por Bernardo Brum

O cinema splatter que dominou a Itália por algumas décadas – do final da década de sessenta com os primeiros giallos de Mario Bava até as últimas produções tardias no início da década de noventa, de Lamberto Bava e Michele Soavi – tanto idolatrado pelas suas maiores obras (como O Círculo do Pavor, Prelúdio Para Matar, Terror nas Trevas) quanto detestado pelos seus controversos exploitations (como Antropophagous e Emanuelle and The Last Cannibals, de Joe D’amato) ou ainda motivo de riso (graças a pérolas como Hell of the Living Dead e Porno Holocaust) – mesmo em toda sua diversidade de obras revela pelo menos um ponto em comum: a questão do corpo.

 Em um país dominado pela religião católica – nada mais que natural, já que é o centro da maior religião ocidental – o corpo sempre foi encarado como o “templo do espírito”, ou seja, uma instituição que deve ser respeitada. Certas atitudes são consideradas inapropriadas ou mesmo heréticas dentro de um centro religioso – assim a moral religiosa desenvolveu, ao longo dos séculos, uma longa lista do que você deveria ou não fazer com a moradia sua alma. Afinal, mesmo descendentes do pecado original, todos somos imagem e semelhança da figura superior e um controle constante de costumes é demandado.

 Não é à toa então, que poucos ciclos do cinema, mesmo dentro do exploitation, foram tão polêmicos e odiados quanto o ciclo canibal da Itália. E Umberto Lenzi, junto com Ruggero Deodato, um dos mais criticados pela maior parte da população que teve acesso à obra. Ainda mais direto que o Holocausto Canibal de seu companheiro de profissão, a mão pesada e sádica de Lenzi reduz as questões da existência humana a nada além de sexo e violência. Tanto quem tira a roupa e faz sexo como quem não aparece sendo torturado, mutilado, estraçalhado e devorado vivo.

 Em seu grafismo sensacionalista hiperbólico, o diretor italiano pouco se preocupa com questões formalistas: o filme tem atuações amadoras, é completamente didático na apresentação e desenvolvimento do conflito narrado e ainda se orgulha de ter no currículo a matança descabida de animais e o banimento em mais de trinta países. Esse é um ofício que Lenzi encara como uma missão. Quase um moralista às avessas, o diretor se preocupa em fazer um filme indigesto e desagradável em todos os sentidos. Tudo que tem a ver com sociedade “civilizada” ou de encarar o corpo humano como objeto “transcendente” é destruído ou pela matança snuff da fauna silvestre amazônica ou pela impessionante maquiagem de Giannetto de Rossi, responsável por “despedaçar” muitos corpos nos filmes de Lucio Fulci.

 Esse link entre vísceras e órgãos genitais, brutalidade e erotismo, fazia todo um sentido dentro de um contexto da época: o público-alvo do filme, a juventude, passava por um forte questionamento de valores à época. Feito no início da década de oitenta, acaba sendo uma representação social de uma geração hedonista (que só pensa em dinheiro, sexo e entorpeentes), que já havia perdido o rumo – caindo na brutalidade irreversível que, nesse filme, destrói a inocência de uma acadêmica que ainda acreditava no mito do “bom selvagem”.

 Para variar, é claro, nesse filme os canibais são mero figurantes: é o homem branco o principal responsável e catalisador da desgraça. As histórias repetitivas desse ciclo (selvagens devoram brancos que os ameaçaram) mostravam uma evidente revolta contra o primeiro mundo. Dentro dessa lógica, nada mais natural, ou melhor, justo, que o terceiro mundo, o mundo selvagem, não-colonizado, devore a América do Norte/Europa bárbara, que se faz passar por “superior” e até “sagrada”, quando não passam de estupradores e genocidas. Nada inovador: desde os primeiros filmes passados em terras exóticas, como Zumbi Branco na década de trinta, já era suscitado o embate entre civilização e barbárie.

 Tudo o que as décadas posteriores fizeram foi inverter o escopo, pintando o homem branco como o verdadeiro vilão, e quando é dado o troco, mostrar que não importa a civilização ou nível de desenvolvimento sócio-tecnológico, todos estão sujeitos tanto a sofrer quanto cometer atos grotescos. E por quê? Por que para toda essa geração de cineastas não tinha nada de sagrado em um pedaço de carne interessado apenas em foder, matar e consumir. O splatter-gore nada mais é que senão uma caricatura bizarra de certos aspectos sociais tidos como tabus. Se Romero expunha feridas sociais de formas elaboradas em seus filmes de zumbis, os filmes de canibais de Deodato e Lenzi eram nada mais que uma tentativa de rasgar ainda mais a ferida exposta.

 O fato de Cannibal Ferox ser filmado de maneira estilizada por Lenzi ao invés do jeito tosco e cru de Deodato em sua linguagem de “shockumentary”, com herança dos documentários “Mondo”, de Holocausto Canibal, acaba tirando muito do realismo que esse tipo de filme se propunham a trazer (tanto que Sergio Leone considerava o filme de Deodato uma obra-prima do cinema realista). Obviamente caça-níquel do gênero “pegue o que já era polêmico e faça cinqüenta vezes pior”, a “ferocidade canibal” de Lenzi é, na literal acepção da palavra, uma verdadeira pérola do mau gosto. Não é grande como cinema, mas tem seu valor inegável como documento histórico.

2/5

Ficha técnica: Cannibal Ferox (aKa Make Them Die Slowly) – Itália, 1981. Dir.: Umberto Lenzi. Elenco: Giovanni Lombardo Radice, Fiamma Maglione, Lorraine De Selle, Danilo Mattei, Zora Kerova, Walter Lucchini.

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