos, ainda surpreende pela velocidade inventiva dos seus cortes, construindo, assim, uma narrativa que obviamente pretendia simular o abuso excessivo de substâncias ilegais. Somada com a fotografia de tons berrantes e a direção de arte assumidamente cafona, o filme de Meyer é uma farra só; com o roteiro concebido em conjunto com o crítico de cinema Roger Ebert, na única produção do diretor por um estúdio grande (a 20th Century Fox), o conteúdo da obra é o que costumam chamar de “anárquico”; mas talvez tenha mais a ver com o conceito de anomia, cunhado por Émile Durkheim em sua obra O Suicídio.

 Mesmo que o diretor não tenha lido Durkheim, os dois parecem concordar em um ponto: determinados indivíduos praticam o suicídio (no caso, a autodestruição provocada pela vida totalmente desregrada) porque não tem mais objetivos sociais, identidade no mundo “normal”, o cotidiano proposto pela cultura quadradona tem um significado vazio e eles, então, não se vêem responsáveis por ou dependentes do sistema normal; se Vale das Bonecas é o “oito”, De Volta… é o “oitenta”; uma crônica de costumes bagunceira e inconseqüente, baseada na paródia, no humor negro, na exploração e exposição sensual e brutal do corpo humano, que prefere chutar o balde e enfiar o pé na jaca do que lamentar o triste destino daquela geração.

 Assim, quando toda a contracultura hippie chapada de ácido viu seus sonhos sucumbirem ante eventos como o desastre do festival de Altamont (quando um homem que supostamente havia apontado uma arma para o palco onde os Rolling Stones estavam tocando foi assassinado pelos Hell’s Angels que faziam a segurança do show), a esposa de Roman Polanski, Sharon Tate, ser assassinada pela família Manson (fazendo levantar as suspeitas que as “famílias”, ou seja, comunidades hippies, eram indivíduos nocivos à sociedade) e pessoas sendo queimadas e deformadas graças ao napalm e agente laranja no Vietnã, a arte daquele início de década acabou refletindo o espírito depressivo da época.

 Com Malcolm X, Martin Luther King e Kennedy mortos, com os Beatles se separando, a juventude rapidamente entrou de cabeça no mundo das drogas pesadas e do sexo desenfreado e perigoso; era o espírito exposto por Mick Jagger e os Rolling Stones em Street Fighting Man (“na cidade adormecida de Londres não há lugar para um homem lutador das ruas”) ou de John Lennon em God (“Eu só acredito em mim; em Yoko e  em mim; E essa é a realidade, o sonho acabou. O que eu posso dizer? O sonho acabou”) que, junto com o livro O Vale das Bonecas, acabaram antecipando o espírito “pra baixo” dos anos oitenta, onde toda a ressaca moral das duas últimas décadas começava a causar uma dor de cabeça imensa. O sonho de transformar a sociedade era só um modismo. Modismo esse que Meyer conseguiu transformar em um pesadelo doentio.

 Se no início tudo é muito cálido e sensual, com Russ se mostrando bastante ousado ao colocar, em uma produção grande, lesbianismo explícito na tela ou dar papéis relevantes para um casal de negros, o filme logo ganha contornos de bad trip; progressivamente delirante, vem as tentativas de suicídio, as conseqüências pelo abuso sem freio de substâncias, as vítimas vão morrendo ou ficando aleijadas ou marcadas para sempre, até o final, inspirado no caso da Família Manson, transformando uma orgia em uma chacina com toques bizarros de transformismo, acabando tudo com um improvável final moralista com um tom de deboche hilário – o próprio colaborador Ebert creditou esse final ao “senso de humor doentio” do diretor.

 A encenação do clímax do filme, na orgia-chacina, transforma toda a epopéia sexual em terrível esquizofrenia – agora tudo é escuro, sangrento, sujo e perigoso. O único lampejo da cultura conservadora aparece justamente nesse final satírico – sugerindo que talvez Meyer achasse uma bobagem tanto acreditar no american way of life quanto na Era de Aquário.

 Sacaneando várias figuras da época – um produtor musical excêntrico e afetado à la Phil Spector, um peso-pesado de boxe que passa pelo show business tentando fazer sexo com todo mundo (livremente inspirado em Cassius Clay/Muhammad Ali) e a própria chacina do final, inspirada descaradamente na chacina dos Manson e encenada em uma época que a mídia tentava desesperadamente encobrir os assassinatos, Meyer não deixou pedra sobre pedra. As pessoas viviam para nada, sem motivação nenhuma. Os burgueses conservadores só se preocupavam em acumular fortuna pessoal; os doidões só se preocupavam em tomar o máximo de baratos diferentes que conseguissem; era uma geração devorando a si mesmo já que não tinha mais para onde correr. Um corpo patologicamente doente, perdido entre consumismo e hedonismo, elementos com diferenças pouco claras e tangíveis entre si, que podem ser confudir facilmente.

 Foi aí que Russ Meyer não deixa barato. Cineasta underground e libertário por vocação – é dito que a primeira coisa que fez ao receber uma classificação X-Rated para a obra foi fazer uma montagem com mais sexo, quiçá explícito, mas impedido em cima da marca fatal pela 20th Century Fox – o velho sacana do cinema fez uma obra que funde sexo, volúpia, violência gráfica, elementos de musical-rock, terror, melodrama antidrogas e uma dose muito grande de auto-esculacho. É fácil ver todos esses elementos na peça/filme musical Rocky Horror Picture Show (que deve muito a sua fusão de libidinagem, transformismo e elementos góticos ao último ato desse filme) ou no herdeiro direto de Russ na vocação para o cinema autoral maldito, John Waters, que é fã confesso da obra mais reconhecida de Meyer.

 Retrato irônico e pra lá de sacana sobre tempos confusos e perdidos, não é difícil adivinhar porque De Volta ao Vale das Bonecas é um dos clássicos do assim denominado cinema “cult”: é ousado, sem medo do choque, sem medo da exploração física, de criar discursos ambíguos ou de rir de si mesmo e dos seus próprios tempos; é um símbolo do cinema realmente independente, especificamente no campo das idéias, que mesmo quando passa pelo filtro de um grande estúdio, não perde sua carga de controvérsia e ideal de liberdade de filmar o que bem entender, como entender, construindo a narrativa que julga necessária, e não atendendo pesquisa de opinião.

 E como não poderia deixar de ser, tal grito anti-sistema, anti-padrão e anti-normalidade está soterrado debaixo de quilos e quilos de grandes seios femininos, grafismos chocantes a rodo, sensacionalismo barato, um verdadeiro freakshow no elenco e, é claro, a câmera e narrativa inventivas de Russ, com sua reverência underground pouco valorizada ou estudada mesmo nos dias de hoje, quando Tarantino e cia. fazem o que o fazem para fazer ressurgir os grandes nomes do exploitaton das cinzas.

 De toda a doideira e gratuidade esquecidas, resta o atentado em forma de película em nome do livre discurso, ainda que esse mesmo seja um tanto confuso. E também a montanha de peitos, obviamente…

 4/5

Ficha técnica: De Volta ao Vale das Bonecas (Beyond The Valley of The Dolls) – EUA, 1970. Dir.: Russ Meyer. Elenco: Pam Grier, Charles Napier, Dolly Read, Cynthia Myers, Marcia McBroom, John Lazar, Michael Blodgett, David Gurian, Haji, Erica Gavin,Princess Livingston, Edy Williams

P.S.: De brinde, vai uma excelente canção da trilha sonora, um sucesso da banda fictícia das protagonistas, The Carrie Nations:

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