por Bernardo Brum

Nunca o cinema primitivo e selvagem de Mojica foi tão conceitualmente desafiador quanto em O Despertar da Besta. Talvez, o único paralelo que possa ser traçado é com o posterior Delírios de um Anormal. É um grito desesperado de protesto – em meio às drogas psicodélicas, a Era de Aquário, a contracultura hippie que ia gradativamente perdendo o lado ideológico e descambando em um hedonismo inconseqüente, o diretor via o mundo sendo tragado pelo medo de uma Guerra Nuclear entre duas superpotências, recebia imagens de brutalidade extrema do Vietnã, e nas repúblicas latinas, cresciam com poder assustador as ditaduras e seus organismos de censura repressores que não mediam esforços em prol do “bem maior”.

Num país dominado por uma crescente tensão – a extrema-esquerda contra a polícia e o exército, com eventos paradoxais como os anos de chumbo e o milagre econômico ocorrendo de forma simultânea – o formalismo do diretor é levado ao extremo do bizarro para justamente, expor as vísceras de um Brasil ignorado, do inconsciente de cidadãos reprimidos que só tinham momentos esparsos para espantar seus demônios – como ir no cinema assistir a chanchada ou então testemunhar o futebol brasileiro no seu auge. É um verdadeiro filme-colagem, com um fiapo de história sobre abuso de drogas e cultura popular que desembocam inevitavelmente no feio, no cruel e no grotesco.

Mojica, desde cedo um cineasta maldito, quando criou o personagem Zé do Caixão em À Meia Noite Levarei a Sua Alma, de 1964, já conhecia muito bem o lado negro do espírito “ame-o ou deixe-o” encarnado em marchinhas como Pra Frente Brasil. Em plena efervescência do Cinema Novo e do Cinema Marginal, a brutalidade do diretor, principalmente nesta obra, chocou os censores, fazendo o filme ser banido e só ser restaurado e exibido dignamente em 1982, quando foi rebatizado como O Despertar da Besta.

A polêmica em volta dos “torture porn de multiplex” atuais pouco faz volume se comparados a controvérsia do diretor paulistano que acabou projetando seu status para fora. Se no Brasil ele acabou virando uma persona cômica, o toque transgressor de suas obras impressionou muita gente, tornando o diretor e sua figura um verdadeiro objeto de culto. Mojica nunca escreveu nenhum artigo sobre cinema ou teorizou acerca do assunto, como fizeram tantos contemporâneos: seu conhecimento é puramente prático e regurgitado de tudo que lia e assistia – os quadrinhos e filmes de terror da Hammer, mas devolvidos por Mojica de forma nervosa, explícita e pouco afeita a amenidades. São filmes anti-convencionais, anti-establishment, de um dos poucos diretores daqui que pode-se chamar de marginal. Por natureza, por não conseguir adequar sua linguagem em nenhum outro lugar.

Nesse caso, ele antecipava em pelo menos dez anos a ressaca moral que foi a década de oitenta. As guerras eram uma mentira, o milagre econômico outra mentira, o sonho hippie outra mentira. É notável, aqui, traçar certo paralelismo com a banda primordial do heavy metal, o Black Sabbath: a adoção de cores escuras, sonoridade pesada e temática fantástica tinham sido igualmente um protesto de Ozzy Osbourne contra, segundo o que ele descreveu, “a merda de lugar onde vivia”, onde “paz e amor” não era uma resposta satisfatória.

Décadas depois do seu lançamento, ainda é notória a ousadia formal do Ritual dos Sádicos de Mojica. Poucas vezes foi feito um catálogo tão grande da perversão humana; a narrativa vai sendo cada vez mais fragmentada até não restar nada além de explosão bruta do ID, do instinto, do animal que o homem insiste em negar: é um conceito que Mojica antecipou até mesmo Lucio Fulci, quando o mesmo, com Pavor na Cidade dos Zumbis e Terror nas Trevas, tentou fazer filmes assim chamados por ele de “absolutos” (segundo o italiano, filmes que contivessem todos os horrores do mundo: enredo e lógica em segundo lugar, atmosfera sensorial e imagens impactante sem primeiro).

Como já tinha feito antes, ao juntar terror e controvérsia social (Mojica ainda era o homem que comia carne na Sexta-Feira Santa, afinal de contas), Zé foi pioneiro de novo, juntando o horror a novas tendências narrativas, antecipando até mesmo a produção de países que logo se firmariam como absolutas no gênero naquele período, como a Itália. Naquele Brasil confuso, atemorizado e perdido nos anos 70, Mojica foi um símbolo não apenas de terror, mas de resistência. Um artista que não se importa em ser desagradável em sua luta eterna contra o inconformismo, por simples vocação de não se contentar nem se intimidar. Seus melhores filmes são o resultado e praticamente da essência da eterna luta da câmera, do dispositivo artístico-narrativo, contra a grande roda social repressora e punidora. E Ritual dos Sádicos é esse atento contra os “bons costumes”. Um literal “cinema contra a máquina”.

5/5

Ficha técnica: O Despertar da Besta/Ritual dos Sádicos – Brasil, 1970. Dir.: José Mojica Marins. Elenco: José Mojica Marins, Ângelo Assunção, Ronaldo Beibe, Andreia Bryan, João Callegaro, Ozualdo Candeias.

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