por Bernardo Brum

Mandar a sutileza para o inferno parece ter sido o lema dos anos 70: se tanto o punk como o heavy metal começavam a ser sedimentados e estabelecidos e revoluções e tensões começavam a crescer de forma cada vez mais violenta, no cinema esse mal estar de hedonismo e violência denunciado em letras de canções como Children of The Grave, do Black Sabbath, não era diferente: se mesmo nos filmes mainstream encontrávamos cabeças de cavalo decepadas (O Poderoso Chefão), prostitutas menores de idade (Taxi Driver) e policiais racistas que atiravam pelas costas (Operação França), o que esperar então dos filmes de orçamento modesto e sem caras conhecidas?

A Vingança de Jeniffer é um dos melhores exemplos que servem para responder ao questionamento acima: é um filme bagaceiro e ruim fundamentado unicamente em cima de suas fortes cenas – mais “fortes” por seu conteúdo, a bem da verdade. Se a maquiagem de hoje consegue ser insuperável, as restrições multiplexes acabam restringindo em muito justamente o que eram mais interessante nesse tipo de cinema – a intersecção entre violência e sexo, o pouco pudor em expor os personagens às situações mais bizarras e humilhantes o possível, e por aí vai. Do que adianta essa onda de refilmagens se, no novo Massacre da Serra Elétrica, Leatherface mutila apenas adolescentes bonitos e atléticos? Onde está o choque do original onde o mesmo serrava um aleijado ao meio?

 Meir Zarchi, inspirado em uma suposta experiência pessoal onde de fato teria ajudado uma vítima de estupro (é bom não acreditar plenamente em um filão de diretores que faziam basicamente qualquer coisa para promover suas obras – inclusive estampar nos cartazes em quantos países a obra foi censurada, entre outros momentos geniais da picaretice humana), fez um filme que, como não é difícil adivinhar, é um fiasco na maioria dos quesitos – a narrativa é preguiçosa, certas atuações são constrangedoras e toda o desenrolar da história é um tanto cômico.

 Mas o filme acaba compensando a assistida pelo momento do estupro e os assassinatos vingativos perpetrados pela protagonista – ainda que alguns momentos tenham envelhecido bastante e hoje não sejam tão realistas assim, são momentos de conteúdo psicologicamente perturbador e encenação razoavelmente “naturalista”. Todo o prólogo e cenas de ligação são lamentáveis e nos fazem imaginar como seria uma experiência estética melhor (mas nem tanto) se Zarchi se inspirasse apenas em catalogar cenas de violência absurda. O próprio parece ter percebido isso na hora da montagem, ao não inserir nenhum tipo de epílogo para o filme, que acaba logo na marca fatal, segundos após o último assassinato ser cometido.

 Obviamente, uma história de “estupro e vingança” como tantas outras, sendo esta talvez a maior referência desse sub-subgênero – ao lado de Aniversário Macabro, de Wes Craven – não pede maiores aprofundamentos ou psicologismos de personagens, mas A Vingança de Jeniffer é tão raso e pouco crível que só resta a brutalidade gráfica, e para alguns nem isso – como para o reconhecido crítico Roger Ebert, que classificou o filme de Zarchi como o pior filme já feito na história do cinema.

 E esse cinema apelativo encontra sua encarnação mais literal em Camille Keaton. Não há como desassociar a sobrinha-neta do gênio do cinema mudo Buster Keaton desse tipo de obra. A garota é pau para toda obra e topa qualquer parada: ficar nua por quase metade do filme, encenar estupros e tortura física, receber maquiagem pesada de ferimentos, andar toda arregaçada e imunda, sem roupa nenhuma por uma floresta e sem medo de protagonizar outros momentos célebres dos filmes de gosto duvidoso, envolvendo atropelamentos com lanchas, enforcamentos, castração… São tantas as maneiras de despedaçar um corpo humano que acaba surgindo um interesse mórbido em saber como Zarchi, que provavelmente não quis se repetir na hora do pega-pra-capar, se desdobrou em criar formas cada vez mais esdrúxulas de se acabar com a vida de alguém. E tudo com Camille sempre à frente, corajosa e incansável. Sem ela, provavelmente não existiria A Vingança de Jeniffer – assim como grande parte dos filmes grindhouse sobre vítimas de abuso que resolvem dar o troco.

 Assim, todo jogado em cima dos ombros de uma garota sem pudor e de um diretor preguiçoso demais para narrativa e empolgado demais em reproduzir um açougue na tela – só que dessa vez, humano – A Vingança de Jeniffer foi um verdadeiro atentado, que tem pouca probabilidade de se repetir nesses tempos mais corretos – é só perceber como o remake, Doce Vingança, mesmo dobrando a violência continuou infinitamente mais multiplex e comercial.

 Com todas as suas doses cavalares de sexismo dos dois lados (as mulheres são retratadas como oferecidas e “sujas”, e os homens como retardados pouco espertos que só pensam em copular o tempo inteiro – é hilário ver como Jeniffer consegue seduzir os homens e eles nunca suspeitam que ela possa estar indignada por ter sido violentada) e violência doentia (a de início pacífica protagonista extermina os homens de forma engenhosa e fria, sem nunca demonstrar receio, medo ou arrependimento), somado com um creme azedo de produção feita nas coxas e pouco elaborada, e com um roteiro quase incoerente, Meir Zarchi fez por merecer seu intento – polêmica pura e simples por parte de conservadores revoltados. É a razão de ser da obra e não adianta exigir nada mais. É um cinema tosco, cruel e rústico, até imbecil em sua grosseria, feitos para públicos muito, muito específicos. E, justamente por isso, um dos grandes clássicos do exploitation.

 2/5

Ficha técnica: A Vingança de Jeniffer (I Spit on Your Grave/Day of the Women) – EUA, 1978. Dir.: Meir Zarchi. Elenco: Camille Keaton, Eron Tabor, Richard Pace, Anthony Nichols,Gunter Kleemann, Alexis Magnotti

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