– Por Allan Kardec Pereira

Naked é um filme sem plot. Sem roteiro – em um sentido mais tradicional desse elemento fílmico. Sem destino. Sobre o vazio e o fracasso. Em certo sentido, seria um “Asas do Desejo” ao avesso passado no submundo londrino. O que me agrada é que, para além de uma tentativa de lho fazer refém – pensemos filmes do filão pedante recente: Von Trier, Nóe e alguns Haneke -, Mike Leigh busca construir um personagem  humano ao mesmo tempo em que fantástico. Johny tem muito de humano, mas também tem muito de divino – ou maldito, tamanha sua ambiguidade.

Uma primeira associação a se fazer é com um personagem de Dostoievski, especialmente “O Homem do Subterrâneo”. Ambos partilham de uma ‘supremacia intelectual’ perante a sociedade. Igualmente se colocam como vítimas, por meio de seus discursos revelam-se homens solitários, pertubados, delirantes – nesse caso, a verborragia típica do cinema inglês casou perfeitamente com o discurso de Johny. Enquanto por meio de uma pesada narrativa, o escritor russo criava uma São Petersburgo sombria, onde as pessoas haviam perdido muito do sentimento de compaixão, Leigh cria uma Londres soturna, onde as pessoas igualmente se afastam, solitárias. Nesse caso, como tratamos de cinema, o diretor imprime um uso de Fotografia espetacular, baseado na predominância de cores pesadas, em especial o azul-escuro, o preto, o cinza. Estilização que casa bem com a proposta do filme. Por outro lado, a trilha sonora – um defeito corrente nos filmes do diretor – parece intrusa, repetitiva, invasiva mesmo.

O filme inicia com Johny estuprando uma mulher – cena antológica! -, roubando um carro e fugindo de Manchester. Lá, nosso (anti)herói se estabelece na casa de uma amiga. É então que começa a trajetória de nosso anjo-demônio-messias errante pelas ruas de Londres, passeando por vários tipos. Refletindo sobre e sendo reflexo de uma Londres pós-Tatcher e toda a rudeza das pessoas frente as relações interpessoais. Johny é, acima de tudo, um homem só, já que qualquer tentativa de relacionamento humano vai chocar com algum princípio dele ou de outrem.

Uma cena memorável do filme é a discussão de Johny e o vigia de um prédio, onde há todo um diálogo em torno de questões existenciais. O processo poderia descambar em um desfile de pedância, não fosse a forma eloquente, ao mesmo tempo em que segura de Johny, o que nos faz crê que para além do mal estar do homem moderno que ele evoca, é ele mesmo o sintoma mais evidente daquilo. Sendo assim, “Naked” acaba por extrapolar o âmbito da situação inglesa daquele contexto e chega a um ponto de vista universal, profundo. Se e nos desnuda, de forma plena. Não há como ficar imune.

4,5/5

Ficha Técnica: Nu (Naked) – Reino Unido, 1993. Dir. Mike Leigh. Elenco: David Thewlis, Lesley Sharp, Katrin Cartlidge, Claire Skinner.

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